Thursday, March 30, 2006

Para nunca esquecer o "ontem"...



Noite, passeio, meias, ténis rotos. Queda, dor, sorrisos, gargalhadas, suor que arrefece a pele que escalda, brisa fresca, esplanada e saudades das noite de Verão. Café e àgua com muito gelo e casca de limão. Pessoas que passam e pessoas que já passaram. Boas noites em atraso e o até amanhã desejado. Cansaço, voltas na cama e o acender de luz. Copo de leite e pinhal. Musica, sonolência e sonho...

Tuesday, March 28, 2006

Sempre com um sorriso nos lábios...

- Onde dói?
- Aqui...
- Ai onde?
- Aqui bem debaixo da camisola, da pele e da carne...
- Deixa ver...
- Não... não podes... não se vê...
- Porque te dói?
- Desde ontem que a minha cabeça não para de latejar e sinto que o coração me salta pela boca.
- Mas quem te fez mal...
- Não foi quem... foi o quê!!!

Desde ontem que ando assim... voltei a não dormir. Prometi a mim mesma que não voltaria lá, mas foi impossível. O meu coração alia-se de tal maneira a minha imaginação que a mente não obedece aos estímulos do que é consciente. E sei que nos dias mais rotineiros não posso lá ir, porque não tenho forças suficientes para voltar ou simplesmente não quero.

Olhei, e como sempre lá estavam ambos há minha espera sentados no limite da rocha com os pés pendurados para lá, bem ao lado do ponto geodésico... o sol ainda estava bem alto, mas reparei que se preparavam para passar noite. Por vezes penso que para eles é tudo tão mais fácil, conseguem-se desligar em escassos segundo enquanto eu vou largando bocados de mim e andando só por metade... e mesmo que depois que os queira juntar novamente tornam-se incompatíveis...

Desta vez fui a pé, para demorar mais tempo e para o caso de me arrepender voltar para trás ainda mais devagar. Vou assustada porque sempre que me chamam sem aviso prévio é por alguma coisa não estar realmente bem. E desta vez não foi diferente, num raciocínio rápido senti a má noticia que lhes ardia nos lábios.

Alguém destruira por completo o mundo de Henric... fora assaltado no sossego da sua auto caravana. Alguém espatifou por completo tudo o que ele tinha, destruindo em pontapés tudo o que era quebrável...

Mas o que é realmente fantástico, é a forma como aquele homem aceita este facto sem julgar e continua a sorrir enquanto recolhe cada caco com as pontas dos dedos...

E continuo com o coração pesado... porque não quero sentir pena dele ... mas neste momento não consigo ter outro tipo de sentimento qualquer...

Monday, March 27, 2006

Não posso dizer... não posso!!!

- Pssssiiiiuuuuuu, hó vizinha, vizinha...
- Sim, diga rápido que tenho o feijão ao lume!!
- Já soube?
- Soube do quê?
Apontando com dedo indicador para a terceira casa do bairro e respondeu:
- O Teodoro tem nova mulher. (sussurrou em tom de escárnio).
A outra colocou uma cara de horror e esquecendo-se completamente da panela que apitava no fogão...
- mas o lado da defunta ainda nem arrefeceu...
- É para ver vizinha, como são os homens. Não podem estar sozinhos.
- E é aqui do bairro?
- Não se sabe, nunca ninguém lhe pôs vista em cima, apenas já à noitinha se dá por ela... aqueles que lá por perto passam ouvem-lhe os passos.
- Só à noite? Que pouca vergonha...
- Dizem ainda que há-se ser uma bela mulher... pelos vultos que trespassam as cortinas coçadas.

Mais duas vizinhas se juntam ao mal dizer, atirando exagerados comentários sobre a mulher misteriosa. E outras duas formaram seis. E das seis expandiu-se como um rastilho que rebenta ao fundo com estrondo. Deste estrondo já todos os desocupados ocupavam-se agora em descobrir quem seria tão misteriosa companhia do jovem viúvo.

- Diz lá quem... que nos matas de curiosidade...
- Não posso dizer... não posso.

Na sociedade recreativa já os mais velhos faziam apostas nas cartas com o nome e outros devaneio menos próprios. Os mais novos mandavam piropos aprendidos em casa e as mulheres de avental juntavam-se à porta da mercearia já com inveja da nova que viria.
O padre ao domingo pregava sermões de bons costumes e dos anos de luto que se deve carregar. Três insistia o padre, com os três dedos bem esticados para cima e os olhos posto no Teodoro. O padre encarava-o, todos o encaravam.
Na confissão voltava o padre a insistir:

- Diz-me Teodoro quem é essa mulher que te visita à noite?
- Não posso dizer senhor padre... não posso.

E foram estas as especulações que circundaram em todo o bairro, durante dias, semanas e meses. Sem ninguém esquecer...

Uma noite a sirene do carro de bombeiros tocou e voltou a tocar, significando fogo. Havia um incêndio no bairro. Na agitação todos saíram de casa para IR VER. Uns em trajes menores outros ainda semi-nus, em magote desceram a rua principal do bairro, parando junto à casa que ardia. A terceira casa do bairro.

O fogo foi extinto, devorando por completo a casa e todo o seu interior... momentos depois o bombeiro que entrou e saiu com José Teodoro em braços...

E uma grande exclamação percorreu todos os presente. Alguns gritaram outros ficaram estáticos, algumas mulheres desmaiaram e crianças choraram...

José Teodoro vinha já sem vida. Trazia ja meia ardida uma peruca loira e vestido as roupas da defunta...

Friday, March 24, 2006

Eternamente assim...



Aquilo é que era tempo... um tempo que passou tão rápido que agora os meus dias são passados a olhar lá para fora sentada com um corpo velho e gasto que já não me obedece, numa cadeira junto a uma janela onde a paisagem apenas muda com as estações do ano. Os carros que passam e as pessoas que acenam são sempre as mesmas, a vida lá fora não pára e minha cá dentro não avança. A que tive acabou numa rotina que se reparte entre refeições pontuais e medicação regrada, num caminho separado em dois passos entre a minha cadeira articulada e a minha cama.

Olho a cara das três gerações que eu própria gerei com o amor de uma vida inteira, olham-me com compaixão e sorriem-me como se estivesse louca, só porque deixei de falar. Por vezes desejo que não apareçam mas depois anseio constantemente pelas suas visitas. É a força do sangue. Ou então já é o cansaço e o “destreinamento” de ter que pensar no que é correcto.

Já me conformei que o corpo é mesmo assim... não consegue acompanhar o espírito. E o espírito por sua vez vai-se descolando.
Olho os meu pés deformados. Pés que outrora brilhavam numas sandálias de veludo azul que o meu marido me comprou numa avenida francesa, vestia uma a saia xadrez a condizer e colocava um grande chapéu nos meus enormes caracóis, que hoje estão reduzidos a linhas brancas... e ambos passeávamos de braço dado. Mas apesar de ver o meu corpo a deformar-se e encolher, observo o meu rosto no reflexo do espelho e continuo a ver-me como sempre fui... elevo as mãos com os dedos disformes e afasto um lindo caracol que sempre insistiu em cair-me sobre os olhos... sorriu e uma fileira de dentes confirmam que serei, apesar de os outros não conseguirem enxergar, eternamente assim...

A minha saúde está presa a lindas recordações que trago ao longo destes noventa e oito anos. Aqueles que não aguentaram tanto tempo visitam-me à noite... e juntos viajamos para trás e vivemos as emoções dos dias mais felizes da minha vida.

Como é habitual no verão sento-me na grande cadeira de baloiço que está colocada no alpendre da grande casa com vista para a barragem. Uma aragem vinda de sul revolta as arvore que circundam toda a herdade e na relva fresca as três crianças brincam tranquilas com os cães acabados de nascer. Ao longe o sol tardio torna toda aquela paisagem em cores inexplicáveis... as minhas cores e os meus cheiros de menina.
Estico o braço e de uma outra cadeira de baloiço muito juntinha aquela onde eu estou sentada, uma mão grande e familiar entrelaça-se com a minha...

Tuesday, March 21, 2006

Estátuas quentes!!

-Gostas do meu vestido?
- Gosto, essa cor condiz com os teus olhos. Cor de rosa. É feito de quê?
- De lã, caxemira e renda. Fui eu quem o fez... cozi com cabelos de várias cores. É um feitiço que me ensinaram.
- Feitiço? Para que precisas de um feitiço?
- A muitos anos ainda em pequena, uma velha muito velha leu-me nos olhos, que um dia encontraria alguém que iria olhar para mim para lá de tamanha feiura. E que seria num lindo baile...
- E onde é esse baile?! o mensageiro não apregoou baile algum...
Mas continuou a cantarolar... como se a irmã não existisse sequer...
- Vou colocar o cabelo no alto nuca, disfarçará decerto a esta minha feiura, colocarei pólen de flor "marron" na pele para parecer mais rosada e nos lábios banha com corante vermelho. Apertarei o vestido ate encolher gorduras.
- Sim (proferiu pacientemente) realmente, realça-te as curvas. Estás linda...

Aprontou-se apressadamente... a irmã pensou tratar-se de mais um devaneio. Pois desde pequena que era mole de inteligência. Alias não seria a primeira vez que ela se iludia em bailes e festivais para os quais só ela era convidada. Dizia o senhor doutor que também era veterinário, num dos últimos devaneio do qual não foi fácil trazê-la de volta, que se tratava de dores de solteira... que se curava com sangramento.

Vivia num não conseguir aprender... vivia dentro de um mundo só seu que tinha um enorme jardim... e se transformava naquilo que desejava. Desta vez passeou por dentro de arcos abobados, avenidas herbáceas e parou de frente para um corredor de calçada ladeada de sebes muito bem aparadas. Algumas estavam milimetricamente alinhadas de quatro em quatro e esculpidas em animais fantásticos.

Ao fundo desse mesmo corredor uma porta com janela... correu imediatamente antes que fosse proibido e em segundos já estava de pé junto à janela. Na humidade interior de respirações, dos vidros não conseguiu ver nada... limpou com a ponta do vestido mas era de dentro... voltou a espreitar, e sem querer com um simples toque de nariz abriu-se...

Estava a decorrer um festival de musica e cores que rodopiavam num salão luxuosamente ornamentado. Cheirava a beleza interior, verdade e sabedoria. Estranhamente estava cheio de pessoas. Pessoas bem vestidas e a rigor. Vestidas à época e a muitas outras épocas anteriores. Mas o mais interessante é que estavam todas paradas, como se de estátuas se tratassem. Estáticas em posições de segundo antes... como se algo ou alguém tivesse entrado de repente e as tivesse paralisado. Tinha pensamentos fracos para “descorrer” o que se passava. Para ela era um baile onde animadamente se confraternizava independente do indumentária... passou por entre todas, tocou-lhe e pareceu sentir. Dançou com este e aquele numa dança onde só ela se movimentava.

Ao fundo um rapaz parado em posição de convite de dança.
Encaixou as suas largas ancas nos braços estáticos do rapaz e rodopiou... apaixonou-se... pelo rapaz que não se mexia...

Por fim lutou com o cansaço... caiu na exaustão. Aconchegou-se nos braços do rapaz que não se mexia e adormeceu... estremunhou por várias vezes e pareceu-lhe ver as pessoas estátuas do baile a movimentarem-se e a rir. O rapaz sempre ao seu lado agora com os braços mornos acariciava-lhe os seus cabelos cor de laranja. Numa sonolência voltava sempre a cair no mesmo sono profundo... e repetidamente via as estátuas em posições diferentes cada vez que abria os olhos...

Friday, March 17, 2006

O dia que voltou ao inicio!


Acomodei-me de tal maneiras as minhas sensações que andei entregue apenas a um deambular... Estive semi-transparente e como se de um camaleão tivesse genes, confundi-me nas cores e nas formas de tal maneira que me esqueçi de voltar à configuração inicial.

Confiada a mim própria, sentei-me numa esplanada quase vazia. Sento-me na mesa de sempre para me dar a entender de uma vez por todas que tenho raízes e costumes... os outros que por mim passam entregues as suas vidas circulam em câmara rápida como se o mundo fosse acabar... lentamente recosto-me na cadeira e deixo todo o meu eu absorver os sol morno...

Num palco improvisado do bar de madeira uma rapaz acaba de tocar uma melodia qualquer... tocava melancolicamente uma viola. Na sua expressão o sentimento. Em espaço aberto novas notas misturam-se com o murmurinho do dia a dia, fazendo no entanto uma melodia deliciosa.

Em cada corda que toca o som tranquilizador das notas penetravam pelos os meus ouvidos em busca da minha substancia, como se de um elixir se tratasse. Olhei o céu e deixei que devagarinho o dia voltasse ao inicio...

Tuesday, March 14, 2006

14.03.06


Por entre os postigos da janela do quarto, a ainda escassa claridade de um novo dia tirou-me o resto das horas que tinha para dormir. Em voltas e mais voltas por entre os lençóis um braço fantástico que me destapa e uma voz chamativa vinda na brisa, empurram-me para mais um amanhecer. Não era a primeira vez, nem seria a ultima que isto me acontecia conscientemente...levantar-me antes do sol.

Sentei-me em cima da mota das quatro rodas... desta vez ia sem destino. Levei apenas comigo o meu silêncio e deixei-me resvalar numa enorme vontade de apenas querer estar e andar por ai. Na loucura do vento que aumentava com a velocidade, procurei a saída de dentro de um jogo perigosamente rotineiro e aproveitei os seus uivos por entre os cabelos, para trautear pequenas melodias.

Com uma sede de querer enxergar tudo, rodopio a cabeça em carrossel de marcha lenta e calmamente vou alimentado a retina com cada imagem que contemplo, fechando os olhos ao som de um clic inventado, captada por uma objectiva que não existe.

O nevoeiro, que adivinha mais um dia de calor, vai-se dissipando em contagem crescente, deixando vislumbrar à medida que o trespasso as magnificas cores roubadas aos mistérios da noite. E com uma imaginação que salto ao mínimo impulso, invento como é a essência do quê ou quem tem intervenção no desenvolvimento em um simples acto... tão sublime.

Sítios rotineiros que simplesmente se tornam habituais a minha passagem, convertidos em locais encantados e arrumados na memoria de um dia, que a seguir se disfarça de igual a todos os outros, deixando-me num saboroso silêncio...

O que senti dentro de mim jamais conseguirei descrever ou até compreender para o transformar em palavras... apenas no meio de tantos sentidos encontrei uma enorme vontade de o partilhar...
Aqui...

(5h00-7h)

Thursday, March 09, 2006

A senhora do restaurante...

Sento-me sempre confortavelmente na mesma mesa do canto para almoçar. Desde o dia dos sapatos de salto alto que o Sr. Josué ficou mais simpático e nunca poupa uma piada sobre assunto. Mas para mim bem melhor, porque assim tenho sempre a mesma mesa reservada...

Geralmente engulo o almoço demoradamente, em amena conversa com duas boas companhias. Mas hoje não foi nada disso que me aconteceu... fui almoçar sozinha... e como é normal para quem se senta sozinho numa mesa de quatro lugares, tem que partilhar a refeição com quem não conhece. O que maior parte das vezes é proveitoso no sentido das coisas que se aprende em conversas ocasionais com pessoas diferentes. E sinceramente até aprecio bastante.

Via-a chegar... aliás todos os que estavam no restaurante viram-na chegar... Vestia um enorme casaco de pelo de raposa (penso eu). A cor da pele era difícil de adivinhar devido às várias camadas de maquilhagem. O cabelo amarelado com umas madeixas roxas completamente armado e enfeitado com brincos e colares ofuscantes. Sentou-se ao meu lado. Olhou para o meu prato e encolheu a cara repugnada... (até ali não fazia ideia que uma simples sopa era assim tão repugnante.)

Pediu-o o que tinha que pedir, e como já estava a demorar muito pôs conversa comigo. Encarei-a e imaginei-a nua com cara de raposa. Não reprimi um sorriso. Começou imediatamente por me contar de onde era, descrevendo ao pormenor o todos os seus luxuosos bens materiais. Revelando ainda que o marido era dono de uma empresa qualquer.
Retirou da mala um cartão e esticou-me a mão dizendo que se precisasse de alguma coisa era só telefonar para ele. (Pensei que no mínimo lhe telefonaria para dar os sentimentos.)

Numa alegria eufórica, e com a voz num tom bem alto não fosse alguém não conseguir ouvir, falou-me das festas, das compras que fez e das que iria fazer naquele dia. Falou das viagens ao Brasil, e àquela cidade que não se lembrava do nome, onde foi ver uma exposição de quadros horríveis com bois. (Pobre Picasso, que barbaridade).

Falou-me ainda dos concerto que costumava frequentar. E foi então que o restaurante desmoronou-se em cima de mim quando ela começou a recitar Tony Carreira. “– A menina não conhece!?” Exclamou espantada... (quase pensei que era sacrilégio andar sem um CD do dito no carro).

Voltou a olhar para a minha cara de incrédula. Depois calou-se. Perguntou-me de onde era.... quando eu ia abrir a boca para lhe dizer que não era de lado nenhum porque não tinha intenções de iniciar uma nova conversa ... voltou a olhar... olhei-a bem no fundo dos olhos, estava vazia... e senti uma enorme tristeza. Mas não sei se por ela se por mim...

H. e C. voltem depressa... estão perdoados...
Kiau! ainda bem que não estavas comigo. Se não tinha sido uma macacada pegada de tanto rir...

Tuesday, March 07, 2006

"nonna..."

Despertou com uma dor alucinante nos braços e nas pernas. Nos lençóis brancos postos de lavado na noite anterior, rastos de sangue por todo o lado.

Não se conseguia mexer.

De esguelha olhou para um dos pulsos e viu atarraxado na carne um pequeno parafuso de onde suspendia uma corda de nylon muito fina, quase transparente. Revirou os olhos para o lado oposto e a mesma imagem foi revelada. Tentou levantar a cabeça e seguir com o olhar de onde vinham as cordas....

Passavam esticadas para lá do tecto do quarto.

Prostrou-se naquela posição. Ao fim de horas sem conta, sentiu um esticar de corda num tornozelo. Depois no outro, e a seguir nos pulsos. Viu-se a sair do quarto sem coordenação de movimentos. Não sabia para onde ia, ou para onde a levavam... a vontade própria fora-lhe roubada e consumida por um não querer. Entregou-se por completo aquele arrastar de existência, guiada por quatro cordas suspensas de um tecto. E apenas uma vez quando num forte suspiro tombou a cabeça para trás e observou nas extremidades qualquer coisa que deixava passar a luz...

Não conseguiu distinguir de forma clara e nítida o que era.

Com o tempo as feridas na carne causadas pelos parafusos foram fechando. E o organismo em vez de expelir aqueles corpos estranhos, recebeu-os como se de um apêndice necessário se tratasse. Tornaram-se parte integrante do seu próprio corpo...

Causavam dor transformada em desconfiança cega, a qualquer roçar...

Certo dia o vento trouxe consigo nos bolsos o cheiro a mar e atirou-lhe à cara pontinhos de sal. Soprou-lhe violentamente palavras ao ouvido e trespassou-a com um fino objecto cortantes desinfectado com memórias. Lucidamente suspirou.

Em surdina disse entre os lábios que gostava de lá voltar...

Sem nunca ceder a um único afrouxar de corda, aquilo que na extremidade fazia de si uma autêntica boneca de madeira oca, guiou-a benevolentemente em movimentos rápidos por um caminho que tão bem conhecia... mas dentro de si ecoava o grito de que seria apenas um momento...

depois regressaria aquela subsistência.

Naquele sitio... o que era antes o seu sitio e o que estava destinado a ser seu para sempre, sentou-se inerte. Ressentiu as cordas de nylon a afrouxarem os esticões. Sentiu beijos de saudade nos salpicos salgados e observou as línguas do oceano lamberem as rochas, por debaixo dos seus pés. Em laivos de memoria foi-se recordando... mas não conseguia chorar...

aliás nunca conseguiu...

Sentada naquele sítio. Atestou-se. Num movimento bruto vindo de dentro de si atirou-se para o precipício... aquilo que na extremidade fazia de si uma autêntica boneca de madeira oca, tentou em vão esticar as cordas para a suspender naquele mergulho. Mas as cordas não aguentaram o peso morto que caia a pique. Os parafusos saltaram arrancados pela violência do esticão, lacerando as feridas fechadas...

...despenhou-se no precipício... ao cair nas águas salgadas todo o seu corpo lhe ardeu... sentia-se a curar...

Thursday, March 02, 2006

Encantada!

Já não se recorda porque se chama assim. Um dia alguém lhe explicou porque se chamava floresta encantada... mas deixou a história entranhar-se de tal maneira nas memorias que já não consegue distinguir a realidade da fantasia.
Para si era assim. Era encantada por ser habitada por seres que o seduziam. Seres que habitavam nas arvores, folhas e ramos. Leituras inventadas no musgo que o faziam perder-se em gargalhadas, e caminhos de terra percorridos em loucas corridas com aqueles que por lá passavam. Refeições tomadas e partilhadas em manjares nocturnos que duravam horas entre taças de vinho brindadas e folias até ao nascer do sol.

Um dia tomaram-no por louco. Apanharam-no desprevenido. E num queixume constante dos que não lhe queriam bem, encarceraram-no num espaço onde por tempo indeterminado iria permanecer... dentro de um quarto branco, com uma cama branca.

***

...Sentada, na sua secretária lia e relia os papeis que lhe tinham sido entregues naquela tarde. Leu o historial daquele homem. Os mais sábios já tinham ditado a sua sentença, a si cabia-lhe apenas chamá-lo à realidade... mas que realidade... a sua própria?! Retirou da estante detrás de si um manual...

Percorreu os extensos corredores brancos. Entre sobe e desce de escadas, parou em frente de uma porta branca com o numero que trazia nos apontamentos... a porta abre-se. Num canto do quarto imaculadamente branco estava ele sentado. De dentro da sala imanava um odor intenso a vegetação... cheirava estranhamente a floresta. Entrou... num monologo de palavras bem ditas de um vocabulário muito bem estudado dirigiu-se a ele... não recebeu uma resposta ou um único movimento.

***

... o sol estava a pôr-se, o alaranjando começava a dissolver-se com os verdes escalonados escurecendo-os do mais claro para o mais escuro. No topo do caminho ele inspirou... correu até terreno desmoitado no meio da floresta, e no chão a toalha de folhas de eucalipto e castanheiro gigante já estava preparada... o seu lugar era o mesmo de sempre... sentou-se, pegou na sua taça de vinho e a folia começou até ao nascer do outro dia..

Wednesday, February 22, 2006

O tempo...


Sento-me de perna cruzada. Reparo nos movimentos constantes, que inconscientemente faço com o pé. Adivinha inquietude.
O chão passa a uma velocidade estonteante e não consigo perceber se sou eu que estou em deslocação ou não.

Anseio pelo daqui a bocado e pelo mais logo. Anseio por amanhã e pelo depois de amanhã. Corro ao lado de um tempo que não descansa, Tentando fintá-lo para o ultrapassar destemida... mas não consigo...

porque ao fim de tanto tempo... é que me apercebi que quatro dias podem vir a ser uma eternidade...

Monday, February 20, 2006

amicitate...


- Estás a dormir?
- Não consigo... estou com medo...
- Estás com medo de quê? (Indagou irritado)
- Não ouves o vento a chuva... e escuta... granizo... isto não vai aguentar...
- Pelos vistos este não se incomoda! (gracejou nervosamente)
- Pois... mas poderia cair o mundo que ele nunca acordaria...
- Descansa que com o peso de nós os três isto não voa de certeza...
- E com o peso de dois... aqueles que estão ali ao lado... será que aguenta?! (retribuiu exaltada)...
Olharam aterrorizados um para o outro...
- Alguém!!!
Gritou. Não obteve resposta.
- Alguém!!!!
Gritou. Voltou a não obter resposta.
- Que se passará. Não consigo ouvir nada... vou sair...
- Espera... se ambos sairmos daqui, de certo isto voará tudo, e levará consigo o que dorme... sozinha não resistes...
- E então os outros...

O Barulho da tempestade de encontro à lona, era ensurdecedor. Fustigada por ventos vindos em todas as direcções, acompanhado por rajadas de um granizo voraz, não aguentaria nem mais uma lufada.

Ela estava seca de tanta angustia. Só poderia contar com a destreza daquele que neste momento tinha os olhos injectados de sangue, perante tanta impotência. Perante um inimigo que idolatrava. Perante quatro vidas mais uma... a sua que daria pelos os outros...

- Temos que sair daqui os três ao mesmo tempo! (disse por fim)

Acordou violentamente o do sono pesado... estremunhado ouviu com atenção o que os dois lhe relatavam. Preparam-se para levar apenas o essencial... a roupa do corpo e os impermeáveis... e como que numa corrida cronometrada, abriram os fechos e saltaram os três ao mesmo tempo. Rebolaram paralelamente pela chão de terra preta. Mole...

Rapidamente uma língua de vento invadiu o interior da lona. Arrancadas como palitos de madeira frágil as estacas, que saltaram uma a uma. E num fechar de olhos, desapareceu velozmente no ar, levando consigo tudo o que estava no seu interior.

Os outros dois do lado, lutavam insolentemente com o vento. Não restou nada. Arrastados pelos demais resmungaram. Se deixassem teriam voado também...

Com a roupa ensopada, e os impermeáveis que se tornaram inúteis, deixaram-se ficar até onde tinha conseguido correr pelo caminho. E pediram protecção às acácias... Olhavam na mesma direcção estranhamente impávidos... maravilhados...

Wednesday, February 15, 2006

Simplesmente sublime!!


Ontem à noite quando cheguei não havia luz. Apenas a luz da grande lua ilustrada nas nuvens negras, que deambulavam no céu, ao sabor do um vento estranhamente morno. Penso que avisava chuva.

Guiei por uma estrada iluminada de candeeiros de rua e virei à esquerda para uma dimensão completamente diferente. Toda a aldeia se encontrava às escuras. Os aldeões que ainda não tinham terminado as tarefas agrícolas diárias, corriam apressados com o gado de um lado para o outro, e àquela hora a pequena drogaria que vende tudo já estava fechada.
Parei o carro e sentei-me num dos bancos do Largo do Coreto. Senti-me realmente feliz por ter o privilegio de poder estar ali... e naquele momento não precisar de mais nada... apenas estar ali... a observar e a ouvir...

...uma musica realmente bela. Aquela que consigo ouvir no silêncio da escuridão, porque fico mais atenta... Ao barulho dos cascos dos animais, que não vejo, a rasparem na calçada antiga e dos seus respectivos badalos. Ao tic tac do relógio da torre da igreja que ameaça bater a repique a qualquer momento as sete horas. Às folhas dos grandes Plátanos que roçam umas nas outras. Aos mochos que piam, e aos vários espanta espírito espalhados pelas casas que se agitam com a passagem do vento, criando entoações no final de cada refrão.

Cheira a petróleo... pendurados nos toscos alpendres das casa da aldeia, vários candeeiros acesos iluminam o pouco espaço exterior. Mas o que interessa é a sua presença e efeito... De todas as janelas dessas mesmas casas exalava a luz das velas acesas. Um luz laranja vinda de uma chama que desloca delicadamente as sombras de coisas inanimadas, e de dentro o cheiro de mais uma refeição nocturna que se mistura com outros odores... simplesmente sublime...

Estaciono melhor o carro sem acender os faróis, jamais quereria quebrar aquela magia, e dirigi-me a pé para casa. Embrenho-me na escuridão e vou ouvindo todos os sons ao compasso da minha caminhada.
No espaço que vou percorrendo, cruzo-me com um cão bem grande e familiar que apenas sinto quando já me está a lamber as mãos... e felizes rumamos a casa...

Tuesday, February 14, 2006

Elas as duas...


Estavam ambas sentadas à minha frente. Na mesa da esplanada que se encontra mesmo virada para a praia. Um fim de tarde morno, que proporciona o aconchego na cadeira e um sorver de palhinha na lata de chá gelado, para ouvir mais histórias realmente fantásticas, durante tempo indeterminado.

Sempre as conheci assim, e não as consigo imaginar em outra idade. Talvez seja o meu amor por ambas que me tolda os olhos para ficar eternamente com a mesma imagem... uma morena e uma loira... uns olhos castanhos e uns olhos azuis...

Todas as vezes que nos encontramos as três é para recordar, ou melhor para elas recordarem e eu ouvir... contam autênticas fábulas para crianças saídas de histórias verdadeiramente vividas por ambas, em outros tempos mais longínquos.

Imagino-me sempre a mim como uma das personagem que vive todas aquelas extraordinárias aventuras num espaço físico que tão bem conheço. Invento uma irmã que não tenho e sento os meus irmãos num banco à espera de uma aventura em que os rapazes também entrem. Por vezes vou à caixinha das memorias buscar as imagens que vi nos retratos sépia espalhados pelos vários apartamentos, e convido-as a virem também.

Completam as frases uma da outra falando em código de meninas que não entendo, e riem sonoramente sem parar... até às lágrimas. Falam de nomes infantis, que apenas conheço já em adultos... e torna-se difícil imaginar esses mesmo adulto, que hoje estão condicionados pelos movimentos da idade a subirem às arvores e aos telhados, correrem pelos montes distantes e roubarem caramelos na mercearia.

Em algumas ocasiões, de frente para ambas apenas consigo sorrir daquilo que não percebo... porque existem coisas que não se conseguem explicar, somente se conseguem viver ou imaginar... sorrio porque vou achando graça aos adjectivos que utilizam para descrever pessoas, ou um tempo em que alguma coisa muito importante aconteceu.

A história que mais gosto é faço sempre questão que a repitam para finalizar o encontro, é a do Circo. Em que um Edmundo qualquer que elas conheceram, num dos anos em que o Circo desceu à aldeia, se apaixonou perdidamente pela mulher barbuda, e fugiu na sua caravana.
Já a sei de cor, mas parece que sempre que a contam lembram-se de um qualquer pormenor novo. E contam-na com o mesmo entusiasmo e ênfase, numa mistura de risadas demoradas... às quais as minhas se juntam...

São elas... somos nós três... é o fim de tarde morno e ameno... pequenas homenagens a adultos com nomes infantis e a pessoas que já não existem... são espaços pequeníssimos de tempo... que tornamos imortais a cada encontro...

Para M. e T.

Friday, February 10, 2006

Num jardim depois do sol...

Depois do cansaço ter tomado por completo o domínio do meu corpo, sentei-me num pequeno banco de madeira, mesmo de frente para aquele grandioso monumento. Olhei à minha volta e só então reparei o quanto já era tarde. Mas fiquei prostrada na mesma posição, deixando o vento arrancar-me aos poucos da memoria do que se que tinha passado.

Observei pacificamente o monumento majestoso. Reparei nos pequenos pormenores das estátuas que pendiam dos telhados e exclamei para mim o quanto pareciam reais. Na minha cabeça já oscilavam as ideias mais absurdas, numa tentativa de engendrar uma invasão aquilo que não era meu. Queria ver de perto, e poder apalpar aquilo que para mim estavam perfeitamente bem esculpido.

Vinda de nenhures surgiu uma mulher que se sentou ao meu lado. Não a senti. Estranhou eu estar ali àquelas horas, não respondi. Estava cansada de mais para afastar os lábios e soltar qualquer som... Percebeu.
Disse que queira contar-me uma história. Acenei com a cabeça, e mexi-me apenas para me colocar numa posição mais confortável.

Começou então:

Aconteceu assim que o sol se escondeu, num monumento rodeado por um jardim exuberante preso em quatro muros que protegem arvores exóticas e grutas labirínticas, relógios de sol, estátuas antigas e animais de pedra. Um jardim que acorda com espírito próprio e concretiza sonhos mágicos em mais uma noite cheia de vidas não respirada.

Sentada no seu púlpito, que adorna um dos telhados do magnifico monumento ogival há mais de mil anos, permanece imóvel e resistente.
Atrás, na nuca, sentiu um estilhaçar que lhe percorreu o resto do corpo desumano. Estava a partir-se. Saia de dentro de uma casca de pedra, sem fazer um único barulho e aos pouco ia-se articulando novamente . Ao seu lado, em púlpitos vizinhos outros se partem em formatos diferente e saltam em pulos descomunais para a cor roubada pela escuridão.

Saltou para a calçada do pátio. E numa paisagem que observava em anos que já perdeu a conta, inspirada numa história que já não se recorda, cumprimenta a sua efémera amiga liberdade. O vento feliz por a ver, revolta-lhe os enormes cabelos lembrando-a das horas que possui até ao próximo sol.

Por todo o jardim, deambula uma mistura de entidades muito antigas que povoam apenas os sonhos humanos. Os sonhos daqueles pelos quais estavam proibidos serem vistos mesmo em aparições. Existia uma lei muita velha. Redigida há milhares de anos com o sofrimento de todas as entidades, contendo uma penalização fatal. Não é necessário ser relembrada, todos a sabem de cor, e não falam dela. Repartem apenas o seu tempo em alegres conversas desconhecidas, festas, músicas e danças.

Com a túnica a esvoaçar fantasmagoricamente, correu pelo caminho dos Deuses sem desviar o olhar. Conhece as suas histórias e não quer entrar em nenhuma delas. Ouviu murmúrios sobre alguém que já não existe. Alguém que ousou apaixonar-se pela beleza e uma deusa.

Alegre continua... elogia as folhas que apanham os pingo de humidade, e beija as flores que não acordaram. Apesar de ir na direcção certa, naquela noite não lhe apetecia festas nem conversas. Caminhou alegremente até ao limite do muro e espreitou para o mundo humano, riu. Foram muitas a vezes que foi tentada a atirar-se, só para ver como era... Sentou-se no chão e distraiu-se consigo.

Ouviu uma respiração. Com os olhos procurou em várias direcções o seu possuidor... pensou tratar-se de uma habitual brincadeira, e voltou aos seus pensamentos. Novamente a respiração e pressentiu medo... procurou novamente. Espreitou para debaixo de um banco de pedra ornamentado com conchas marinhas... e não queria acreditar no que via... um humano.

Um grito ensurdecedor percorreu todo o jardim... e quanto mais ela se mexia numa tentativa de o calar mais ele gritava de pânico. Se os outros o ouvissem estariam ambos condenados. Sabia a velha lei de cor. Os outros ouviram... e eles foram condenados...

Do humano nunca mais ouviu falar. Ela fora atirada de um dos quatros muros que rodeavam o monumento... condenada a deambular pelo mundo exterior durante a noite, podendo apenas regressar antes do seu corpo não humano começar a petrificar.

... Silêncio.

Respirei fundo... Imaginei toda aquela história passada naquele mesmo monumento que se encontrava a minha frente. Virei-me para elogiar... e ninguém, não a senti...

Thursday, February 02, 2006

O que poderia ter acontecido....


Deslizo sobre mente e a meio do caminho apercebo-me do que já percorri. Vejo-me a trautear um trecho literário de uma alegre musica muito antiga que não conheço. Passo por sonhos que não sonhei e desejos que não desejei...
Perto de mim uma névoa espessa e cerrada bem rente ao solo afasta-me para outros caminhos que não escolhi, empurrando-me numa curiosidade para lá de humana em mirar ao de leve o que poderia ter acontecido.

Por detrás daquela névoa espessa rente ao chão, que rapidamente se transforma num denso nevoeiro, oiço sons confusos de vozes em simultâneo e vejo figura indistinta. Vozes que conheço e vozes que não conheço. Murmuram qualquer coisa que não entendo. Falam de mim porque oiço o meu nome...

Chamo com saudade os nomes daqueles que por mim se cruzaram, e que mudaram o rumo daquilo que poderia ter acontecido. Grito perdão aqueles que já não o podem aceitar, e aceito o perdão daqueles que já não o podem pedir. Mas da minha boca apenas saem nomes que nunca ouvi de outros que nunca vi. De olhos arregalados observo uma multidão ali tão presente e tão estranha, cada um com um papel reservado que nunca foi sequer ensaiado. Desenho com os dedos uma porta imaginária sem fechadura e desobrigo-os de ali estar... desapareceram...

Distribuo várias ideias por balões que exprimem os diferentes estados de alma, e arrumo por ordem alfabética os de antes e os de agora, deixando voar os que poderiam ter existido... e com eles a sensação de ter perdido alguma coisa.

Deslizei pela minha mente e a meio do caminho apercebo-me do que já percorri. Vejo-me a trautear um trecho literário de uma alegre musica muito antiga que tão bem conheço. Recordo os meus sonhos e desejos. Sorrio para ninguém, sorrio para mim mesma. Perto de mim brincam nas sombras os últimos traços de luz provenientes do sol, no céu as nuvens parecem ter sentido com a mesma intensidade... aquele tão saboroso bem estar...

Monday, January 30, 2006

Um dia e duas noites!!

Sentei-me em cima da mota das quatro rodas. Mentalmente verifiquei por uma ultima vez a lista das coisas que tinha dentro da mochila, não fosse ficar alguma em falta. Coloquei a mudança de arranque, e comecei a percorrer a primeira parte daquilo que me aguardava.
Para onde vou, a distancia é curta mas a estrada é difícil de percorrer. Ainda trago na lembrança a ultima vez que senti o duro sabor do asfalto na boca. A noite há já muito que caiu e esconde na escuridão aquilo que as luzes dos faróis não revelam, por isso a atenção tem que ser redobrada, não vá alguém ou alguma coisa atravessar-se na próxima curva.

Conheço aquela estrada de olhos fechados e já o fiz vezes sem conta... cada vez lá passo há sempre qualquer coisa nova que me congela o movimento e me faz ficar encantada. Trago nos bolsos mil avisos e sei que é perigoso... principalmente na minha condição feminina que eu adoro mas que tantas vezes me impede e proíbe. Desta vez com o capacete que me protege dos sussurros do lago triste, cujas margens lambem a berma da estrada, consigo abstrair-me de mitos e histórias que rodopiam na minha memoria, fugindo ao encantamento daqueles que por lá ficam depois do sol. E acelero na estrada sem olhar para trás, sentido nas costas o toque dos acenos.

Quando chego ao destino, ambos já se encontram sentados no limite da rocha com os pés pendurados para lá, bem ao lado do ponto geodésico. Paro a mota das quatro rodas, e corro em sua direcção pela noite... como é habitual sento-me sempre no meio dos dois, penso que tentam criar uma barreira de protecção, mas não me pronuncio.
O da esquerda olha-me com uns olhos que sei que são verdes e sorri em boas vindas. Devolvo-lhe o olhar e tombo a cabeça no seu ombro.

Aos poucos enrolo-me com as pedras e deixo-me despenhar lá em baixo. Misturo-me desfeita em areia no fundo do mar e fico por horas naquele mundo subaquático. Envolta em sons que nunca vou entender, envolta em correntes cruzadas de águas frias de um oceano gigantesco e poderoso, que ora me equilibra ora me desequilibra entregando-me de espírito aquela utopia.
Entre a noção do real e irreal flutuo para dentro de um outro mundo que me transporta de novo ao limite da rocha. Abro os olhos e fixo aqueles outros que sei que são verdes.

Aquele lugar é mágico e intenso, e jamais arranjarei palavras para descrever aquilo que me faz sentir ou até onde me leva. É intenso no cheiro, no toque na paisagem e nas cores. Envolvente cada vez mais no tempo de uma paixão partilhada com outros que dura à muito. Foram duas noites com apenas um dia para dormir... vivi o que não é explicável.
Hoje aqui sentada, em cada tecla que primo vai um bocadinho de mim e uma ínfima parte do que senti.
É muito recente e o meu espírito ainda anda por lá, deixando o meu corpo entregue a uma marcha ritmada ao som compassado do meu mundo material...

Friday, January 27, 2006

"LUCE"



O frio tira-me o sono... é a única altura em que consigo andar nas luzes e quanto mais frio faz, mais intensas são. Como quero aproveitar até acabar, deixo-me andar até o corpo aguentar...
A primeira vez que reparei que o conseguia fazer, foi numa noite em já dormia e bateram à porta. Resmunguei pelas horas tardias e arrastei-me para ir abrir. Ninguém para entrar. Voltei para a cama, e voltaram a bater. Cuspi as piores palavras que me bailavam na cabeça , e perguntei o que raio se passava?!

Embrulhei-me numa manta, trespassei a escuridão. Com o frio a rachar-me os ossos e a pele a encolher-se em múltiplos arrepios continuei a andar até me perder. Entrei em pânico... num choro compulsivo gritei por ajuda até não sentir mais a garganta. Em louca ansiedade percorri quilómetros e quilómetros naquela falta de clareza.

Foi então que vi, um ponto brilhante. Que mais tarde vim a aprender que se designava por “luce”. Agarrou-me na mão, e olhou-me... despiu-me de qualquer preconceito e levou-me de volta por um caminho diferente. Como num jogo de peças multicolor cujas as regras não podem ser ditas apenas seguidas, tive que copiar sem erros, todos os seus paços um a um até sentir uma liberdade extrema. A parte mais difícil de executar era nas falhas de luz, em que tudo ficava em suspenso antes de cumprir um salto maior que as pernas... mas hoje já o faço facilmente.

Conscientemente vou-me apercebendo que entro dentro de mim própria, numa maravilhosa viagem ao contrario.


(...descobri que afinal não sou cor de rosa por dentro. Sou cor de laranja, e tenho num cantinho um malmequer vermelho com um botão azul ...)

Thursday, January 26, 2006

... o tocador de flauta!

Olho para os altos muros que cercam a propriedade privada, e escolho o local mais adequado à minha estatura para subir... calculo alturas, quantidade de musgo podre e humidade para não correr o risco de escorregar.
Já no lado de lá percorro a expansividade do terreno com os olhos, e inspiro a excessividade de ar puro.
Oiço ao longe tocar arrastadamente seis badaladas. Na penumbra corro contra o tempo para não chegar atrasada ao meu encontro secreto com o tocador de flauta...

Vejo-o a subir o caminho dos castanheiros bravos até chegar perto de mim.
Quando chega, coloca os seus poucos pertences no chão e desembrulha cuidadosamente uma flauta de um pano de flanela azul.
Meticulosamente coloca os elegantes dedos de maneira a tapar com precisão os devidos orifícios e leva-a aos lábios. Dedilha-a como um auntêntico mestre e comove-se com cada sopro que extrai... chamo-lhe o sopro mágico.

Escondida por detrás do tronco de um velho Pinheiro, escorrego pelas minha pernas, encolho-me sobre mim própria e fico quieta sem fazer barulho. Bebo cada nota que se solta, e desejo ardentemente que nunca acabe. Qualquer som vindo de mim é o suficiente para o assustar e ele nunca mais voltar...

É um encontro tão secreto que o próprio tocador de flauta não sabe que faz parte dele. Já não me recordo a primeira vez que o vi. Penso que foi quando conheci o monge que meditava, e presumi erradamente que a musica exalava de dentro de si. Depois foi seguir pelo labirinto melódico e vislumbrá-lo numa das encruzilhadas. Não queria acreditar no que via, fiquei por horas a ouvi-lo. Desde então, como um vício sem o qual não se consegue viver, comecei a lá ir todos os dias, pressentindo que o encontraria...

Ouve um tarde que levei comigo uma outra pessoa, descrevi-lhe todas as regras do silêncio para não assustar o tocador de flauta. E partilha-mos o mesmo esconderijo.
Ela não enxergou... nunca mais quis voltar.

São muitos aqueles que vão lá secretamente, e se escondem como eu atrás dos troncos das arvores... penso que alguns também ainda não enxergaram, mas continuam a insistir em lá voltar até um dia isso acontecer.

Tuesday, January 24, 2006

Henric pote e o cálice de vinho

Eram cinco da manhã, e já o Land Rover amarelo percorria numa corrida louca aquelas Planícies. Como numa pista acidentada desviava-se em razias aos sobreiros pinheiro e acácias que iam aparecendo no caminho já pré definido para o efeito.
Parámos perto da barragem que já tão bem conhecemos, infelizmente tão vazia, que nem as chuvas de um mês a encheriam de modo igual à primeira vez que a vi. Saímos do Jipe para acalmar o estômago que se encontrava na iminência de rejeitar o pequeno almoço, e sentámo-nos nas pedras de xisto que circundam as margens da barragem formando autênticas bancadas de espectáculo.

Inspirei uma, duas três vezes. Deixei o cheiro das estevas, que deambula precocemente pelo ar, invadirem-me as narinas e observo o céu espelhado na magnitude das aguas paradas. Ao fundo num horizonte longínquo, os primeiros indícios de mais um nascer de dia começa a invadir numa velocidade pestanejante o tecto estrelado.

Estava na hora de voltar ao caminho. Mas não seria naquele instante. Porque o Land Rover ao qual chamamos carinhosamente “O submarino”, estava literalmente atolado nas margens da barragem, e quanto mais se tentava arranjar um solução mais o pobre “submarino” se atolava. Decidimos então ir à procura de ajuda. Ficaram três para trás.

Eu e outro começamos por nos dirigir em direcção ao sol. Caminhamos, mas verdadeiramente caminhamos muito. Mais ao fundo pareceu-me ver uma auto - caravana... no meio do cansaço ainda pensei tratar-se de uma miragem, mas arranjamos forças para correr, e era real. Dois cães ladravam... uma cadela zarolha, e um cão sem as duas patas traseiras arrastava-se pesadamente num carrinho improvisado com duas rodas. A porta abre-se, e de dentro da auto – caravana que parecia estar ali desde sempre, uma figura surge.

Alto, gordo (mas mesmo muito gordo), uma pança que forçava uns botões de uma camisa sem cor. A pele que já fora branca, agora vermelho cosido circundavam uns olhos azuis. De cabelo e barba enormes loiros, esboçou um grande sorriso de onde apenas avistei um único dente já sem saúde. Atrevo-me a dizer que tinha um aspecto feliz. Mas muito feliz mesmo.
Trazia uma malinha atravessada no tronco... desta tirou um cálice e uma garrafa de vinho. Com o cálice elegantemente preso entre o indicador e o polegar encheu-o de vinho e bebeu num só gole. Voltou a guardar tudo na malinha.
Imediatamente nos convidou para entrar e apresentou-se como Henric Wellinton. Feitas as apresentações declinamos o convite, e imediatamente lhe contamos o ocorrido.

Henric pôs um ar pensativo, procura uma solução. Pediu-nos as coordenada e dirigiu-se a um pequeno barracão. Quando abriu a porta desapareceu no escuro, ouviu-se o “relatim” de uma motorizada, e eis que Henric surge, montado no seu triciclo de certo com de mais de 60 anos, ferrugento com atrelado. Trazia posto um capacete cor de rosa colocado no alto da cabeça atado com uma corda ao pescoço e umas calças de cabedal coçado. Trazia o banco enterrado a meio do corpo... pensei que rir seria a pior coisa que poderia fazer naquele momento. Repetiu o ritual do cálice. Ordenou-nos em tom de mestre que entrássemos no atrelado e que ajudássemos os cães a subir igualmente. Acelerou em nuvem de pó e arrancamos em curvas, numa mirabolante velocidade de vinte há hora. O cabelo e a barba selvagem de Henric, esvoaçavam numa reviravolta contra o vento e o mesmo sorriso feliz esculpido nos lábios.
Não sei precisar quanto tempo demoramos...

Não consigo descrever a cara dos outros quando nos viram. Talvez a situação fosse perfeita para nos rasgarmos em gargalhadas... mas ninguém se atreveu.
Henric saiu do triciclo retirou os dois cães, repetiu o ritual do cálice e apresentou-se aos restantes. Sempre com um sorriso feliz, pediu-nos que nos afastássemos. Pegou numas cordas e atou-as ao pára choques.
Por incrível que pareça, não foi preciso muito esforço por parte do triciclo ferrugento para conseguir tirar o “Submarino”, posso até dizer que foi à primeira... Sorridente olhou para nós incrédulos, disse na sua língua que já estava. Da malinha retirou seis cálices encheu de vinho e distribui-os por nós. Ficamos sem saber que atitude tomar...

Nessa mesmo tarde voltamos para perto da barragem, onde existe uma enorme clareira. Sentado numa mesa vinda não se sabe de onde, estava Henric e os dois cães, mas completamente diferentes. A cadela já não era zarolha e o cão tinha as quatro patas. Tentamos Ignorar esse facto imediatamente, e pedimos educadamente para nos sentarmos nas restantes cinco cadeiras. Antes de responder retirou da malinha seis cálices encheu-os de vinho e distribui-os mais uma vez por nós. Elevamos os braços ao alto e bebemos de um só gole.

dedicado ao Henric...