Hoje, como todos os dias úteis, e repito úteis, levantei-me ao som do despertador cujo o toque já foi mudado mais de cinco vezes no espaço de uma semana. Tento desesperadamente enganar o consciente adormecido que já reconhece todos os seus toques e o cansaço que já alucina por descanso, mas o resultado é sempre o mesmo. Adormeço mais dez minutos.
Sentei-me na cama a espancar os últimos rasto de preguiça do corpo, e no cérebro ainda me queimava a discussão que se desencadeou na reunião do dia anterior com o senhor “Não me chateies e deixa-me lá faltar depois de amanhã”... Fechei os olhos.
Ainda sentada na cama senti uma comichão enorme no fundo das costas. Joguei os dedos com a intenção de coçar e eis que senti uma camada escamosa. Mais uma vez abominei o chocolate que tinha devorado depois do jantar. Por mais que me provoque alergias pavorosas nunca resisto.
Arrastada pelas horas abri a torneira para o duche, olhei-me ao espelho. Não me consegui ver com o vapor da água quente. Lambi-me. Olhei em volta e tropecei em alguma coisa. Levantei-me, virei-me e voltei a tropeçar, amaldiçoei o tapete que passa a vida enrolado nos meus pés. Optei por ignorar tudo, mas tudo mesmo e preocupar-me exclusivamente por me pôr a caminho já atrasada. Espremi a pasta para a escova de dentes e lavei aquilo que eu pensava serem dentes... e não umas enormes mandíbulas de onde brotavam (...) alguém ou um vulto passou por detrás de mim. Eu vi, desfocado no espelho mas vi. Paralisei de medo. O que raio estaria comigo dentro da casa de banho. Mais uma vez. Direita, esquerda.
Lambi-me, lambi-me e voltei a lamber-me e única coisa que me saltava ao sentido cheiro era o pequeno almoço. Respirei fundo e enchi-me de coragem. Voltei-me (...) e um GRITO ensurdecedor saiu-me dos fundos mais recônditos da garganta. Com escamas intervalada entre o vermelho e o azul cobalto, uma enorme cauda surgia do fundo das minhas costas e enrolava-se no chão com extremidade terminada em seta. Decerto neste momento estava a alucinar só podia... estaria ainda sonhar dentro da minha própria realidade.
Seguiu-se uma enorme dor numa das omoplata e a seguir na outra. Guinchei e senti nos cabelos o vento de umas pequenas asas feitas de cartilagem e uma fina membrana de pele... chegou a minha hora, só podia!!!
Voltei a gritar de horror e um lance de chamas saiu de dentro da minha boca. Peguei fogo à casa de banho. Na mistura de sensações sem saber como agir numa situação em que me transformava em qualquer coisa não humana levantei voo, instintivamente. Voei pelo tecto carbonizado. Lambi-me e apercebi horrorizada da minha pobre figura... olhei-me e vi-me coberta de escamas intervaladas de vermelho e azul cobalto, umas enormes garras substituíam-me as mãos e os pés. Até um chifre tinha no alto da cabeça. Num voo alado dirigi-me à Serra para me esconder.
(Já me imaginava a entrar no escritório para começar a trabalhar e todos a correr apavorados à minha frente. O mais engraçado seria tentar escrever no teclado com umas unhas enormes e amareladas. Melhor ainda seria o senhor “Não me chateies e deixa-me lá faltar depois de amanhã”... a perguntar-me corajosamente porque tinha chegado atrasada. Até aqui tem uma certa piada).
Desviei a cauda e sentei-me numa das pedras que circundam a serra. Chorei. Olhei para a minha barriga enorme e para as minhas pernas minúsculas que terminavam nuns pés cheios de altos escamados e com unhas curvadas para dentro, ainda por cima amarelas!! Voltei a chorar de desgosto e apenas lamentava o facto de estar transformada num descomunal Dragão. Lambi-me. Ainda não me tinha visto por inteiro, mas só de me imaginar a lágrimas jorravam de uns olhos anormalmente redondos e enormes, que se fizesse um esforço até a meu próprio rabo eu conseguiria ver. Lambi-me e saboreie as minhas lágrimas que eram doces. O estômago roncou. Lambi-me.
Pus-me de pés e olhei num potencial pequeno almoço, decerto com o estômago cheio conseguiria pensar melhor no que fazer e como agir. Com um andar esquisito, aliás bastante esquisito, cambaleava para os lados cada vês que esticava uma das minúsculas pernas e tropeçava nas minas próprias unhas percorri o pequeno bosque onde eu estava(...)
Um sorriso enormes pregou-se nos meus lábios. Bem, até hoje nem sei se tinha lábios. Melhor mesmo será dizer que um gigantesco sorriso se pregou na minha gigantesca bocarra, quando pensei no sabor que o senhor “Não me chateies e deixa-me lá faltar depois de amanhã” teria??!!!
Com as minhas reacções a uma velocidade superior às do meu cérebro, voei por instinto. E quanto mais me tentava controlar mais as asas batiam em direcção a um local que eu tão bem conhecia. Parei do lado de fora do edifício. Lambi-me e procurei a janela exacta. E como um perdedor faminto farejei a minha presa e voltei a voar mais para cima. Pairei do lado de fora da janela certa (...)
Lá estava ele, sentado na sua poltrona de pele de crocodilo (senti uma tristeza enorme por aquele meu primo distante transformado em cadeira) ao de leve toquei no vidro com a unha. Ele virou-se e deixou cair o telefone...
O despertador voltou a tocar. Tinha adormecido os habituais dez minutos. Despachei-me o mais depressa que pude e pus-me a caminho. Parada no transito e já a tentar inventar uma desculpa para mais um atraso, comecei a recordar-me de um sonho com dragões. Era engraçado desculpar-me dizendo-me que me tinha transformado num dragão. (no mínimo acabaria no fundo desemprego).
Quando entrei no edifício estavam todos descontraidamente a conversar. Achei estranho, porque o senhor “Não me chateies e deixa-me lá faltar depois de amanhã” por regra geral percorre os corredores e coloca toda a gente sentada no seu devido lugar... a produzir. Como precisava mesmo de faltar depois de amanhã não esperaria nem mais um segundo, subi as escadas e dirigi-me ao seu gabinete:
- Alice, o senhor “Não me chateies e deixa-me lá faltar depois de amanhã”, está ai?
Alice olhou para mim com um ar de espanto...
- Mas tu ainda não sabes???
O pobre senhor “Não me chateies e deixa-me lá faltar depois de amanhã”, tinha-se sentido mal. Alice cuja a secretária está mesmo colocada junto a sua porta e as suas tarefas separam-se entre levar-lhe cafés e dar as más noticias ao pessoal, ouvira um ensurdecedor berro vindo de dentro do seu gabinete. Apressara-se a entrar na sala e já o encontrou desmaiado e em estado de choque.
- Alguma notíca que recebeu ao telefone!!! Disse ela com gravidade...
E fiquei a pensar seriamente:
- mas afinal depois de amanhã posso faltar ou não?
Wednesday, June 28, 2006
Wednesday, June 21, 2006
Starlight...
Perdi o controlo na loucura que os dias me proporcionaram e... andei com a musica dentro do corpo e como se de uma paixão se tratasse não consigo respirar na sua ausência. Absorvo cada palavra que se grita por cada poro que tenho na pele. E encolhe-se em arrepios.
Perdi o controlo na loucura que os dias me proporcionaram e... sem dar por isso transformei-me em cavaleiro na conquista de mais um reino que numa velocidade alucinante percorre vales montado num cavalo alado de asas doiradas. Sobrevoo castelos, florestas vermelhas e lagos cobertos seixos. Nas suas águas mágicas reparo de relance no meu reflexo e sorrio porque voltei a mudar de forma e cor. Sou homem, sou mulher e criança não sou ninguém. Sou um mágico, um mago uma fada um pirilampo. Não existo!
E naquelas modificações constantes de personalidades estendo as mãos que se escondem numas mangas cor de laranja e equilibro-me no dorso do corcel, cortando o vento que me eleva a uma liberdade extrema.
Sou quem e o que eu quiser...
Perdi o controlo na loucura que os dias me proporcionaram e... sou tempestade que se apaixona pela chuva e se agoira em trovão que descarrega a sua ira no longínquo oceano. Sou liquido que se mistura com sal e areia. Vagueio pelas corrente marítimas e dou uma volta completa ao mundo. Evaporo-me e volto ao vento tornando-me invencível e indestrutível naquela forma mais simples que não se vê. Sente-se. Revolto os cabelos de uma princesa que chora presa numa torre. Sou essa mesma princesa que morre de amor por quem não vêm e sou o príncipe que lhe dá o eterno beijo.
Na pausa de uma musica para a outra abro os olhos e aproveito para descansar porque sei que assim que começa lá vou eu novamente como se do nada uma mão cheia de força me puxasse. E estou sempre a sorrir e a querer mais. Conseguindo voltar sempre para mim...
Perdi o controlo na loucura que os dias me proporcionaram e... sem dar por isso transformei-me em cavaleiro na conquista de mais um reino que numa velocidade alucinante percorre vales montado num cavalo alado de asas doiradas. Sobrevoo castelos, florestas vermelhas e lagos cobertos seixos. Nas suas águas mágicas reparo de relance no meu reflexo e sorrio porque voltei a mudar de forma e cor. Sou homem, sou mulher e criança não sou ninguém. Sou um mágico, um mago uma fada um pirilampo. Não existo!
E naquelas modificações constantes de personalidades estendo as mãos que se escondem numas mangas cor de laranja e equilibro-me no dorso do corcel, cortando o vento que me eleva a uma liberdade extrema.
Sou quem e o que eu quiser...
Perdi o controlo na loucura que os dias me proporcionaram e... sou tempestade que se apaixona pela chuva e se agoira em trovão que descarrega a sua ira no longínquo oceano. Sou liquido que se mistura com sal e areia. Vagueio pelas corrente marítimas e dou uma volta completa ao mundo. Evaporo-me e volto ao vento tornando-me invencível e indestrutível naquela forma mais simples que não se vê. Sente-se. Revolto os cabelos de uma princesa que chora presa numa torre. Sou essa mesma princesa que morre de amor por quem não vêm e sou o príncipe que lhe dá o eterno beijo.
Na pausa de uma musica para a outra abro os olhos e aproveito para descansar porque sei que assim que começa lá vou eu novamente como se do nada uma mão cheia de força me puxasse. E estou sempre a sorrir e a querer mais. Conseguindo voltar sempre para mim...
Tuesday, June 06, 2006
Um sorriso ao cimo das escadas
Quantas vezes dou por mim a navegar por mundos emprestados e muitos são aqueles que me deixam suspensa nas batidas rápidas do coração e me envolvem as entranhas. Fico quieta num canto e observo apenas sem fazer barulho, deslumbrando-me de tal maneira que tento sempre inspirar um bocadinho daquela essência e guardá-la num cantinho das bochechas soprando-a quando me sinto inanimada. Muitas são as vezes que vou sozinha, alias quase sempre e faço de maneira que ninguém me veja e sorrio entre uns lábios escondido até que por fim regresso numa suave aterragem... sem um único arranhão.
Convenci-me que tudo o que me rodeia é mágico. Transformo simples mortais em seres encantados que preenchem a minha vida de encanto e dou por mim a pensar que tudo e todos são imortais e sempre que quiser vou poder fechar os olhos e voltar décadas atrás mas...
Agora aproxima-se o momento em que vou subir aquelas escada de madeira que rangem ao peso do pé e não vai lá estar aquele sorriso por detrás daquela porta pintada de branco. Ninguém vai abrir. Se sorte tiver ocasionalmente ela abrir-se-á de velha e abandonada que está. O espanta espíritos vai tilintar num corrente de ar que se troca com uma janela de vidros partidos e eu vou tentar entrar. Pegarei nos retratos gafos pelo pó e com a ponta do dedo limparei aqueles rostos tão antigos presos em papel. Rosto que já não existem ou simplesmente estão imortalizados em genes apôs genes. Enquanto percorro o resto do apartamento afastarei da cara as teias persistentes dos seus novos inquilinos e tento não perturbar a sua paz.
A mesa do chá o cheiro da caixa das bolachas de baunilha estarão e ficarão sempre lá e aqui, nas minhas narinas que acolhem odores a partir do meu melhor sentido. A sensação de uma vida que ali existiu, mas que ainda não partiu, já não volta para mover os objectos e os trocar constantemente de lugar vai encher-me os olhos de lágrimas. Beijarei as dedada deixadas nos livros que foram lidos tarde após tarde, e vou inspirar cada palavra que me ferve na memoria recordando cada história contada com a convicção de uns olhos pintados de azul transparente.
Por fim antes de me virar para fechar a porta branca atrás das costas, olharei para o pequeno escritório e repararei na manta esquecida na cadeira de madeira muitos dias antes. Devagar aproximo-me e toco-lhe ao de leve com as mãos. Inspirarei o cheiro do corpo que aqueceu... e o que vou sentir?!
A porta branca fecha-se atrás das minhas costas. Começo lentamente a descer os degraus de madeira uma a um... Sopro os pós mágicos que trago num cantinho das bochechas e lá em cima oiço:
- Amanhã à mesma hora...
Convenci-me que tudo o que me rodeia é mágico. Transformo simples mortais em seres encantados que preenchem a minha vida de encanto e dou por mim a pensar que tudo e todos são imortais e sempre que quiser vou poder fechar os olhos e voltar décadas atrás mas...
Agora aproxima-se o momento em que vou subir aquelas escada de madeira que rangem ao peso do pé e não vai lá estar aquele sorriso por detrás daquela porta pintada de branco. Ninguém vai abrir. Se sorte tiver ocasionalmente ela abrir-se-á de velha e abandonada que está. O espanta espíritos vai tilintar num corrente de ar que se troca com uma janela de vidros partidos e eu vou tentar entrar. Pegarei nos retratos gafos pelo pó e com a ponta do dedo limparei aqueles rostos tão antigos presos em papel. Rosto que já não existem ou simplesmente estão imortalizados em genes apôs genes. Enquanto percorro o resto do apartamento afastarei da cara as teias persistentes dos seus novos inquilinos e tento não perturbar a sua paz.
A mesa do chá o cheiro da caixa das bolachas de baunilha estarão e ficarão sempre lá e aqui, nas minhas narinas que acolhem odores a partir do meu melhor sentido. A sensação de uma vida que ali existiu, mas que ainda não partiu, já não volta para mover os objectos e os trocar constantemente de lugar vai encher-me os olhos de lágrimas. Beijarei as dedada deixadas nos livros que foram lidos tarde após tarde, e vou inspirar cada palavra que me ferve na memoria recordando cada história contada com a convicção de uns olhos pintados de azul transparente.
Por fim antes de me virar para fechar a porta branca atrás das costas, olharei para o pequeno escritório e repararei na manta esquecida na cadeira de madeira muitos dias antes. Devagar aproximo-me e toco-lhe ao de leve com as mãos. Inspirarei o cheiro do corpo que aqueceu... e o que vou sentir?!
A porta branca fecha-se atrás das minhas costas. Começo lentamente a descer os degraus de madeira uma a um... Sopro os pós mágicos que trago num cantinho das bochechas e lá em cima oiço:
- Amanhã à mesma hora...
Quanto tempo é o suficiente para dizer adeus para sempre...
Thursday, June 01, 2006
“Brilhozinho nos olhos”!!!
Estacionei o carro, no mesmo sitio onde aprendi a andar de bicicleta. Olhei em volta e reparei em como tudo estava na mesma. Os mesmo cheiros e as mesmas pessoas. Pessoas essas que outrora eram jovens adultos penduravam-se agora nas varandas aproveitando o vento morno de uma noite de verão que lhes sopravam amenamente nos cabelos já grisalhos. Falavam umas com as outras de assuntos corriqueiros e conforme vou passando acenam-me em sinal de reconhecimento e sorriem perante a pequena pessoa que ali já brincou. Muitas delas são os progenitores daqueles que comigo descobriram as maravilhas do pequeno bosque que foi substituído por mais um prédio, cimentando hoje apenas a recordação de risos e gargalhadas de crianças. O bosque onde conheci a “Rainha dos Seixos”.
Passei pelo “lugar” da esquina onde ainda a Dona Cila avia os seus cafés e copos três. Engraçado nunca conseguiu dizer o meu nome como deve ser, tira-lhe sempre o único “ R” que têm, ontem não foi excepção(...)
Cheguei à porta da casa que mais recordações me trás. Os mesmos sorrisos e cheiros estão sempre lá. É a casa onde volto rigorosamente como uma ave migratória. Sei sempre que posso voltar.
Não entrei. Não logo naquele instante. Olhei o muro que segurou a minha adolescência. Descalcei-me e pendurei-me como sempre o fizera. Faltavam os outros mas bastou fechar os olhos para os sentir ali... os primeiros pactos de amizade, as primeiras ilusões e desilusões. E deixei-me estar ali sem me preocupar com quem passava.
Sem dar por isso comecei a cantar baixinho uma musica que já não me passava pelos ouvido há muito tempo mesmo:
“Com um brilhozinho nos olhos
e a saia rodada
(...)
“é que hoje fiz um amigo
e coisa mais preciosa
no mundo não há.”
Continuei de olhos fechados, e a musica surgiu-me nos lábios com se a estivesses a ouvir:
“E com um brilhozinho nos olhos
tentamos saber
para lá do que muito se amou
quem éramos nós
quem queríamos ser
e quais as esperanças
que a vida roubou
e olhei-o de longe
e mirei-o de perto
que quem não vê caras
não vê corações
com um brilhozinho nos olhos
guardei um amigo
que é coisa que vale milhões.
E que é que foi que ele disse?
E que é que foi que ele disse?
Hoje soube-me a pouco
Hoje soube-me a pouco
Hoje soube-me a pouco
Hoje soube-me a pouco
Passa aí mais um bocadinho
que eu estou quase a ficar louco
Hoje soube-me a tanto....
Portanto, hoje soube-me a pouco*”
No fim um enorme aperto no peito pensei: “terei eu este tempo que passou, passado pela vida, ou foi a vida que passou por mim?!
E com um brilhozinho nos olhos voltei a calaçar-me e subi as escadas até ao primeiro andar da segunda casa. Cheirava a ervilhas. Sorri com todos os dentes que tinha, e senti as minhas certezas dentra das minhas escolhas feitas até ali...
Passei pelo “lugar” da esquina onde ainda a Dona Cila avia os seus cafés e copos três. Engraçado nunca conseguiu dizer o meu nome como deve ser, tira-lhe sempre o único “ R” que têm, ontem não foi excepção(...)
Cheguei à porta da casa que mais recordações me trás. Os mesmos sorrisos e cheiros estão sempre lá. É a casa onde volto rigorosamente como uma ave migratória. Sei sempre que posso voltar.
Não entrei. Não logo naquele instante. Olhei o muro que segurou a minha adolescência. Descalcei-me e pendurei-me como sempre o fizera. Faltavam os outros mas bastou fechar os olhos para os sentir ali... os primeiros pactos de amizade, as primeiras ilusões e desilusões. E deixei-me estar ali sem me preocupar com quem passava.
Sem dar por isso comecei a cantar baixinho uma musica que já não me passava pelos ouvido há muito tempo mesmo:
“Com um brilhozinho nos olhos
e a saia rodada
(...)
“é que hoje fiz um amigo
e coisa mais preciosa
no mundo não há.”
Continuei de olhos fechados, e a musica surgiu-me nos lábios com se a estivesses a ouvir:
“E com um brilhozinho nos olhos
tentamos saber
para lá do que muito se amou
quem éramos nós
quem queríamos ser
e quais as esperanças
que a vida roubou
e olhei-o de longe
e mirei-o de perto
que quem não vê caras
não vê corações
com um brilhozinho nos olhos
guardei um amigo
que é coisa que vale milhões.
E que é que foi que ele disse?
E que é que foi que ele disse?
Hoje soube-me a pouco
Hoje soube-me a pouco
Hoje soube-me a pouco
Hoje soube-me a pouco
Passa aí mais um bocadinho
que eu estou quase a ficar louco
Hoje soube-me a tanto....
Portanto, hoje soube-me a pouco*”
No fim um enorme aperto no peito pensei: “terei eu este tempo que passou, passado pela vida, ou foi a vida que passou por mim?!
E com um brilhozinho nos olhos voltei a calaçar-me e subi as escadas até ao primeiro andar da segunda casa. Cheirava a ervilhas. Sorri com todos os dentes que tinha, e senti as minhas certezas dentra das minhas escolhas feitas até ali...
* Sérgio Godinho “Brilhozinho nos olhos”!!!
Thursday, May 25, 2006
Guerreiro!!

Ontem pensei que era uma simples navegante, caída de um dos vazios que se formam quando os mundos se unem, e na tentativa de passar de um para o outro desequilibrei-me e escorreguei por ai abaixo.
Encontrei-me com os pés em terra firme, vestida a rigor num fato feito de malha de prata e um medalhão descentrado no peito que me protegia o coração de alguma arma alheia. Caminhei com umas botas de ferro que me fustigavam os pés e empunhava uma espada enorme que me desequilibrava...
Senti-me um guerreiro em defesa do seu castelo que no interior continha o que mais amava. Defendia com unhas e dentes aquilo que era meu, e sentia-me invencível em lutas de campo aberto. Lutei contra outras espadas e armas que desconhecia, lutei corpo a corpo e gritei por ajuda.
No tilintar das espadas não ouvi nenhuma voz humana uns lábios sequer se abriram. Olhei em volta e tantos eram os olhos que me observavam cabisbaixos. Estiquei o braço e esperei pelo toque... não senti...
Olhei em frente... afinal a minha missão era travar uma luta que não era minha.. estava ali como uma "Navegante" do tempo de terras longínquas, enviada simplesmente para proteger... de espada em punho.
Monday, May 22, 2006
Tudo por causa da luz...

- Fiquei sem luz. Vai tu à frente que não consigo ver nada...
- Bolas também fiquei sem luz e não consigo ver mesmo nada.
- Como é que é possível que três lanternas ficassem sem pilhas.
- Não faço ideia. Mas estou a ficar cansada e com fome. Vamos andado para a frente e guarda-se a franca luz existente para jantar...
Um pequeno calafrio percorre a espinha e provoca risos nervosos. Está mesmo muito escuro. E não se vê um palmo à frente do nariz. A adrenalina estonteante enfraquece com a sensação de nos cruzarmos com um inimigo imaginário. Sim porque já me imaginava a combater um “trol” de dois metros a babar-se com saliva verde florescente e o ter que fugir dos seus golpe fatais aos guinchos. Ou até mesmo para os mais sépticos os reais morcego que sombreavam de arvore em arvore por cima das nossas cabeças. Dando-me um único reflexo de repugnância, embrulhei a cabeça na camisola e todos pensaram o pior quando me olharam.
- Cuidado com o buraco. Outro buraco. E mais outro.
Caímos para o chão agarrados à barriga que dói de tanto rir. E no momento em que nos acalmamos entre nervos e gargalhadas reparamos no silencio. No saboroso silencio do qual estávamos rodeados. Senti os pés a começarem a flutuar e a imaginação a flui a mil quilómetros por hora... e o resto deixo ao sabor de quem quiser imaginar...
A fome aperta em ronco no estômago e o jantar que pesa dentro das mochilas. Sentados em amena cavaqueira e utilizando as pontas dos dedos como olhos devoráramos aquilo a chamámos "Manjar dos deuses".
Da garganta da floresta ouve-se uma voz cavernosa:
- O que é que estão aqui a fazer?????
Gritos. Mais gritos. E mais gritos...
Alguém chorou com o susto. Houve quem não tivesse parado de rir e houve até quem tivesse que fazer o resto do caminho despido da cintura para baixo, porque não havia lua para secar calções. :-)
Monday, May 15, 2006
felicitate
Não. Não quero parecer que me repito. Mas tenho receio das minhas palavras parecerem sempre iguais porque raramente encontro outras tão simples para definir um sentimento tão grandioso e tão intenso.
Não. Não quero parecer que me repito. Mas é impossível deixar de escrever que mais uma vez me incorporei de tal maneira que pensei fazer parte da paisagem. É como ter um pé preso num grosso tronco que se agarra ferozmente à terra e baloiço com o vento que emaranha os cabelos como se de folhas e lianas se tratassem. Poderia estar suspensa no abismo e não cair, olhar lá para baixo e conseguir sorrir perante o auge de uma felicidade que me transporta para um lado transcendente demais, e quando tenho a sensação que não vou aguentar por tanto acreditar várias mãos firmes esticam-se do outro lado e puxam-me numa elasticidade que me permite permanecer com um pé em cada banda. É um doce esquecer que tudo existe e um viver constante de experiencias diferentes.
Não. Não quero parecer que me repito. Mas dou por mim pensar que é irreal ter um ponto focado numa realidade que inconscientemente fui escolhendo e se entranhou. O simples facto de me sentir viva dentro dessa mesma escolha enche-me os olhos de lágrimas, mas lágrimas que correm alegres por um rosto vincado de aventuras levadas pelo ontem e anteontem. Aventuras que não voltam a trás apenas andam para frente cada vez com mais e mais vontade de ver e apreciar como vai ser amanhã. Entretanto vou recordando tranquilamente nos olhos castanhos, cor de mel, azuis e verdes que como meus contemplam o horizonte.
O jantar foi servido às vinte e três e trinta e cinco sobre uma mesa feita de areia e cadeiras construídas a partir de madeira velha trazida pelo mar. A toalha finamente desenhada com losangos em alto relevo segura os copos que esperam ansiosos para serem cheios com o liquido* levado e tocados num brinde. Nos pratos imaginários que se seguram na palma da mão, a refeição é meticulosamente digerida, pedacinho por pedacinho...
Não. Não quero parecer que me repito. Mas é impossível deixar de escrever que mais uma vez me incorporei de tal maneira que pensei fazer parte da paisagem. É como ter um pé preso num grosso tronco que se agarra ferozmente à terra e baloiço com o vento que emaranha os cabelos como se de folhas e lianas se tratassem. Poderia estar suspensa no abismo e não cair, olhar lá para baixo e conseguir sorrir perante o auge de uma felicidade que me transporta para um lado transcendente demais, e quando tenho a sensação que não vou aguentar por tanto acreditar várias mãos firmes esticam-se do outro lado e puxam-me numa elasticidade que me permite permanecer com um pé em cada banda. É um doce esquecer que tudo existe e um viver constante de experiencias diferentes.
Não. Não quero parecer que me repito. Mas dou por mim pensar que é irreal ter um ponto focado numa realidade que inconscientemente fui escolhendo e se entranhou. O simples facto de me sentir viva dentro dessa mesma escolha enche-me os olhos de lágrimas, mas lágrimas que correm alegres por um rosto vincado de aventuras levadas pelo ontem e anteontem. Aventuras que não voltam a trás apenas andam para frente cada vez com mais e mais vontade de ver e apreciar como vai ser amanhã. Entretanto vou recordando tranquilamente nos olhos castanhos, cor de mel, azuis e verdes que como meus contemplam o horizonte.
O jantar foi servido às vinte e três e trinta e cinco sobre uma mesa feita de areia e cadeiras construídas a partir de madeira velha trazida pelo mar. A toalha finamente desenhada com losangos em alto relevo segura os copos que esperam ansiosos para serem cheios com o liquido* levado e tocados num brinde. Nos pratos imaginários que se seguram na palma da mão, a refeição é meticulosamente digerida, pedacinho por pedacinho...
Wednesday, May 10, 2006
Os dias que são assim!!
E quando se pensa que já se viu tudo, ou se conhece um sitio como as palmas das nossas próprias mãos, eis que somos transportados para uma dimensão completamente diferente. É como se existe uma porta que delimita o conhecimento e que só se abre a partir de uma hora. Aquela em que ninguém de certeza ali passará. Está ligada a um automatismo muito antigo codificado com as horas do sol, confundindo-se com a paisagem não transparecendo nas formas e invisível a olhos nus. Mas não sei se fui eu que dei as voltas ao sol ou se a porta se enganou na sua reforçada segurança e baixou a guarda... não estando à espera que os intrusos estivessem ali na hora nove marcada pelo sol.
O alcatrão transforma-se em calçada de pedra gasta tornando o percurso mais penoso e fazendo a adrenalina subir perante cada obstáculo. Puxamos uns pelo os outros e felicitamo-nos com a vitória de cada um, sim...porque infantilmente... quando nos juntamos a união que se sente é tão forte e o sentimento de protecção e zelo é tão exemplar que não existem palavras para o descrever. E o rir posteriormente com aos relatos das escolhas mais estapafúrdias: no meio de tantos caminhos e encruzilhadas que se apresentam à nossa frente, acabamos sempre por cortar os mais dificeis, discutindo num completo gozo o “sexo dos anjos”.
(...)
A medida que avançamos os cheiros vão sendo cada vez mais intensos e invadem cada narina a procura do seu lugar. Cheira a pinheiro, eucalipto, acácia, alfazema, terra, pó e um aroma adocicando que ainda hoje aqui sentada com a sua recordação não consigo decifrar o que seria.. o que é. É como ter uma vaga ideia de qualquer coisa que fica a martelar na cabeça e uma curiosidade que não se consegue aniquilar. Mas ninguém tocou no assunto, decerto no fundo todos eles sabiam o que era e apenas eu sem coragem para perguntar fiquei na ignorância.
Seguimos o aroma adocicado que se intensificava cada vez mais e parámos perante mais um obstáculo que pensei que jamais iríamos conseguir atravessar. Alinhados num desalinho completo, ficamos em silencio e boquiabertos perante aquilo que parecia uma porta gigante derrubada. O mais corajoso e arrojado atreveu-se. Desapareceu. Depois seguido de um outro e mais outro. Fiquei para trás...
No céu ainda estavam suspensas as cores do sol que partira e a lua que sorria preste a encher quando senti o que tinha atravessado... do outro lado quatro sorrisos...
O alcatrão transforma-se em calçada de pedra gasta tornando o percurso mais penoso e fazendo a adrenalina subir perante cada obstáculo. Puxamos uns pelo os outros e felicitamo-nos com a vitória de cada um, sim...porque infantilmente... quando nos juntamos a união que se sente é tão forte e o sentimento de protecção e zelo é tão exemplar que não existem palavras para o descrever. E o rir posteriormente com aos relatos das escolhas mais estapafúrdias: no meio de tantos caminhos e encruzilhadas que se apresentam à nossa frente, acabamos sempre por cortar os mais dificeis, discutindo num completo gozo o “sexo dos anjos”.
(...)
A medida que avançamos os cheiros vão sendo cada vez mais intensos e invadem cada narina a procura do seu lugar. Cheira a pinheiro, eucalipto, acácia, alfazema, terra, pó e um aroma adocicando que ainda hoje aqui sentada com a sua recordação não consigo decifrar o que seria.. o que é. É como ter uma vaga ideia de qualquer coisa que fica a martelar na cabeça e uma curiosidade que não se consegue aniquilar. Mas ninguém tocou no assunto, decerto no fundo todos eles sabiam o que era e apenas eu sem coragem para perguntar fiquei na ignorância.
Seguimos o aroma adocicado que se intensificava cada vez mais e parámos perante mais um obstáculo que pensei que jamais iríamos conseguir atravessar. Alinhados num desalinho completo, ficamos em silencio e boquiabertos perante aquilo que parecia uma porta gigante derrubada. O mais corajoso e arrojado atreveu-se. Desapareceu. Depois seguido de um outro e mais outro. Fiquei para trás...
No céu ainda estavam suspensas as cores do sol que partira e a lua que sorria preste a encher quando senti o que tinha atravessado... do outro lado quatro sorrisos...
Wednesday, May 03, 2006
Vou lá eu saber porquê...
Madruga, crepúsculo e orvalho. Verde, amarelo e castanho. Contos lendas e mitos. Realidade, imaginação e ficção. Receio e Arrepio. Estrada vazia, três pessoas em silencio. Shiuuuu... deixa ouvir. Catrapum cai... pois é... dor, muita dor. Fio de sangue morno que corre pela minha perna abaixo, dói muito mesmo. Não aguento choraminguei. Vou olhar. Vi o sangue. Suores frios, Coração a mil e desmaiei. Voltei a mim. Olhei novamente o sangue que brotava da canela ferida. Tontura e voltei a desmaiar. Bofetada e agua. Continua a doer muito. Longe de casa. Bolas... voltei a olhar para a ferida. Desmaiei pela terceira vez, mais uma bofetada, mais agua. Mas o que é que se passa... Deixem-me respirar. Podes parar de olhar para mim?
Olhei novamente para a perna e já não vi o sangue vi apenas um pequeno arranhão. Corei por detrás dos dedos vincados nas bochechas. Senti o coração a voltar ao seu compasso normal, respirei, acalmei. Agua que batia em golfadas no fundo da garganta seca, rosto empoeirado delineado com lágrimas. Olhos assustados. Consegues levantar-te? Consegues continuar? Sorriso. Adoro-vos. Tens que repor energias... "Sumol de Laranja" e "Bolas de Berlim" esmagadas no fundo de um saco de papel. Quem colocou o rabo em cima minha mochila...
- não queres antes um chá?
Sim, sim... Tentei imaginar onde raio ia-mos ferver um chá naquele sitio... gargalhadas!!
Olhei novamente para a perna e já não vi o sangue vi apenas um pequeno arranhão. Corei por detrás dos dedos vincados nas bochechas. Senti o coração a voltar ao seu compasso normal, respirei, acalmei. Agua que batia em golfadas no fundo da garganta seca, rosto empoeirado delineado com lágrimas. Olhos assustados. Consegues levantar-te? Consegues continuar? Sorriso. Adoro-vos. Tens que repor energias... "Sumol de Laranja" e "Bolas de Berlim" esmagadas no fundo de um saco de papel. Quem colocou o rabo em cima minha mochila...
- não queres antes um chá?
Sim, sim... Tentei imaginar onde raio ia-mos ferver um chá naquele sitio... gargalhadas!!
Recordo de ser miúda, cair de qualquer coisa abaixo e ficar com os joelhos completamente descarnado. Olhava encolhia os ombros e continuava... não me lembro de fazer este género de fitas... que "vArgonha!!!"
Monday, April 24, 2006
22 e 23 de Abril de 2006
Atravesso o portal das palavras e não consigo escrever uma só que seja. Frases que não se consigo construir porque não sei descrever...
Foram dois que se transformaram em quatro e quatro que se transformam em oito. E oito foi o derradeiro numero para sentir uma enorme sensação de querer rebentar e ficar ali descoberta em vário pedaços vivos distribuídos pelos mil sítios que os meus olhos tentar registar em vão por serem demasiado humanos. Não vou conseguir escrever ou descrever o que quero, simplesmente está fora do meu alcance porque é intensos demais e tenho receio de não empregar as palavras correctas e induzir em erro.
Poderia falar do cheiro e do aroma... das arvores molhadas do chão encharcado e da chuva que não pára de cair. Poderia falar das vozes que soam das matas dos pinheiros e do silencio que ecoa os meus passos que raspam na paisagem à minha passagem. Poderia falar na magia da noite e do céu que desenha lindas formas em nuvens negras...
sim poderia falar disto tudo e criar uma linda história. Mas o corpo está cansado demais para aquilo que esconde por dentro. A mente não consegue acompanhar o sentimento... e as palavras nunca serão suficientes para consignar tal momento.
Por isso devagar e com muita calma vou regressando. Olho com estranheza os elementos que fazem parte do meu dia a dia e dou por mim a sorrir, imagino que viajei durante anos e quando regressei nada tinha mudado. Observo as pessoas com a sensação que nunca saíram do mesmo sitio e vagamente vou-me lembrando de cada uma delas e do papel que representam na minha vida (...)
Foram dois que se transformaram em quatro e quatro que se transformam em oito. E oito foi o derradeiro numero para sentir uma enorme sensação de querer rebentar e ficar ali descoberta em vário pedaços vivos distribuídos pelos mil sítios que os meus olhos tentar registar em vão por serem demasiado humanos. Não vou conseguir escrever ou descrever o que quero, simplesmente está fora do meu alcance porque é intensos demais e tenho receio de não empregar as palavras correctas e induzir em erro.
Poderia falar do cheiro e do aroma... das arvores molhadas do chão encharcado e da chuva que não pára de cair. Poderia falar das vozes que soam das matas dos pinheiros e do silencio que ecoa os meus passos que raspam na paisagem à minha passagem. Poderia falar na magia da noite e do céu que desenha lindas formas em nuvens negras...
sim poderia falar disto tudo e criar uma linda história. Mas o corpo está cansado demais para aquilo que esconde por dentro. A mente não consegue acompanhar o sentimento... e as palavras nunca serão suficientes para consignar tal momento.
Por isso devagar e com muita calma vou regressando. Olho com estranheza os elementos que fazem parte do meu dia a dia e dou por mim a sorrir, imagino que viajei durante anos e quando regressei nada tinha mudado. Observo as pessoas com a sensação que nunca saíram do mesmo sitio e vagamente vou-me lembrando de cada uma delas e do papel que representam na minha vida (...)
quase que me apetece tatuar esta data num dos braços :-)
Friday, April 21, 2006
Gavetas e mais gavetas
Por vezes dou por mim a pensar que sou constituída por gavetas. Infinitas gavetas que formam olhos boca nariz e pescoço. Braços pernas e todo o resto do corpo. Infinitas gavetas cheias de sentimento que construíram um coração, e infinitas gavetas de várias das cores e feitios que formam todo o resto. Alguma não se abrem ou nunca se abrirão...Ficarão para sempre à espera que eu própria saiba distinguir o derradeiro momento para o fazer. E se não tiver tempo na intensidade em vivo os meus dias, a alguém um dia as transmitirei e acredito que seja feito através de mim...
Porem existem duas que nunca me lembro de as ver fechadas. Uma é completamente indescritível e são muitas as vezes em que inexplicavelmente entro no seu interior à procura de resposta mas apenas ainda trago mais dúvidas. A outra empenou ou simplesmente é grande de mais para caber no seu lugar. E por mais coisa que tente guardar coisas no seu interior nunca fica cheia. Tem sempre espaço para mais e mais. E sempre que procuro algo dentro dela encontro sempre, posso demorar alguns minutos e chegar a pensar que se perdeu, mas não ela está sempre lá, aberta à espera que coisas novas entrem e ocupem o seu espaço no meio de tão pouco espaço. Chamo-lhes coisas mas tem nome... que começam por várias letras. De A a Z...
Porem existem duas que nunca me lembro de as ver fechadas. Uma é completamente indescritível e são muitas as vezes em que inexplicavelmente entro no seu interior à procura de resposta mas apenas ainda trago mais dúvidas. A outra empenou ou simplesmente é grande de mais para caber no seu lugar. E por mais coisa que tente guardar coisas no seu interior nunca fica cheia. Tem sempre espaço para mais e mais. E sempre que procuro algo dentro dela encontro sempre, posso demorar alguns minutos e chegar a pensar que se perdeu, mas não ela está sempre lá, aberta à espera que coisas novas entrem e ocupem o seu espaço no meio de tão pouco espaço. Chamo-lhes coisas mas tem nome... que começam por várias letras. De A a Z...
Wednesday, April 12, 2006
O livro que chegou ao fim!
O livro que chegou ao fim. E outro que pulam na estante pela atenção dos meus olhos e pelo toque dos meus dedos. Já os li todos e alguns mais do que três vezes. Tenho livros assim, que entro de tal maneira nas história que depois não consigo distinguir. Digo a mim própria que tenho que os voltar a ler para perceber a história quando no fundo já tinha percebido, apenas quero é repetir a aventura sem ter que me justificar. E agora ficam ali arrumados nas prateleiras a amarelar com o passar do tempo e ganhar o cheiro das letras encafuadas. Mas gosto de os ver ali expostos por cores e alguns por números. Por vezes sento-me no sofá a observar a minha mini biblioteca e imagino que são as minhas aventuras catalogadas por ordem de vivencia.
O livro que chegou ao fim. E na estante da mini biblioteca não existe nenhuma novidade. Já os li todos e alguns mais do que três vezes. Mas tenho outros que começo a ler e depressa abandono as personagens num mundo suspenso das suas desinteressante histórias.
Peguei num desses livros e sentei-me no jardim que geralmente me convida para umas horas de leitura. Recostada no banco de madeira verde coloco no colo o desinteressante livro e espero que a vontade chegue. Sem dar por isso um rapazinho que parecia ter nove anos sentou-se ao meu lado. Olhei e esbocei um simples sorriso. Devolveu-me o sorriso com um dente partido. Entreguei-me novamente a pouca vontade e pensei que estaria na hora de abrir o livro e dar uma nova oportunidade as aquelas pobres personagens.
- Sabe o meu avô está muito doente.
Fechei o livro
- Sinto muito
- Eu também.
E o rapazinho continuo. Com um som assobiado que surgia do dente partido narrou sua vida vivida nas histórias mágicas que o avô lhe contava. E comecei a conhecer essas histórias, quase ao pormenor de lhes conseguir acabar as frases... parecia as que outrora imaginara e tinha a certeza de não as ter lido em livro algum.
Olhei para as minhas mão estavam mais pequenas, vi os meus miúdos joelhos rasgados das quedas de bicicleta mal coberto com a saia que a minha mãe fazia a condizer com a camisola.
Sem dar por isso tinha entrado na maquina do tempo e regressei aos meus nove anos, o banco verde desapareceu e o jardim tornou-se em mato pronto para ser desbravado em buscas de anéis e elfos encantados. O mesmo menino deu-me a mão e Disse – “Anda!! ainda não viste o que está dentro daquela gruta” e corremos de mão dada em direcção a uma mirabolante aventura.
O livro das personagens suspensas nas suas histórias desinteressantes caiu ao chão. Abri os olhos e estava sentada no banco de madeira verde... sozinha. Olhei em redor e nem sinal do rapazinho, só podia ter adormecido e sonhado. Inclinei-me para apanhar o livro, e abriu-o no colo..
Comecei a folheá-lo para procurar a ultima página que tinha lido... e a medida que as passava uma a uma diziam “fim”...
O livro que chegou ao fim. E na estante da mini biblioteca não existe nenhuma novidade. Já os li todos e alguns mais do que três vezes. Mas tenho outros que começo a ler e depressa abandono as personagens num mundo suspenso das suas desinteressante histórias.
Peguei num desses livros e sentei-me no jardim que geralmente me convida para umas horas de leitura. Recostada no banco de madeira verde coloco no colo o desinteressante livro e espero que a vontade chegue. Sem dar por isso um rapazinho que parecia ter nove anos sentou-se ao meu lado. Olhei e esbocei um simples sorriso. Devolveu-me o sorriso com um dente partido. Entreguei-me novamente a pouca vontade e pensei que estaria na hora de abrir o livro e dar uma nova oportunidade as aquelas pobres personagens.
- Sabe o meu avô está muito doente.
Fechei o livro
- Sinto muito
- Eu também.
E o rapazinho continuo. Com um som assobiado que surgia do dente partido narrou sua vida vivida nas histórias mágicas que o avô lhe contava. E comecei a conhecer essas histórias, quase ao pormenor de lhes conseguir acabar as frases... parecia as que outrora imaginara e tinha a certeza de não as ter lido em livro algum.
Olhei para as minhas mão estavam mais pequenas, vi os meus miúdos joelhos rasgados das quedas de bicicleta mal coberto com a saia que a minha mãe fazia a condizer com a camisola.
Sem dar por isso tinha entrado na maquina do tempo e regressei aos meus nove anos, o banco verde desapareceu e o jardim tornou-se em mato pronto para ser desbravado em buscas de anéis e elfos encantados. O mesmo menino deu-me a mão e Disse – “Anda!! ainda não viste o que está dentro daquela gruta” e corremos de mão dada em direcção a uma mirabolante aventura.
O livro das personagens suspensas nas suas histórias desinteressantes caiu ao chão. Abri os olhos e estava sentada no banco de madeira verde... sozinha. Olhei em redor e nem sinal do rapazinho, só podia ter adormecido e sonhado. Inclinei-me para apanhar o livro, e abriu-o no colo..
Comecei a folheá-lo para procurar a ultima página que tinha lido... e a medida que as passava uma a uma diziam “fim”...
Thursday, April 06, 2006
Rostos

Porque o tempo não pode voltar atrás e as lágrimas não recuam. A vontade é reprimida e o grito mudo. O estômago revolta-se com as sensações e o coração dispara. É como se estivéssemos apaixonados mas é muito melhor do que isso.
Porque viajamos sozinhos em mundos que pensamos ser só nossos, mas por lá encontramos outros iguais a nós próprios. Um mundo onde a imaginação e a fantasia reinam lado a lado governando pequenos seres que nos encantam e respiram pós mágicos.
Porque adormecemos sobre o que não nos interessa e levantamos os pés para um voo do qual não queremos voltar. E quando somos obrigados a regressar deixamos por lá sempre qualquer coisa. Eu deixo. O meu espírito que é tão teimoso e rebelde. Depois quando me tento concentrar, sussurra-me palavras enfeitiçadas ao ouvido, levando-me a mente e o coração, deixando-me apenas cheia de correntes de ar...
Mas a verdadeira magia está em saber que por detrás de palavras escritas, sentidas e faladas existe sempre um rosto vincado em feições. Um rosto que ri, chora e envelhece como o meu...
Thursday, March 30, 2006
Para nunca esquecer o "ontem"...

Noite, passeio, meias, ténis rotos. Queda, dor, sorrisos, gargalhadas, suor que arrefece a pele que escalda, brisa fresca, esplanada e saudades das noite de Verão. Café e àgua com muito gelo e casca de limão. Pessoas que passam e pessoas que já passaram. Boas noites em atraso e o até amanhã desejado. Cansaço, voltas na cama e o acender de luz. Copo de leite e pinhal. Musica, sonolência e sonho...
Tuesday, March 28, 2006
Sempre com um sorriso nos lábios...
- Onde dói?
- Aqui...
- Ai onde?
- Aqui bem debaixo da camisola, da pele e da carne...
- Deixa ver...
- Não... não podes... não se vê...
- Porque te dói?
- Desde ontem que a minha cabeça não para de latejar e sinto que o coração me salta pela boca.
- Mas quem te fez mal...
- Não foi quem... foi o quê!!!
Desde ontem que ando assim... voltei a não dormir. Prometi a mim mesma que não voltaria lá, mas foi impossível. O meu coração alia-se de tal maneira a minha imaginação que a mente não obedece aos estímulos do que é consciente. E sei que nos dias mais rotineiros não posso lá ir, porque não tenho forças suficientes para voltar ou simplesmente não quero.
Olhei, e como sempre lá estavam ambos há minha espera sentados no limite da rocha com os pés pendurados para lá, bem ao lado do ponto geodésico... o sol ainda estava bem alto, mas reparei que se preparavam para passar noite. Por vezes penso que para eles é tudo tão mais fácil, conseguem-se desligar em escassos segundo enquanto eu vou largando bocados de mim e andando só por metade... e mesmo que depois que os queira juntar novamente tornam-se incompatíveis...
Desta vez fui a pé, para demorar mais tempo e para o caso de me arrepender voltar para trás ainda mais devagar. Vou assustada porque sempre que me chamam sem aviso prévio é por alguma coisa não estar realmente bem. E desta vez não foi diferente, num raciocínio rápido senti a má noticia que lhes ardia nos lábios.
Alguém destruira por completo o mundo de Henric... fora assaltado no sossego da sua auto caravana. Alguém espatifou por completo tudo o que ele tinha, destruindo em pontapés tudo o que era quebrável...
Mas o que é realmente fantástico, é a forma como aquele homem aceita este facto sem julgar e continua a sorrir enquanto recolhe cada caco com as pontas dos dedos...
- Aqui...
- Ai onde?
- Aqui bem debaixo da camisola, da pele e da carne...
- Deixa ver...
- Não... não podes... não se vê...
- Porque te dói?
- Desde ontem que a minha cabeça não para de latejar e sinto que o coração me salta pela boca.
- Mas quem te fez mal...
- Não foi quem... foi o quê!!!
Desde ontem que ando assim... voltei a não dormir. Prometi a mim mesma que não voltaria lá, mas foi impossível. O meu coração alia-se de tal maneira a minha imaginação que a mente não obedece aos estímulos do que é consciente. E sei que nos dias mais rotineiros não posso lá ir, porque não tenho forças suficientes para voltar ou simplesmente não quero.
Olhei, e como sempre lá estavam ambos há minha espera sentados no limite da rocha com os pés pendurados para lá, bem ao lado do ponto geodésico... o sol ainda estava bem alto, mas reparei que se preparavam para passar noite. Por vezes penso que para eles é tudo tão mais fácil, conseguem-se desligar em escassos segundo enquanto eu vou largando bocados de mim e andando só por metade... e mesmo que depois que os queira juntar novamente tornam-se incompatíveis...
Desta vez fui a pé, para demorar mais tempo e para o caso de me arrepender voltar para trás ainda mais devagar. Vou assustada porque sempre que me chamam sem aviso prévio é por alguma coisa não estar realmente bem. E desta vez não foi diferente, num raciocínio rápido senti a má noticia que lhes ardia nos lábios.
Alguém destruira por completo o mundo de Henric... fora assaltado no sossego da sua auto caravana. Alguém espatifou por completo tudo o que ele tinha, destruindo em pontapés tudo o que era quebrável...
Mas o que é realmente fantástico, é a forma como aquele homem aceita este facto sem julgar e continua a sorrir enquanto recolhe cada caco com as pontas dos dedos...
E continuo com o coração pesado... porque não quero sentir pena dele ... mas neste momento não consigo ter outro tipo de sentimento qualquer...
Monday, March 27, 2006
Não posso dizer... não posso!!!
- Pssssiiiiuuuuuu, hó vizinha, vizinha...
- Sim, diga rápido que tenho o feijão ao lume!!
- Já soube?
- Soube do quê?
Apontando com dedo indicador para a terceira casa do bairro e respondeu:
- O Teodoro tem nova mulher. (sussurrou em tom de escárnio).
A outra colocou uma cara de horror e esquecendo-se completamente da panela que apitava no fogão...
- mas o lado da defunta ainda nem arrefeceu...
- É para ver vizinha, como são os homens. Não podem estar sozinhos.
- E é aqui do bairro?
- Não se sabe, nunca ninguém lhe pôs vista em cima, apenas já à noitinha se dá por ela... aqueles que lá por perto passam ouvem-lhe os passos.
- Só à noite? Que pouca vergonha...
- Dizem ainda que há-se ser uma bela mulher... pelos vultos que trespassam as cortinas coçadas.
Mais duas vizinhas se juntam ao mal dizer, atirando exagerados comentários sobre a mulher misteriosa. E outras duas formaram seis. E das seis expandiu-se como um rastilho que rebenta ao fundo com estrondo. Deste estrondo já todos os desocupados ocupavam-se agora em descobrir quem seria tão misteriosa companhia do jovem viúvo.
- Diz lá quem... que nos matas de curiosidade...
- Não posso dizer... não posso.
Na sociedade recreativa já os mais velhos faziam apostas nas cartas com o nome e outros devaneio menos próprios. Os mais novos mandavam piropos aprendidos em casa e as mulheres de avental juntavam-se à porta da mercearia já com inveja da nova que viria.
O padre ao domingo pregava sermões de bons costumes e dos anos de luto que se deve carregar. Três insistia o padre, com os três dedos bem esticados para cima e os olhos posto no Teodoro. O padre encarava-o, todos o encaravam.
Na confissão voltava o padre a insistir:
- Diz-me Teodoro quem é essa mulher que te visita à noite?
- Não posso dizer senhor padre... não posso.
E foram estas as especulações que circundaram em todo o bairro, durante dias, semanas e meses. Sem ninguém esquecer...
Uma noite a sirene do carro de bombeiros tocou e voltou a tocar, significando fogo. Havia um incêndio no bairro. Na agitação todos saíram de casa para IR VER. Uns em trajes menores outros ainda semi-nus, em magote desceram a rua principal do bairro, parando junto à casa que ardia. A terceira casa do bairro.
O fogo foi extinto, devorando por completo a casa e todo o seu interior... momentos depois o bombeiro que entrou e saiu com José Teodoro em braços...
E uma grande exclamação percorreu todos os presente. Alguns gritaram outros ficaram estáticos, algumas mulheres desmaiaram e crianças choraram...
José Teodoro vinha já sem vida. Trazia ja meia ardida uma peruca loira e vestido as roupas da defunta...
- Sim, diga rápido que tenho o feijão ao lume!!
- Já soube?
- Soube do quê?
Apontando com dedo indicador para a terceira casa do bairro e respondeu:
- O Teodoro tem nova mulher. (sussurrou em tom de escárnio).
A outra colocou uma cara de horror e esquecendo-se completamente da panela que apitava no fogão...
- mas o lado da defunta ainda nem arrefeceu...
- É para ver vizinha, como são os homens. Não podem estar sozinhos.
- E é aqui do bairro?
- Não se sabe, nunca ninguém lhe pôs vista em cima, apenas já à noitinha se dá por ela... aqueles que lá por perto passam ouvem-lhe os passos.
- Só à noite? Que pouca vergonha...
- Dizem ainda que há-se ser uma bela mulher... pelos vultos que trespassam as cortinas coçadas.
Mais duas vizinhas se juntam ao mal dizer, atirando exagerados comentários sobre a mulher misteriosa. E outras duas formaram seis. E das seis expandiu-se como um rastilho que rebenta ao fundo com estrondo. Deste estrondo já todos os desocupados ocupavam-se agora em descobrir quem seria tão misteriosa companhia do jovem viúvo.
- Diz lá quem... que nos matas de curiosidade...
- Não posso dizer... não posso.
Na sociedade recreativa já os mais velhos faziam apostas nas cartas com o nome e outros devaneio menos próprios. Os mais novos mandavam piropos aprendidos em casa e as mulheres de avental juntavam-se à porta da mercearia já com inveja da nova que viria.
O padre ao domingo pregava sermões de bons costumes e dos anos de luto que se deve carregar. Três insistia o padre, com os três dedos bem esticados para cima e os olhos posto no Teodoro. O padre encarava-o, todos o encaravam.
Na confissão voltava o padre a insistir:
- Diz-me Teodoro quem é essa mulher que te visita à noite?
- Não posso dizer senhor padre... não posso.
E foram estas as especulações que circundaram em todo o bairro, durante dias, semanas e meses. Sem ninguém esquecer...
Uma noite a sirene do carro de bombeiros tocou e voltou a tocar, significando fogo. Havia um incêndio no bairro. Na agitação todos saíram de casa para IR VER. Uns em trajes menores outros ainda semi-nus, em magote desceram a rua principal do bairro, parando junto à casa que ardia. A terceira casa do bairro.
O fogo foi extinto, devorando por completo a casa e todo o seu interior... momentos depois o bombeiro que entrou e saiu com José Teodoro em braços...
E uma grande exclamação percorreu todos os presente. Alguns gritaram outros ficaram estáticos, algumas mulheres desmaiaram e crianças choraram...
José Teodoro vinha já sem vida. Trazia ja meia ardida uma peruca loira e vestido as roupas da defunta...
Friday, March 24, 2006
Eternamente assim...

Aquilo é que era tempo... um tempo que passou tão rápido que agora os meus dias são passados a olhar lá para fora sentada com um corpo velho e gasto que já não me obedece, numa cadeira junto a uma janela onde a paisagem apenas muda com as estações do ano. Os carros que passam e as pessoas que acenam são sempre as mesmas, a vida lá fora não pára e minha cá dentro não avança. A que tive acabou numa rotina que se reparte entre refeições pontuais e medicação regrada, num caminho separado em dois passos entre a minha cadeira articulada e a minha cama.
Olho a cara das três gerações que eu própria gerei com o amor de uma vida inteira, olham-me com compaixão e sorriem-me como se estivesse louca, só porque deixei de falar. Por vezes desejo que não apareçam mas depois anseio constantemente pelas suas visitas. É a força do sangue. Ou então já é o cansaço e o “destreinamento” de ter que pensar no que é correcto.
Já me conformei que o corpo é mesmo assim... não consegue acompanhar o espírito. E o espírito por sua vez vai-se descolando.
Olho os meu pés deformados. Pés que outrora brilhavam numas sandálias de veludo azul que o meu marido me comprou numa avenida francesa, vestia uma a saia xadrez a condizer e colocava um grande chapéu nos meus enormes caracóis, que hoje estão reduzidos a linhas brancas... e ambos passeávamos de braço dado. Mas apesar de ver o meu corpo a deformar-se e encolher, observo o meu rosto no reflexo do espelho e continuo a ver-me como sempre fui... elevo as mãos com os dedos disformes e afasto um lindo caracol que sempre insistiu em cair-me sobre os olhos... sorriu e uma fileira de dentes confirmam que serei, apesar de os outros não conseguirem enxergar, eternamente assim...
A minha saúde está presa a lindas recordações que trago ao longo destes noventa e oito anos. Aqueles que não aguentaram tanto tempo visitam-me à noite... e juntos viajamos para trás e vivemos as emoções dos dias mais felizes da minha vida.
Como é habitual no verão sento-me na grande cadeira de baloiço que está colocada no alpendre da grande casa com vista para a barragem. Uma aragem vinda de sul revolta as arvore que circundam toda a herdade e na relva fresca as três crianças brincam tranquilas com os cães acabados de nascer. Ao longe o sol tardio torna toda aquela paisagem em cores inexplicáveis... as minhas cores e os meus cheiros de menina.
Estico o braço e de uma outra cadeira de baloiço muito juntinha aquela onde eu estou sentada, uma mão grande e familiar entrelaça-se com a minha...
Tuesday, March 21, 2006
Estátuas quentes!!
-Gostas do meu vestido?
- Gosto, essa cor condiz com os teus olhos. Cor de rosa. É feito de quê?
- De lã, caxemira e renda. Fui eu quem o fez... cozi com cabelos de várias cores. É um feitiço que me ensinaram.
- Feitiço? Para que precisas de um feitiço?
- A muitos anos ainda em pequena, uma velha muito velha leu-me nos olhos, que um dia encontraria alguém que iria olhar para mim para lá de tamanha feiura. E que seria num lindo baile...
- E onde é esse baile?! o mensageiro não apregoou baile algum...
Mas continuou a cantarolar... como se a irmã não existisse sequer...
- Vou colocar o cabelo no alto nuca, disfarçará decerto a esta minha feiura, colocarei pólen de flor "marron" na pele para parecer mais rosada e nos lábios banha com corante vermelho. Apertarei o vestido ate encolher gorduras.
- Sim (proferiu pacientemente) realmente, realça-te as curvas. Estás linda...
Aprontou-se apressadamente... a irmã pensou tratar-se de mais um devaneio. Pois desde pequena que era mole de inteligência. Alias não seria a primeira vez que ela se iludia em bailes e festivais para os quais só ela era convidada. Dizia o senhor doutor que também era veterinário, num dos últimos devaneio do qual não foi fácil trazê-la de volta, que se tratava de dores de solteira... que se curava com sangramento.
Vivia num não conseguir aprender... vivia dentro de um mundo só seu que tinha um enorme jardim... e se transformava naquilo que desejava. Desta vez passeou por dentro de arcos abobados, avenidas herbáceas e parou de frente para um corredor de calçada ladeada de sebes muito bem aparadas. Algumas estavam milimetricamente alinhadas de quatro em quatro e esculpidas em animais fantásticos.
Ao fundo desse mesmo corredor uma porta com janela... correu imediatamente antes que fosse proibido e em segundos já estava de pé junto à janela. Na humidade interior de respirações, dos vidros não conseguiu ver nada... limpou com a ponta do vestido mas era de dentro... voltou a espreitar, e sem querer com um simples toque de nariz abriu-se...
Estava a decorrer um festival de musica e cores que rodopiavam num salão luxuosamente ornamentado. Cheirava a beleza interior, verdade e sabedoria. Estranhamente estava cheio de pessoas. Pessoas bem vestidas e a rigor. Vestidas à época e a muitas outras épocas anteriores. Mas o mais interessante é que estavam todas paradas, como se de estátuas se tratassem. Estáticas em posições de segundo antes... como se algo ou alguém tivesse entrado de repente e as tivesse paralisado. Tinha pensamentos fracos para “descorrer” o que se passava. Para ela era um baile onde animadamente se confraternizava independente do indumentária... passou por entre todas, tocou-lhe e pareceu sentir. Dançou com este e aquele numa dança onde só ela se movimentava.
Ao fundo um rapaz parado em posição de convite de dança.
Encaixou as suas largas ancas nos braços estáticos do rapaz e rodopiou... apaixonou-se... pelo rapaz que não se mexia...
Por fim lutou com o cansaço... caiu na exaustão. Aconchegou-se nos braços do rapaz que não se mexia e adormeceu... estremunhou por várias vezes e pareceu-lhe ver as pessoas estátuas do baile a movimentarem-se e a rir. O rapaz sempre ao seu lado agora com os braços mornos acariciava-lhe os seus cabelos cor de laranja. Numa sonolência voltava sempre a cair no mesmo sono profundo... e repetidamente via as estátuas em posições diferentes cada vez que abria os olhos...
- Gosto, essa cor condiz com os teus olhos. Cor de rosa. É feito de quê?
- De lã, caxemira e renda. Fui eu quem o fez... cozi com cabelos de várias cores. É um feitiço que me ensinaram.
- Feitiço? Para que precisas de um feitiço?
- A muitos anos ainda em pequena, uma velha muito velha leu-me nos olhos, que um dia encontraria alguém que iria olhar para mim para lá de tamanha feiura. E que seria num lindo baile...
- E onde é esse baile?! o mensageiro não apregoou baile algum...
Mas continuou a cantarolar... como se a irmã não existisse sequer...
- Vou colocar o cabelo no alto nuca, disfarçará decerto a esta minha feiura, colocarei pólen de flor "marron" na pele para parecer mais rosada e nos lábios banha com corante vermelho. Apertarei o vestido ate encolher gorduras.
- Sim (proferiu pacientemente) realmente, realça-te as curvas. Estás linda...
Aprontou-se apressadamente... a irmã pensou tratar-se de mais um devaneio. Pois desde pequena que era mole de inteligência. Alias não seria a primeira vez que ela se iludia em bailes e festivais para os quais só ela era convidada. Dizia o senhor doutor que também era veterinário, num dos últimos devaneio do qual não foi fácil trazê-la de volta, que se tratava de dores de solteira... que se curava com sangramento.
Vivia num não conseguir aprender... vivia dentro de um mundo só seu que tinha um enorme jardim... e se transformava naquilo que desejava. Desta vez passeou por dentro de arcos abobados, avenidas herbáceas e parou de frente para um corredor de calçada ladeada de sebes muito bem aparadas. Algumas estavam milimetricamente alinhadas de quatro em quatro e esculpidas em animais fantásticos.
Ao fundo desse mesmo corredor uma porta com janela... correu imediatamente antes que fosse proibido e em segundos já estava de pé junto à janela. Na humidade interior de respirações, dos vidros não conseguiu ver nada... limpou com a ponta do vestido mas era de dentro... voltou a espreitar, e sem querer com um simples toque de nariz abriu-se...
Estava a decorrer um festival de musica e cores que rodopiavam num salão luxuosamente ornamentado. Cheirava a beleza interior, verdade e sabedoria. Estranhamente estava cheio de pessoas. Pessoas bem vestidas e a rigor. Vestidas à época e a muitas outras épocas anteriores. Mas o mais interessante é que estavam todas paradas, como se de estátuas se tratassem. Estáticas em posições de segundo antes... como se algo ou alguém tivesse entrado de repente e as tivesse paralisado. Tinha pensamentos fracos para “descorrer” o que se passava. Para ela era um baile onde animadamente se confraternizava independente do indumentária... passou por entre todas, tocou-lhe e pareceu sentir. Dançou com este e aquele numa dança onde só ela se movimentava.
Ao fundo um rapaz parado em posição de convite de dança.
Encaixou as suas largas ancas nos braços estáticos do rapaz e rodopiou... apaixonou-se... pelo rapaz que não se mexia...
Por fim lutou com o cansaço... caiu na exaustão. Aconchegou-se nos braços do rapaz que não se mexia e adormeceu... estremunhou por várias vezes e pareceu-lhe ver as pessoas estátuas do baile a movimentarem-se e a rir. O rapaz sempre ao seu lado agora com os braços mornos acariciava-lhe os seus cabelos cor de laranja. Numa sonolência voltava sempre a cair no mesmo sono profundo... e repetidamente via as estátuas em posições diferentes cada vez que abria os olhos...
Friday, March 17, 2006
O dia que voltou ao inicio!

Acomodei-me de tal maneiras as minhas sensações que andei entregue apenas a um deambular... Estive semi-transparente e como se de um camaleão tivesse genes, confundi-me nas cores e nas formas de tal maneira que me esqueçi de voltar à configuração inicial.
Confiada a mim própria, sentei-me numa esplanada quase vazia. Sento-me na mesa de sempre para me dar a entender de uma vez por todas que tenho raízes e costumes... os outros que por mim passam entregues as suas vidas circulam em câmara rápida como se o mundo fosse acabar... lentamente recosto-me na cadeira e deixo todo o meu eu absorver os sol morno...
Num palco improvisado do bar de madeira uma rapaz acaba de tocar uma melodia qualquer... tocava melancolicamente uma viola. Na sua expressão o sentimento. Em espaço aberto novas notas misturam-se com o murmurinho do dia a dia, fazendo no entanto uma melodia deliciosa.
Em cada corda que toca o som tranquilizador das notas penetravam pelos os meus ouvidos em busca da minha substancia, como se de um elixir se tratasse. Olhei o céu e deixei que devagarinho o dia voltasse ao inicio...
Tuesday, March 14, 2006
14.03.06

Por entre os postigos da janela do quarto, a ainda escassa claridade de um novo dia tirou-me o resto das horas que tinha para dormir. Em voltas e mais voltas por entre os lençóis um braço fantástico que me destapa e uma voz chamativa vinda na brisa, empurram-me para mais um amanhecer. Não era a primeira vez, nem seria a ultima que isto me acontecia conscientemente...levantar-me antes do sol.
Sentei-me em cima da mota das quatro rodas... desta vez ia sem destino. Levei apenas comigo o meu silêncio e deixei-me resvalar numa enorme vontade de apenas querer estar e andar por ai. Na loucura do vento que aumentava com a velocidade, procurei a saída de dentro de um jogo perigosamente rotineiro e aproveitei os seus uivos por entre os cabelos, para trautear pequenas melodias.
Com uma sede de querer enxergar tudo, rodopio a cabeça em carrossel de marcha lenta e calmamente vou alimentado a retina com cada imagem que contemplo, fechando os olhos ao som de um clic inventado, captada por uma objectiva que não existe.
O nevoeiro, que adivinha mais um dia de calor, vai-se dissipando em contagem crescente, deixando vislumbrar à medida que o trespasso as magnificas cores roubadas aos mistérios da noite. E com uma imaginação que salto ao mínimo impulso, invento como é a essência do quê ou quem tem intervenção no desenvolvimento em um simples acto... tão sublime.
Sítios rotineiros que simplesmente se tornam habituais a minha passagem, convertidos em locais encantados e arrumados na memoria de um dia, que a seguir se disfarça de igual a todos os outros, deixando-me num saboroso silêncio...
O que senti dentro de mim jamais conseguirei descrever ou até compreender para o transformar em palavras... apenas no meio de tantos sentidos encontrei uma enorme vontade de o partilhar...
Aqui...
(5h00-7h)
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