Wednesday, February 22, 2006

O tempo...


Sento-me de perna cruzada. Reparo nos movimentos constantes, que inconscientemente faço com o pé. Adivinha inquietude.
O chão passa a uma velocidade estonteante e não consigo perceber se sou eu que estou em deslocação ou não.

Anseio pelo daqui a bocado e pelo mais logo. Anseio por amanhã e pelo depois de amanhã. Corro ao lado de um tempo que não descansa, Tentando fintá-lo para o ultrapassar destemida... mas não consigo...

porque ao fim de tanto tempo... é que me apercebi que quatro dias podem vir a ser uma eternidade...

Monday, February 20, 2006

amicitate...


- Estás a dormir?
- Não consigo... estou com medo...
- Estás com medo de quê? (Indagou irritado)
- Não ouves o vento a chuva... e escuta... granizo... isto não vai aguentar...
- Pelos vistos este não se incomoda! (gracejou nervosamente)
- Pois... mas poderia cair o mundo que ele nunca acordaria...
- Descansa que com o peso de nós os três isto não voa de certeza...
- E com o peso de dois... aqueles que estão ali ao lado... será que aguenta?! (retribuiu exaltada)...
Olharam aterrorizados um para o outro...
- Alguém!!!
Gritou. Não obteve resposta.
- Alguém!!!!
Gritou. Voltou a não obter resposta.
- Que se passará. Não consigo ouvir nada... vou sair...
- Espera... se ambos sairmos daqui, de certo isto voará tudo, e levará consigo o que dorme... sozinha não resistes...
- E então os outros...

O Barulho da tempestade de encontro à lona, era ensurdecedor. Fustigada por ventos vindos em todas as direcções, acompanhado por rajadas de um granizo voraz, não aguentaria nem mais uma lufada.

Ela estava seca de tanta angustia. Só poderia contar com a destreza daquele que neste momento tinha os olhos injectados de sangue, perante tanta impotência. Perante um inimigo que idolatrava. Perante quatro vidas mais uma... a sua que daria pelos os outros...

- Temos que sair daqui os três ao mesmo tempo! (disse por fim)

Acordou violentamente o do sono pesado... estremunhado ouviu com atenção o que os dois lhe relatavam. Preparam-se para levar apenas o essencial... a roupa do corpo e os impermeáveis... e como que numa corrida cronometrada, abriram os fechos e saltaram os três ao mesmo tempo. Rebolaram paralelamente pela chão de terra preta. Mole...

Rapidamente uma língua de vento invadiu o interior da lona. Arrancadas como palitos de madeira frágil as estacas, que saltaram uma a uma. E num fechar de olhos, desapareceu velozmente no ar, levando consigo tudo o que estava no seu interior.

Os outros dois do lado, lutavam insolentemente com o vento. Não restou nada. Arrastados pelos demais resmungaram. Se deixassem teriam voado também...

Com a roupa ensopada, e os impermeáveis que se tornaram inúteis, deixaram-se ficar até onde tinha conseguido correr pelo caminho. E pediram protecção às acácias... Olhavam na mesma direcção estranhamente impávidos... maravilhados...

Wednesday, February 15, 2006

Simplesmente sublime!!


Ontem à noite quando cheguei não havia luz. Apenas a luz da grande lua ilustrada nas nuvens negras, que deambulavam no céu, ao sabor do um vento estranhamente morno. Penso que avisava chuva.

Guiei por uma estrada iluminada de candeeiros de rua e virei à esquerda para uma dimensão completamente diferente. Toda a aldeia se encontrava às escuras. Os aldeões que ainda não tinham terminado as tarefas agrícolas diárias, corriam apressados com o gado de um lado para o outro, e àquela hora a pequena drogaria que vende tudo já estava fechada.
Parei o carro e sentei-me num dos bancos do Largo do Coreto. Senti-me realmente feliz por ter o privilegio de poder estar ali... e naquele momento não precisar de mais nada... apenas estar ali... a observar e a ouvir...

...uma musica realmente bela. Aquela que consigo ouvir no silêncio da escuridão, porque fico mais atenta... Ao barulho dos cascos dos animais, que não vejo, a rasparem na calçada antiga e dos seus respectivos badalos. Ao tic tac do relógio da torre da igreja que ameaça bater a repique a qualquer momento as sete horas. Às folhas dos grandes Plátanos que roçam umas nas outras. Aos mochos que piam, e aos vários espanta espírito espalhados pelas casas que se agitam com a passagem do vento, criando entoações no final de cada refrão.

Cheira a petróleo... pendurados nos toscos alpendres das casa da aldeia, vários candeeiros acesos iluminam o pouco espaço exterior. Mas o que interessa é a sua presença e efeito... De todas as janelas dessas mesmas casas exalava a luz das velas acesas. Um luz laranja vinda de uma chama que desloca delicadamente as sombras de coisas inanimadas, e de dentro o cheiro de mais uma refeição nocturna que se mistura com outros odores... simplesmente sublime...

Estaciono melhor o carro sem acender os faróis, jamais quereria quebrar aquela magia, e dirigi-me a pé para casa. Embrenho-me na escuridão e vou ouvindo todos os sons ao compasso da minha caminhada.
No espaço que vou percorrendo, cruzo-me com um cão bem grande e familiar que apenas sinto quando já me está a lamber as mãos... e felizes rumamos a casa...

Tuesday, February 14, 2006

Elas as duas...


Estavam ambas sentadas à minha frente. Na mesa da esplanada que se encontra mesmo virada para a praia. Um fim de tarde morno, que proporciona o aconchego na cadeira e um sorver de palhinha na lata de chá gelado, para ouvir mais histórias realmente fantásticas, durante tempo indeterminado.

Sempre as conheci assim, e não as consigo imaginar em outra idade. Talvez seja o meu amor por ambas que me tolda os olhos para ficar eternamente com a mesma imagem... uma morena e uma loira... uns olhos castanhos e uns olhos azuis...

Todas as vezes que nos encontramos as três é para recordar, ou melhor para elas recordarem e eu ouvir... contam autênticas fábulas para crianças saídas de histórias verdadeiramente vividas por ambas, em outros tempos mais longínquos.

Imagino-me sempre a mim como uma das personagem que vive todas aquelas extraordinárias aventuras num espaço físico que tão bem conheço. Invento uma irmã que não tenho e sento os meus irmãos num banco à espera de uma aventura em que os rapazes também entrem. Por vezes vou à caixinha das memorias buscar as imagens que vi nos retratos sépia espalhados pelos vários apartamentos, e convido-as a virem também.

Completam as frases uma da outra falando em código de meninas que não entendo, e riem sonoramente sem parar... até às lágrimas. Falam de nomes infantis, que apenas conheço já em adultos... e torna-se difícil imaginar esses mesmo adulto, que hoje estão condicionados pelos movimentos da idade a subirem às arvores e aos telhados, correrem pelos montes distantes e roubarem caramelos na mercearia.

Em algumas ocasiões, de frente para ambas apenas consigo sorrir daquilo que não percebo... porque existem coisas que não se conseguem explicar, somente se conseguem viver ou imaginar... sorrio porque vou achando graça aos adjectivos que utilizam para descrever pessoas, ou um tempo em que alguma coisa muito importante aconteceu.

A história que mais gosto é faço sempre questão que a repitam para finalizar o encontro, é a do Circo. Em que um Edmundo qualquer que elas conheceram, num dos anos em que o Circo desceu à aldeia, se apaixonou perdidamente pela mulher barbuda, e fugiu na sua caravana.
Já a sei de cor, mas parece que sempre que a contam lembram-se de um qualquer pormenor novo. E contam-na com o mesmo entusiasmo e ênfase, numa mistura de risadas demoradas... às quais as minhas se juntam...

São elas... somos nós três... é o fim de tarde morno e ameno... pequenas homenagens a adultos com nomes infantis e a pessoas que já não existem... são espaços pequeníssimos de tempo... que tornamos imortais a cada encontro...

Para M. e T.

Friday, February 10, 2006

Num jardim depois do sol...

Depois do cansaço ter tomado por completo o domínio do meu corpo, sentei-me num pequeno banco de madeira, mesmo de frente para aquele grandioso monumento. Olhei à minha volta e só então reparei o quanto já era tarde. Mas fiquei prostrada na mesma posição, deixando o vento arrancar-me aos poucos da memoria do que se que tinha passado.

Observei pacificamente o monumento majestoso. Reparei nos pequenos pormenores das estátuas que pendiam dos telhados e exclamei para mim o quanto pareciam reais. Na minha cabeça já oscilavam as ideias mais absurdas, numa tentativa de engendrar uma invasão aquilo que não era meu. Queria ver de perto, e poder apalpar aquilo que para mim estavam perfeitamente bem esculpido.

Vinda de nenhures surgiu uma mulher que se sentou ao meu lado. Não a senti. Estranhou eu estar ali àquelas horas, não respondi. Estava cansada de mais para afastar os lábios e soltar qualquer som... Percebeu.
Disse que queira contar-me uma história. Acenei com a cabeça, e mexi-me apenas para me colocar numa posição mais confortável.

Começou então:

Aconteceu assim que o sol se escondeu, num monumento rodeado por um jardim exuberante preso em quatro muros que protegem arvores exóticas e grutas labirínticas, relógios de sol, estátuas antigas e animais de pedra. Um jardim que acorda com espírito próprio e concretiza sonhos mágicos em mais uma noite cheia de vidas não respirada.

Sentada no seu púlpito, que adorna um dos telhados do magnifico monumento ogival há mais de mil anos, permanece imóvel e resistente.
Atrás, na nuca, sentiu um estilhaçar que lhe percorreu o resto do corpo desumano. Estava a partir-se. Saia de dentro de uma casca de pedra, sem fazer um único barulho e aos pouco ia-se articulando novamente . Ao seu lado, em púlpitos vizinhos outros se partem em formatos diferente e saltam em pulos descomunais para a cor roubada pela escuridão.

Saltou para a calçada do pátio. E numa paisagem que observava em anos que já perdeu a conta, inspirada numa história que já não se recorda, cumprimenta a sua efémera amiga liberdade. O vento feliz por a ver, revolta-lhe os enormes cabelos lembrando-a das horas que possui até ao próximo sol.

Por todo o jardim, deambula uma mistura de entidades muito antigas que povoam apenas os sonhos humanos. Os sonhos daqueles pelos quais estavam proibidos serem vistos mesmo em aparições. Existia uma lei muita velha. Redigida há milhares de anos com o sofrimento de todas as entidades, contendo uma penalização fatal. Não é necessário ser relembrada, todos a sabem de cor, e não falam dela. Repartem apenas o seu tempo em alegres conversas desconhecidas, festas, músicas e danças.

Com a túnica a esvoaçar fantasmagoricamente, correu pelo caminho dos Deuses sem desviar o olhar. Conhece as suas histórias e não quer entrar em nenhuma delas. Ouviu murmúrios sobre alguém que já não existe. Alguém que ousou apaixonar-se pela beleza e uma deusa.

Alegre continua... elogia as folhas que apanham os pingo de humidade, e beija as flores que não acordaram. Apesar de ir na direcção certa, naquela noite não lhe apetecia festas nem conversas. Caminhou alegremente até ao limite do muro e espreitou para o mundo humano, riu. Foram muitas a vezes que foi tentada a atirar-se, só para ver como era... Sentou-se no chão e distraiu-se consigo.

Ouviu uma respiração. Com os olhos procurou em várias direcções o seu possuidor... pensou tratar-se de uma habitual brincadeira, e voltou aos seus pensamentos. Novamente a respiração e pressentiu medo... procurou novamente. Espreitou para debaixo de um banco de pedra ornamentado com conchas marinhas... e não queria acreditar no que via... um humano.

Um grito ensurdecedor percorreu todo o jardim... e quanto mais ela se mexia numa tentativa de o calar mais ele gritava de pânico. Se os outros o ouvissem estariam ambos condenados. Sabia a velha lei de cor. Os outros ouviram... e eles foram condenados...

Do humano nunca mais ouviu falar. Ela fora atirada de um dos quatros muros que rodeavam o monumento... condenada a deambular pelo mundo exterior durante a noite, podendo apenas regressar antes do seu corpo não humano começar a petrificar.

... Silêncio.

Respirei fundo... Imaginei toda aquela história passada naquele mesmo monumento que se encontrava a minha frente. Virei-me para elogiar... e ninguém, não a senti...

Thursday, February 02, 2006

O que poderia ter acontecido....


Deslizo sobre mente e a meio do caminho apercebo-me do que já percorri. Vejo-me a trautear um trecho literário de uma alegre musica muito antiga que não conheço. Passo por sonhos que não sonhei e desejos que não desejei...
Perto de mim uma névoa espessa e cerrada bem rente ao solo afasta-me para outros caminhos que não escolhi, empurrando-me numa curiosidade para lá de humana em mirar ao de leve o que poderia ter acontecido.

Por detrás daquela névoa espessa rente ao chão, que rapidamente se transforma num denso nevoeiro, oiço sons confusos de vozes em simultâneo e vejo figura indistinta. Vozes que conheço e vozes que não conheço. Murmuram qualquer coisa que não entendo. Falam de mim porque oiço o meu nome...

Chamo com saudade os nomes daqueles que por mim se cruzaram, e que mudaram o rumo daquilo que poderia ter acontecido. Grito perdão aqueles que já não o podem aceitar, e aceito o perdão daqueles que já não o podem pedir. Mas da minha boca apenas saem nomes que nunca ouvi de outros que nunca vi. De olhos arregalados observo uma multidão ali tão presente e tão estranha, cada um com um papel reservado que nunca foi sequer ensaiado. Desenho com os dedos uma porta imaginária sem fechadura e desobrigo-os de ali estar... desapareceram...

Distribuo várias ideias por balões que exprimem os diferentes estados de alma, e arrumo por ordem alfabética os de antes e os de agora, deixando voar os que poderiam ter existido... e com eles a sensação de ter perdido alguma coisa.

Deslizei pela minha mente e a meio do caminho apercebo-me do que já percorri. Vejo-me a trautear um trecho literário de uma alegre musica muito antiga que tão bem conheço. Recordo os meus sonhos e desejos. Sorrio para ninguém, sorrio para mim mesma. Perto de mim brincam nas sombras os últimos traços de luz provenientes do sol, no céu as nuvens parecem ter sentido com a mesma intensidade... aquele tão saboroso bem estar...

Monday, January 30, 2006

Um dia e duas noites!!

Sentei-me em cima da mota das quatro rodas. Mentalmente verifiquei por uma ultima vez a lista das coisas que tinha dentro da mochila, não fosse ficar alguma em falta. Coloquei a mudança de arranque, e comecei a percorrer a primeira parte daquilo que me aguardava.
Para onde vou, a distancia é curta mas a estrada é difícil de percorrer. Ainda trago na lembrança a ultima vez que senti o duro sabor do asfalto na boca. A noite há já muito que caiu e esconde na escuridão aquilo que as luzes dos faróis não revelam, por isso a atenção tem que ser redobrada, não vá alguém ou alguma coisa atravessar-se na próxima curva.

Conheço aquela estrada de olhos fechados e já o fiz vezes sem conta... cada vez lá passo há sempre qualquer coisa nova que me congela o movimento e me faz ficar encantada. Trago nos bolsos mil avisos e sei que é perigoso... principalmente na minha condição feminina que eu adoro mas que tantas vezes me impede e proíbe. Desta vez com o capacete que me protege dos sussurros do lago triste, cujas margens lambem a berma da estrada, consigo abstrair-me de mitos e histórias que rodopiam na minha memoria, fugindo ao encantamento daqueles que por lá ficam depois do sol. E acelero na estrada sem olhar para trás, sentido nas costas o toque dos acenos.

Quando chego ao destino, ambos já se encontram sentados no limite da rocha com os pés pendurados para lá, bem ao lado do ponto geodésico. Paro a mota das quatro rodas, e corro em sua direcção pela noite... como é habitual sento-me sempre no meio dos dois, penso que tentam criar uma barreira de protecção, mas não me pronuncio.
O da esquerda olha-me com uns olhos que sei que são verdes e sorri em boas vindas. Devolvo-lhe o olhar e tombo a cabeça no seu ombro.

Aos poucos enrolo-me com as pedras e deixo-me despenhar lá em baixo. Misturo-me desfeita em areia no fundo do mar e fico por horas naquele mundo subaquático. Envolta em sons que nunca vou entender, envolta em correntes cruzadas de águas frias de um oceano gigantesco e poderoso, que ora me equilibra ora me desequilibra entregando-me de espírito aquela utopia.
Entre a noção do real e irreal flutuo para dentro de um outro mundo que me transporta de novo ao limite da rocha. Abro os olhos e fixo aqueles outros que sei que são verdes.

Aquele lugar é mágico e intenso, e jamais arranjarei palavras para descrever aquilo que me faz sentir ou até onde me leva. É intenso no cheiro, no toque na paisagem e nas cores. Envolvente cada vez mais no tempo de uma paixão partilhada com outros que dura à muito. Foram duas noites com apenas um dia para dormir... vivi o que não é explicável.
Hoje aqui sentada, em cada tecla que primo vai um bocadinho de mim e uma ínfima parte do que senti.
É muito recente e o meu espírito ainda anda por lá, deixando o meu corpo entregue a uma marcha ritmada ao som compassado do meu mundo material...

Friday, January 27, 2006

"LUCE"



O frio tira-me o sono... é a única altura em que consigo andar nas luzes e quanto mais frio faz, mais intensas são. Como quero aproveitar até acabar, deixo-me andar até o corpo aguentar...
A primeira vez que reparei que o conseguia fazer, foi numa noite em já dormia e bateram à porta. Resmunguei pelas horas tardias e arrastei-me para ir abrir. Ninguém para entrar. Voltei para a cama, e voltaram a bater. Cuspi as piores palavras que me bailavam na cabeça , e perguntei o que raio se passava?!

Embrulhei-me numa manta, trespassei a escuridão. Com o frio a rachar-me os ossos e a pele a encolher-se em múltiplos arrepios continuei a andar até me perder. Entrei em pânico... num choro compulsivo gritei por ajuda até não sentir mais a garganta. Em louca ansiedade percorri quilómetros e quilómetros naquela falta de clareza.

Foi então que vi, um ponto brilhante. Que mais tarde vim a aprender que se designava por “luce”. Agarrou-me na mão, e olhou-me... despiu-me de qualquer preconceito e levou-me de volta por um caminho diferente. Como num jogo de peças multicolor cujas as regras não podem ser ditas apenas seguidas, tive que copiar sem erros, todos os seus paços um a um até sentir uma liberdade extrema. A parte mais difícil de executar era nas falhas de luz, em que tudo ficava em suspenso antes de cumprir um salto maior que as pernas... mas hoje já o faço facilmente.

Conscientemente vou-me apercebendo que entro dentro de mim própria, numa maravilhosa viagem ao contrario.


(...descobri que afinal não sou cor de rosa por dentro. Sou cor de laranja, e tenho num cantinho um malmequer vermelho com um botão azul ...)

Thursday, January 26, 2006

... o tocador de flauta!

Olho para os altos muros que cercam a propriedade privada, e escolho o local mais adequado à minha estatura para subir... calculo alturas, quantidade de musgo podre e humidade para não correr o risco de escorregar.
Já no lado de lá percorro a expansividade do terreno com os olhos, e inspiro a excessividade de ar puro.
Oiço ao longe tocar arrastadamente seis badaladas. Na penumbra corro contra o tempo para não chegar atrasada ao meu encontro secreto com o tocador de flauta...

Vejo-o a subir o caminho dos castanheiros bravos até chegar perto de mim.
Quando chega, coloca os seus poucos pertences no chão e desembrulha cuidadosamente uma flauta de um pano de flanela azul.
Meticulosamente coloca os elegantes dedos de maneira a tapar com precisão os devidos orifícios e leva-a aos lábios. Dedilha-a como um auntêntico mestre e comove-se com cada sopro que extrai... chamo-lhe o sopro mágico.

Escondida por detrás do tronco de um velho Pinheiro, escorrego pelas minha pernas, encolho-me sobre mim própria e fico quieta sem fazer barulho. Bebo cada nota que se solta, e desejo ardentemente que nunca acabe. Qualquer som vindo de mim é o suficiente para o assustar e ele nunca mais voltar...

É um encontro tão secreto que o próprio tocador de flauta não sabe que faz parte dele. Já não me recordo a primeira vez que o vi. Penso que foi quando conheci o monge que meditava, e presumi erradamente que a musica exalava de dentro de si. Depois foi seguir pelo labirinto melódico e vislumbrá-lo numa das encruzilhadas. Não queria acreditar no que via, fiquei por horas a ouvi-lo. Desde então, como um vício sem o qual não se consegue viver, comecei a lá ir todos os dias, pressentindo que o encontraria...

Ouve um tarde que levei comigo uma outra pessoa, descrevi-lhe todas as regras do silêncio para não assustar o tocador de flauta. E partilha-mos o mesmo esconderijo.
Ela não enxergou... nunca mais quis voltar.

São muitos aqueles que vão lá secretamente, e se escondem como eu atrás dos troncos das arvores... penso que alguns também ainda não enxergaram, mas continuam a insistir em lá voltar até um dia isso acontecer.

Tuesday, January 24, 2006

Henric pote e o cálice de vinho

Eram cinco da manhã, e já o Land Rover amarelo percorria numa corrida louca aquelas Planícies. Como numa pista acidentada desviava-se em razias aos sobreiros pinheiro e acácias que iam aparecendo no caminho já pré definido para o efeito.
Parámos perto da barragem que já tão bem conhecemos, infelizmente tão vazia, que nem as chuvas de um mês a encheriam de modo igual à primeira vez que a vi. Saímos do Jipe para acalmar o estômago que se encontrava na iminência de rejeitar o pequeno almoço, e sentámo-nos nas pedras de xisto que circundam as margens da barragem formando autênticas bancadas de espectáculo.

Inspirei uma, duas três vezes. Deixei o cheiro das estevas, que deambula precocemente pelo ar, invadirem-me as narinas e observo o céu espelhado na magnitude das aguas paradas. Ao fundo num horizonte longínquo, os primeiros indícios de mais um nascer de dia começa a invadir numa velocidade pestanejante o tecto estrelado.

Estava na hora de voltar ao caminho. Mas não seria naquele instante. Porque o Land Rover ao qual chamamos carinhosamente “O submarino”, estava literalmente atolado nas margens da barragem, e quanto mais se tentava arranjar um solução mais o pobre “submarino” se atolava. Decidimos então ir à procura de ajuda. Ficaram três para trás.

Eu e outro começamos por nos dirigir em direcção ao sol. Caminhamos, mas verdadeiramente caminhamos muito. Mais ao fundo pareceu-me ver uma auto - caravana... no meio do cansaço ainda pensei tratar-se de uma miragem, mas arranjamos forças para correr, e era real. Dois cães ladravam... uma cadela zarolha, e um cão sem as duas patas traseiras arrastava-se pesadamente num carrinho improvisado com duas rodas. A porta abre-se, e de dentro da auto – caravana que parecia estar ali desde sempre, uma figura surge.

Alto, gordo (mas mesmo muito gordo), uma pança que forçava uns botões de uma camisa sem cor. A pele que já fora branca, agora vermelho cosido circundavam uns olhos azuis. De cabelo e barba enormes loiros, esboçou um grande sorriso de onde apenas avistei um único dente já sem saúde. Atrevo-me a dizer que tinha um aspecto feliz. Mas muito feliz mesmo.
Trazia uma malinha atravessada no tronco... desta tirou um cálice e uma garrafa de vinho. Com o cálice elegantemente preso entre o indicador e o polegar encheu-o de vinho e bebeu num só gole. Voltou a guardar tudo na malinha.
Imediatamente nos convidou para entrar e apresentou-se como Henric Wellinton. Feitas as apresentações declinamos o convite, e imediatamente lhe contamos o ocorrido.

Henric pôs um ar pensativo, procura uma solução. Pediu-nos as coordenada e dirigiu-se a um pequeno barracão. Quando abriu a porta desapareceu no escuro, ouviu-se o “relatim” de uma motorizada, e eis que Henric surge, montado no seu triciclo de certo com de mais de 60 anos, ferrugento com atrelado. Trazia posto um capacete cor de rosa colocado no alto da cabeça atado com uma corda ao pescoço e umas calças de cabedal coçado. Trazia o banco enterrado a meio do corpo... pensei que rir seria a pior coisa que poderia fazer naquele momento. Repetiu o ritual do cálice. Ordenou-nos em tom de mestre que entrássemos no atrelado e que ajudássemos os cães a subir igualmente. Acelerou em nuvem de pó e arrancamos em curvas, numa mirabolante velocidade de vinte há hora. O cabelo e a barba selvagem de Henric, esvoaçavam numa reviravolta contra o vento e o mesmo sorriso feliz esculpido nos lábios.
Não sei precisar quanto tempo demoramos...

Não consigo descrever a cara dos outros quando nos viram. Talvez a situação fosse perfeita para nos rasgarmos em gargalhadas... mas ninguém se atreveu.
Henric saiu do triciclo retirou os dois cães, repetiu o ritual do cálice e apresentou-se aos restantes. Sempre com um sorriso feliz, pediu-nos que nos afastássemos. Pegou numas cordas e atou-as ao pára choques.
Por incrível que pareça, não foi preciso muito esforço por parte do triciclo ferrugento para conseguir tirar o “Submarino”, posso até dizer que foi à primeira... Sorridente olhou para nós incrédulos, disse na sua língua que já estava. Da malinha retirou seis cálices encheu de vinho e distribui-os por nós. Ficamos sem saber que atitude tomar...

Nessa mesmo tarde voltamos para perto da barragem, onde existe uma enorme clareira. Sentado numa mesa vinda não se sabe de onde, estava Henric e os dois cães, mas completamente diferentes. A cadela já não era zarolha e o cão tinha as quatro patas. Tentamos Ignorar esse facto imediatamente, e pedimos educadamente para nos sentarmos nas restantes cinco cadeiras. Antes de responder retirou da malinha seis cálices encheu-os de vinho e distribui-os mais uma vez por nós. Elevamos os braços ao alto e bebemos de um só gole.

dedicado ao Henric...

Friday, January 20, 2006

Um lindo cisne...

Lembro-me de querer ser bailarina. E mesmo muita pequenina sonhava em ser “Prima Bailarina”. No meu quarto voava em passo inventados por todo o seu espaço total. Pegava nas panteras, ursos e coelhos de peluche e atirava-os ao ar em movimentos elegantes próprios da feminilidade de uma menina.
Os “pinipons”, “barriguitas” e “estrunfes azuis” serviam de publico, que aplaudiam com furor, a cada reviravolta dada na ponta do dedo do pé.
Ao fim de tanta palhaçada em frente ao espelho, e horas passadas em danças imaginárias com bonecos que não se queixavam do cansaço, os meus pais inscreveram-me nas aulas de ballet.

Todas as tarde sentava-me no passeio perto da escola meia hora antes. Não fosse eu chegar atrasada. E recordo como se de cima me estivesse a ver com cinco anos... com as minhas botinhas ortopédicas, cheias de memórias das canelas dos rapazes, uma saiinha plissada em xadrez, a chupar um granizado gelado de ananás. Acompanhada claro por um grande saco da “Betty Boop” cheio de equipamento de ballet...

Ensaiámos na nossa pequenez até à exaustão para um grande espectáculo que iria decorrer no Teatro Nacional D. Maria II.
Estávamos radiantes. Basta imaginar quarenta meninas juntas, com cinco anos, e ainda por cima histéricas com descoberta de uma nova magia de bastidores, camarins, maquilhagens, roupas e todos os adereços que a ocasião proporciona.

O espectáculo começou... mas esqueci-me de referir que segundo a “Mestra” eu sofria de um grave problema... era canhota... e então fazia os chamados “pliés” ao contrario.
Durante todo tempo até ao grande dia, lutei com a minha própria “canhotice”. Pintava a mão com cores ou atava lenços à volta do braço, de maneira a concentrar-me qual subiria em forma de arco.

Entretanto subimos ao palco, fofinhas e anafadinhas, dentro de uns fatinhos que imitavam cisnes. Sob um fantástico jogo de luzes e um publico enorme, correu tudo na perfeição... até à parte final do espectáculo.
Mesmo quando a excitação estava ao rubro, é que a minha verdadeira natureza venceu.

A peça terminava com os cisnes todos em cima do palco em “plié” virado para a direita... e mesmo no meio lá estava eu... um pequeno cisnes com um enorme sorriso a destoar com um “plié” virado para esquerda. Naquela adrenalina infantil jamais reparei na “Mestra” vermelha de raiva a esbracejar....

Rapidamente comecei a suspeitar das desculpas que os meus pais arranjavam para não regressar às aulas de ballet. Um dia o meu pai chegou com um grande embrulho debaixo do braço. Sentamo-nos ambos no chão e ajudou-me a desembrulhá-lo... eram as minhas sapatilhas de ballet emolduradas num lindo quadro cor de rosa. Recordo-me que não chorei...

Peguei na bicicleta e fui brincar com o Miguel, aquele que ficava tardes inteiras à minha espera, e eu nunca aparecia por causa das aulas de ballet. Recebeu-me de volta de braços abertos, e disse-me que eu era o cisne mais lindo que alguma vez tinha visto. E pedalamos em corrida até ao fundo do quintal...

Thursday, January 19, 2006

De regresso a casa...



Acordava todos os dias com a carne congelada e encharcada até à alma. Com os ossos perros a desdobrarem-se num barulho de porta velha, acendia a lareira num fogo que lambia a madeira em segundos. E aquecia-se.
Permanecia por horas dentro da casa, não fosse aquilo ser irreal. Porque qualquer movimento em chão falso, era o suficiente para cair, atravessar a fronteira dos mundos e nunca mais conseguir voltar. Era ali que se sentia bem.

Lá fora nos bosque e florestas brancos, brincam em histórias e fantasias os seus companheiros fictícios, inspirados em personagens fantásticas de notável beleza.
Na utopia da neve, raramente entravam príncipes ou beijos. Apenas uma única vez imaginou uma criatura vinda de outro mundo , que num beijo profundo a conquistou aprisionando-a em castelos feitos no vento... vento que se tornou em brisa. Gostava antes de se imaginar como uma substância incorpora.

Ela própria tinha a seu cavalo de gelo, que igualmente se alimentava de sonhos... era ele quem a transportava naquele devaneio. Flutuavam naquele mundo de neve até caírem na exaustão. Acontecia muitas vezes ultrapassarem o limite das nuvens, e perante um sol quente o cavalo de gelo derretia fazendo-a estatelar-se no lado de cá... felizmente no lado cá pouca coisa tinha que a fizesse permanecer por muito tempo, sentia-se livre por isso mesmo, e era essa liberdade que a elevava numa viagem de volta aquela que considerava a sua verdadeira casa....

Tuesday, January 17, 2006

Ténis(inhos) de cristal...

Naquela manhã acordei assim... apeteceu-me vá-se lá saber porquê, se calhar o meu subconsciente foi buscar uma simples frase que proferi na tarde anterior...
Subi as escadas para o sótão, em busca dos sapatos de salto alto que comprei de propósito para o casamento da prima da prima do avô da prima.

Vesti-me... sentei numa cadeira com o meu um metro e sessenta e qualquer coisa, quase setenta, e levanto-me para um mundo completamente diferente... um mundo ao qual acrescentei dez centímetro. E assim me joguei com uma altura descomunal para o dia que tinha pela frente.
De vez quando olhava para traz, estava sempre com a sensação que alguém me seguia com o mesmo passo num TOC TOC infernal...

O dia começou quando tudo teve que ser modificado. O banco do carro mais para traz, diminuir a altura das cadeiras, diminuir os pulos nas escadas, a lentidão para chegar a algum lado... já para não falar do andar esquisito, com as costa direitas e barriga encolhida, o peito espetado para a frente e claro o constante barulho TOC TOC.

Pela hora do almoço, comecei a sentir uma sensação de arrasto até ao restaurante, implorei por uma mesa vaga, e sentei-me pesadamente... Senti-me com uns oitenta anos quando disfarçadamente tive que retirar o pé dentro do sapato e permitir que desinchasse por momento... coitados... nem queria imaginar o que os meus dedinhos me diriam quando chegasse a casa.

Agora já tinha chegado à fase do “disfarça, e deixa-te estar sossegadinha!!”... fiquei quieta no meu canto e rezei para que não me chamassem durante a tarde para o que quer que fosse... mas como nem sempre todo as orações são ouvidas, lá ia eu, com um grande sorriso e a sofrer horrores cada vez que poisava o pé para efectuar um movimento tão simples que é o andar ... e sempre a ouvir... TOC TOC.

Finalmente sentada no carro... descalcei os malditos sapatos, liguei o ar condicionado para o mais fresco possível, e conduzi em direcção a uns ténis... meia dúzia de metros a frente vejo um “homenzinho” vestido de azul integral com um sinal de stop estendido para cima. Antes de parar tentei calçar os sapatos, mas a verdade é que os meus pés se transformaram em autênticos trambolhos e não cabiam. Tudo piorou quando me pediu que saísse do veiculo para verificar o porta bagagens... a partir daqui já mais nada há a contar... a minha pobre pessoa de pés descalços no alcatrão, um policia incrédulo, uma história que não consegui inventar em segundo e um papel verde na carteira.

Cambaleie furibunda até à porta de casa agarrada às paredes, peguei nos sapatos e espetei com eles no lixo para sempre. Ainda lhes parti o salto não fossem eles fazer mal a outro alguém.
Lindos, Juntinhos e arrumadinhos lá estavam eles... olharam para mim... eu olhei para eles, e juramos fidelidade eterna...

Thursday, January 12, 2006

Carregado de mim...

Quando o encontrei tinha acabado de explodir. Encontrava-se espalhado em bocados humanos pelo chão, alguns ainda flutuavam lentamente. Pensei para mim própria que dificilmente os conseguiria voltar a juntar... mas fiz silêncio.
Apanhei por entre dedos o seu espírito desorientado, amarrei-lhe um fio de lynon e prendi-o ao meu pulso, andava com ele como se de um balão cheio de hélio se tratasse.

Não sabia por onde havia de começar... em cima de uma mesa estendi uma folha de papel vegetal, pensei em moldes que já tinha visto num outro lado qualquer e improvisei...
Comecei pelo rosto. Apanhei os lábios o nariz e os olhos, que ainda na confusão da explosão expeliam lágrimas em catadupas. E moldei-os...
Acariciei-lhe o rosto já completo, e repousei-o no meu ombro.

Peguei numa outra folha de papel vegetal e copiei o tronco as pernas os braços, mãos e pés. Esculpi dedos sem esquecer as unhas e pedi-lhe o primeiro abraço.
Abraçou-me... estava vazio e silencioso por dentro, tinha-se transformado num pequeno monstro, desconfiado e estratega. Mordeu-me o braço numa dentada venenosa e escapuliu-me. Desesperada, cuspi as palavras que me queimavam a língua e amaldiçoei-me por não saber onde falhara...

Muito tempo depois vi-o. Escondido de tal aberração que se tornara estendeu-me a mão. Nela, vi o seu coração dilacerado em duas partes que pulavam em batidas desiguais, assustadas numa contrariedade de emoções. Peguei-lhe meticulosamente, com uma cola especial voltei a juntar as duas partes, com uma caneta de sangue, um a um fui escrevendo os nomes que ele me ia ditando... e coloquei-o no sitio.

Pediu-me que lhe explicasse toda a arte de um mundo novo... aos poucos ensinei-o a sorrir, chorar, sentir e amar. Maravilhou-se com as mais simples coisas que lhe mostrei e devolvi-lhe o espírito. Por fim soprei-lhe nos lábios uma parte da minha própria essência e partiu...

Há já bastante tempo que não sei nada dele... na gaveta ainda tenho guardado os moldes copiados nas folhas de papel vegetal e no ouvido o alerta constante de uma nova explosão...

Tuesday, January 10, 2006

Sítio sem coordenadas...




E sentados à porta da casa de quatro lonas, situada bem de frente para as torres abandonadas onde apenas deambulam os fantasmas dos derrotados, todos os dias eles vislumbram o pôr do sol.
Nas sombras ofuscadas pela noite imaginam criaturas de outros tempos, e nas escuras nuvens que à sua frente vão desfilando, deliram na ilusão das formas criadas no céu alaranjado... Entre conversas corriqueiras, risos francos espalham-se durante sete dias consecutivos num sitio sem coordenadas...

Thursday, January 05, 2006

Ontem transformei-me numa bruxa...

Ontem como numa manhã normal espanquei o despertador e arrastei-me para a casa de banho. Olhei-me ao espelho e reparei que tinha uma borbulha enorme na ponta do nariz. Amaldiçoei as duas barras de chocolate que comera no dia anterior e enfiei -me na banheira. Voltei a olhar-me ao espelho e nesta altura a borbulha tinha dois grandes pêlos espetados... não é possível, isto não me pode estará acontecer... vesti-me rapidamente e peguei nas chaves do carro. Tinha que ir urgentemente à farmácia...

Não, era demais... o meu carro desapareceu e no lugar dele estava uma vassoura, e ainda por cima com instruções de uso no cabo.
Tombei no chão e chorei desesperadamente, o que me estava acontecer.... nesta altura já estava com um rabo enorme, os meus pés aumentaram para o dobro do tamanho e a cada nova descoberta mais os meus olhos inchavam ...

Quando já não tinha forças para mais rendi-me às evidencias... olhei desconfiada para a vassoura e sentei o meu rabo de prateleira no cabo.... a vassoura voo... pensei no proveito que poderia tirar da situação e dirigi-me para lá... parei a vassoura flutuante no lado de fora da janela e umas palavras que nunca proferira antes soltaram-se dos meus lábios... agora é que era mesmo demais... que grande sapo gordo e repugnante em que ele se transformara sentado na sua cadeira de cabedal. Uma gargalhada estridente saiu-me da bocarra enorme e desdentada.... na euforia cai, perdendo os sentidos.

Ontem transformei-me numa bruxa. Lancei um feitiço de tal maneira engenhoso que hoje ainda oiço sapos a coaxar e o da sala ao lado ainda cospe bolas de sabão... MAS LÁ CONSEGUI AQUILO QUE QUERIA.... o pior foi voltar para casa na vassoura.

Tuesday, January 03, 2006

...mas correu tudo bem!

- Dá-me a tua mão!!
- Não consigo, ajuda-me!!
- Tens que te esticar, levanta o pé...
- Não posso, não tenho espaço.
- Bolas... pula!!
- Como queres que pule... caio de certeza...
- Então não te mexas... vou buscar ajuda...
- Não por favor, não me deixes aqui sozinha... vou tentar descer... espera...

Os cantos dos olhos já lhe ardiam de tanta angustia. Esperava a qualquer momento que ela se despenha-se no abismo de rochas que se encontravam na boca da cordilheira. Os braços pareciam ter encolhido e os dedos não alcançavam o alvo. Agora ela já descera pelo menos um metro, e continuava inalcançável...

O pé escorregou, e esfolou na parede o corpo por mais meio metro... a mochila caiu... rebentou-se lá em baixo no chão. No desespero as lágrimas começaram a correr, tentava esconder a face para que ele não visse. Naquele momento a vida parecia-lhe tão frágil, e não surgiam soluções...

- Estás bem?! Aguenta-te que vou buscar ajuda...
- Não consigo aguentar mais... espera... atira-me a corda que tens dentro da mochila...
- Não dá é pequena demais...
- Tenta... por favor os meus braços já não aguentam muito mais... tens que tentar...

Deitou-se na rocha e esticou-se com a corda, por pouco não lhe tocava na cabeça... em grande esforço ela tenta alcançar a corda, os dedos roçam levemente na ponta e num impulso agarrou-se a ela com todas as suas forças... ficando pendurada a baloiçar vezes sem conta, esmagando o corpo contra a dureza da parede rugosa... na boca sentia o sabor a sangue do nariz partido e nos braços a pele rasgada.... Agora só podia contar com a força dele...

Friday, December 23, 2005

tchim tchim...

Ao sol à lua, ao monte da lua, à chuva, ao frio, ao mar, areia, ao calor e às acácias. Às manhã, às tardes e as tardinhas. Às noites, noitinhas e noitadas. Às grandes amizades, às mulheres da minha vida, homens da minha vida, amores, risos, gargalhadas, macacadas e às lágrimas. À bicicleta, à canoa, tenda, saco de cama, às caminhadas e viagens. Aos livros e à musica. Aos pozinhos de perlimpimpim, magia, imaginação, aos gnomos e ao seres encantados, à essência e aos habitantes do meu mundo. À simplicidade, transparência, naturalidade e à verdade. Às memorias, boas e más. Às frustrações, desilusões, perdas e tropeções. Às conquistas... e à felicidade.

Para o Ano... igual ou melhor!!!

Wednesday, December 21, 2005

Rapariga extraterrestre...

Sê bem vinda, rapariga extraterrestre. Aterraste a tua nave na minha mente há muitos anos, o único sitio onde estás em segurança. O mundo é-te inatingível, tu sabes disso. Através dos meus olhos observas e da minha audição ouves, mas não podes falar. Sabes que te manteriam em cativeiro para investigar. Cortavam-te aos pedaços e separavam-te em frascos de vidro. E nem mesmo eu poderia salvar-te.

Nunca te vi, apenas te sinto dentro de mim. Por vezes olho-me ao espelho e tento procurar-te para lá dos meus olhos, tento invadir a minha própria retina numa tentativa de te ver na transparência. Mas é sempre tudo em vão.

Não te compreendo. Falas comigo em códigos que não percebo e fervilhas-me o sangue. Fazes-me cócegas no coração, beliscas-me o estômago e brincas com os meu lábios. Sempre que podes encavalitaste no meu espírito e partem juntos em viagens mirabolantes. Mas eu não me importo... até gosto.

Poucos sabem que existes. Não por seres um segredo mas sim um mistério. Um mistério que nunca desvendarei porque não tenho o controlo sobre ti. Há quem te chame sentimento... eu prefiro chamar-te uma coisa do outro mundo.

Tuesday, December 20, 2005

Obra inacabada...

Sentou-se no canto oposto da sala. Observou a grande tela branca de dois por dois metros que se encontrava à sua frente. Naquele dia ainda não tinha dado com um pingo de inspiração. O que fazer num espaço branco tão vazio.

Tinha um tique nervoso... a boca não parava. E tornava-se cada vez mais intenso com o passar do tempo.
Nos seus 50 anos de vida, já muito tinha conquistado. Uma vida sossegada, tranquila e cheia de sucessos e inspirações. Amores é que teve poucos ou nenhuns. Colocava sempre as culpas no seu tique, nenhuma mulher gostava de ser beijada por ele, aliás olhavam-no quase como uma aberração.

Por isso canalizou tudo para aquilo que melhor sabia fazer e amava... prendia os seus sentimentos em óleos, e emoções em aguarelas. Poucos eram aqueles que interpretavam da melhor maneira as suas obras, não o compreendiam.

Naquele dia ainda com a tela em branco, lembrou-se da sua cor favorita. Misturou na paleta o azul com o amarelo e cobriu a grande área branca na sua totalidade. Representou a infância com nuvens em formas infantis, as amizades com um sol brilhante e intenso, amores e paixões alheias com uma lua cor de laranja. As conquistas representou-as com um grande mar de horizonte delineado, frustrações com arvores despidas e a tranquilidade com um anjo...

Depois voltou ao canto oposto da sala e observou durante um longo momento o que tinha feito até ali... estava inacabada, claro que estava inacabada... o destino ainda lhe reservava muitas coisas e era impossível representa-las no presente. Seria a obra da sua vida. Desta vez não assinou no canto inferior direito...