Monday, March 19, 2007

"Come down!"


Porque a vida é... tão simples como o facto de estar sentada em mesa redonda, rodeada de doze sorrisos. É simples com pão, bolas de Berlim, cerveja e vinho tinto. É simples como a viola que toca repetidas musicas conhecidas em vozes desafinadas, acompanhadas por ritmos batidos com um só pé. É simples como as gargalhadas e os silêncios nos aplausos descontrolados. É simples como um tocar de ombro e um olhar que pega e não descola. É simples como a fogueira que arde para aquecer do frio que se aconchega nos ossos e é simples como a noite cheia de estrelas em constelações partilhadas em segredo...

Os fumos de velas e incensos misturando os cheiros transcendentes... cheira a mil flores naquele presente que não quero que acabe nunca. Aquele presente que foi ontem e ainda aqui está agarrado à minha memória, numa noite infinita, que se uniu naquele exacto momento em que não me posso sentir mais feliz dentro de uma enorme tranquilidade de apenas querer ficar ali para sempre.

O coração agora bate devagar... mesmo dentro das sensações ELE sabe, que "aquela que por fora conduz" quer viver no desalinho daquelas sensações. Sem regras mas com certezas... e com muitas paixões seguras entre as mãos, SIMPLESMENTE perdida de sorriso!!

"To Build A Home" – The Cinematic Orchestra
Explodi ao minuto e trinta e oito...

Tuesday, March 13, 2007

A senhora do calaboiço

Acreditava eu que os príncipes encantados apenas existiam na cabeça de donzelas tontas com voz de cana rachada e dedos picados de agulhas tortas de tanto tempo fiar. E sempre me fez sorrir a ideia do trovador a berrar para uma janela enfeitada, dedilhando tristemente uma cítara e agonizando trovas de amor eterno, provocando arrepios aos seres mais tristes que por ali passassem.

Acreditava sem sequer pestanejar que um dia nas batalhas entre as terras e mundos desconhecidos que tentei conquistar até aos dias de hoje, esbarraria com aquele que deveras arrebataria comigo e com um só olhar roubava-me alma. Teria que lutar até ficar sem forças pelo meu “eu” e se saísse vencida dar-me-ia a mim como prémio. Tentei acreditar nisso, e foi esse acreditar que me fez andar despreocupada a espetar beijos nos maiores sapos sapudos que se transformaram, não em príncipes mas sim em fieis amigos encantados que cavalgaram comigo em demandas fantásticas com fins espectaculares.

Bem.. tudo aconteceu num belo dia de Páscoa para lá do século passado. Limpávamos armas e descansávamos o corpo cansado de tanto percorrer... viver. Repousávamos em praias privadas sobe a areia que já começava a ficar morna, solta de limpa que estava. Desencravou-se unhas, retirou-se espinhos e curou-se chagas de tanta dança e contradança. Treinam-se novas tácticas e habitua-mos as mãos a outras mãos.

Optei por passear na carroça puxada por cinquenta cavalos voadores mas naquela velocidade em que se voa deliciosamente a meio gás, fechando os olhos e perdendo o controlo de segundo a segundo.
Parei junto à falseia e deixei-me sentir esvoaçante numa conversa repleta de piratas zarolhos à procura de mulheres de rabos grandes. "- Boas parideiras"... diziam em risos estridentes de dentes podres. (...)

O vento apertou como uma maldição e arrancou-me, numa força de mil homens, abruptamente da carroça. Os piratas não tiveram tempo de agarrar uma das minhas mãos e em trambolhões confundidos com aqueles voos que jamais queremos recordar, cai pela falésia abaixo mesmo em cheio dentro de um calaboiço perdendo os sentidos.

Acordei. Estremunhei o sitio e assustei-me quando olhei em volta aterrorizada com a ideia de ficar ali para sempre. Presa. Lembro-me do pânico agarrar-me o coração e apertá-lo. Lembro-me do desespero que esgravatou com os meus próprios dedos a terra ainda mole das ultimas chuvas. Tentei não chorar. Tentei não gritar!!

- És uma princesa?!
ouvi coaxar... do escuro.

Num palavrão guinchei que não me faltava mais nada se não um sapo repugnante a pedir-me para ser beijado... senti-o aproximar-se e respondi-lhe entre dentes que NÃO.
Foi-se aproximando e ainda não lhe tinha posto os olhos em cima já as minhas entranhas se reviravam e não estava a conseguir compreender o porquê de perder o controlo por mais de um segundo numa curiosidade quase predadora de ver. Encaramo-nos... ou melhor eu encarei-o. E não percebi o sentido que o meu coração seguia em centenas de batidas...

- Podes experimentar, por favor?!
Voltou a coaxar...

Estiquei os lábios...

Juro que não sei o que se passou. Não sei se o cheguei a beijar... e antes que uma luz muito forte me magoasse a vista, ainda vi ao longe do calaboiço, que até à altura era apenas um buraco pequeno, um vulto a correr...

Ainda gritei...
- Não reza a lenda que o sapo fica com quem o beijou...
Mas não se virou para trás, sequer.

Olhei para cima e estavam os piratas a tentar atirar cordas para me tirarem dali.
Quando por fim consegui agarrar um braço tatuado apercebi-me que já não era a mesma. Estava diferente e quando olhei para baixo senti-me a cair em direcção ao meu destino que tinha acabado de fugir... Inventei eu uma lenda e recolhi-me. Sabia que tinha ficado presa, na longa espera de um beijo sequioso.

Não tenho ideia do dia do calendário em que cheguei à boca do calaboiço e sem vida me atirei lá para baixo. Sem juventude e sem vontade, apenas com melodias cantadas em voz de cana rachada.

Com o passar dos anos comecei a ouvir um tilintar constante... eram moedas.

Em volta do "meu calaboiço" circundava a lenda dos amores eternos. E as verdadeiras princesas começaram a sair das torres e vinham até ao meu limite atirar moedas e fazer promessas para eu lhes devolver os amados... gritavam o meu nome e atiravam a moeda... como se eu fosse uma Santa que vivia ali há séculos, anos, meses, dias, horas, minutos e segundos à espera...

Thursday, March 08, 2007

"Cataracts"

Sim, foi uma fábula. Uma fábula feita de instrumentos musicais e vozes melódicas, sinos e de um menino de sorriso traquina que não pára de crescer. Era uma fábula feita de assobios, arrepios e borboletas. Sorrisos, gargalhadas e alegria. Uma deliciosa fábula que foi contada em surdina para não ser ouvida apenas sentida. Uma fábula de fechar os olhos dentro do inconsciente num sentimento que corre mais depressa que o próprio sangue. Foi uma fábula cheia de mistério e magia que nem sempre é entendida e foi tão vivida.

E com aquela musica no ouvido, assobiava dentro do sonho onde recordava a fábula passada.

... Assobio num vicio entranhado dentro em mim. E quantas mais são as vezes que a oiço mais tenho a certeza que...

Se deixar de sonhar definho...

Thursday, February 22, 2007

... o cheiro dos eucaliptos!

Dois dias. Dois dias assim, sem me lembrar de mim. Sem me lembrar das horas nem do tempo, apenas do momento e do espaço, dos seres evolventes e dos humanos iguais a mim. E foi com os olhos cheios de lágrimas que coloquei a ponta dos pés no limite que separa os mundos e escorreguei por aquele caminho que tão bem conheço mas já não me recordava o porquê dos meus bocadinhos ainda lá estarem.

Rebentei num choro de tal intensidade que acabei por esquecer qual a primeira razão porque o pranto começou, e aproveitei para chorar tudo de uma vez só. Meses semanas e horas de vontades reprimidas por dois lábios selados e uns dedos que apertam o nariz. Chorava de uma saudade dilacerante no peito QUANDO tudo acalmou ao sentir aquele cheiro tão familiar e antigo de menina. Tão aconchegante e ali tão perto do mim. O meu cheiro... o cheiro dos eucaliptos. Fechei os olhos e ouvi o vento a passar por entre as suas folhas em uivos ensurdecedores que traziam o aroma dos deuses profanando até os mais cépticos. E para esses já era tarde. O encantamento tinha começado.

Já era tarde para quem tão séptico ao meu lado caminhava... no desequilibrar das sensações consegui agarrá-lo. Suspenso pela gola do casaco numa força quase de me arrancar as unhas gritei-lhe entre dor e desespero que fechasse os olhos rapidamente...

Senti-os nos cabelos, nos braços nas pernas. Um namoro de pele, transformando cada um dos seus movimentos em mil beijos tranquilos colados por debaixo de um lindo céu. Embalo-me. Adormeço e pela primeira vez envio a magia de um mundo que é só meu para um cantinho da minha própria realidade... e explodi quando alguém, tão céptico até agora, fechou os olhos e voamos tão alto que nem nos lembrámos que se caíssemos e nos estatelássemos misturados no chão.... iríamos ficar para sempre uma só pessoa do mesmo sangue e da mesma carne.

Encaramo-nos. Devoramos retinas e sabores ainda presos na fresca recordação:
- Foi os eucaliptos.
Disse numa voz tremula e extasiada.
- O teu cheiro... o dos eucaliptos.

Friday, January 12, 2007

Untitled (...)

Ela
Vivia num sitio longínquo. Era um sitio tão longínquo e elevado que se perdia de vista em altura a desaparecer nas nuvens. Tão elevadas, que as casas eram construídas nos bicos das pedras e quando o vento era mais forte oscilavam, atormentando as vísceras de quem lá dentro morava.
Muitos foram aqueles que vieram de outras terras para o conquistar e poucos foram aqueles que o conseguiram dominar e por ali ficar. Houve os que tentaram e perderam-se nas encruzilhadas. Perderam-se nas florestas encantadas. Aquelas que o separam da realidade.

Eu
Parei de frente para o portão pintado de verde com um arco formado pelas eras passadas que cresciam em direcção ao céu. Não queria acreditar que não conseguia controlar o meu corpo, estava completamente sem forças. A razão de ali estar há já muito que me tinha esquecido, e o objectivo não recordado sentia-o a chegar ao fim. Peguei num fio amarelo que pendia na parte de fora e puxei-o. Sete sinos tocaram. Primeiro um de cada vez e depois os sete em repique. Um pequeno cão preto correu até mim num ladrar enorme. Sorri. Ninguém respondeu. Abri o portão e entrei por conta própria. O pequeno cão desapareceu à minha frente...

Percorri um comprido corredor de terra e pedras. Do meu lado direito ameixeiras, muitas ameixeiras de várias cores. Outra que nunca tinha visto, que nem conhecia. Um figueira, uma nogueira, um chorão sedento e um pequeno pinheiro que tentava já impor o que um dia viria a ser.
Ao fundo do corredor no lado esquerdo uma casa... branca com riscas amarelas.

Ela
Estava sentada no pequeno pátio situado a poucos metros da casa branca com riscas amarelas. Fumava um pequeno cachimbo talhado a navalha por ele, aquele que estava lá dentro com um coração maior do que ele próprio. Aquele que emanava musica passada e presente. Observava distraída o tempo morno. Absorvia a tranquilidade do riacho que atravessava a casa e que murmurava mesmo ali aos seus pés. As folhas caducas já repousavam no chão apodrecidas e Setembro debicava os restos de uma pequena horta agora abandonada e seca. Chegara a época dos amarelos e castanhos.

Eu
Avistei um pequeno pátio. Sentada estava um mulher, que fumava um cachimbo e brincava com o fumo que lhe saia pela boca em forma de círculos. Olhava em frente com olhos transparentes. Dirigi-me a ela e um pato que tranquilamente debicava os restos de uma pequena horta abandonada e seca esvoaçou assustado e desapareceu...

Ela
Avistou uma mulher que cruzou o lado esquerdo da casa branca com riscas amarelas. Estava bastante suja e não lhe conseguiu ver o rosto. Por momentos pensou que tinha conseguido cruzar as terras distantes e olhou-a espantada. Impossível. A mulher esticou-lhe a mão... deixou-a esticada por uns instantes e caiu sobre a erva molhada.

Eu
Desmaiei. Agora que vi gente podia descansar.

Ela
Correu até à mulher desmaiada. Agora mais de perto viu... os rasgões nos braços os joelhos sangrados e a roupa suja. Molhou as mão na erva e limpou-lhe a lama do rosto...
Era ela própria, ali caída.

Eu
Acordei com o rosto molhado. Olhei a mulher...
Era eu própria.

Ela
Por fim percebeu... que conseguia dominar a terra das mil e uma palavras...

Thursday, December 14, 2006

Cat Power


Os momentos mágicos são intemporais. Podem ser vivido num passado distante mas o encantamento é de tal ordem poderoso que parece que se quebrou mesmo agora. E basta fechar os olhos no preciso momento em que a melodia começa a soprar para uma viagem alucinante ter inicio...

Apesar de não ter surgido o Abismo continua suspenso sobre o feitiço de “Cross Bones Style”!!

Monday, December 04, 2006

Leonor

“- Acudam”...
Gritou em plenos pulmões a mulher da cesta equilibrada na cabeça.

Datava 1946. Ano em que Leonor foi encontrada mais tarde xingada por achada. Tinha apenas dois anos... sentada na doirada seara de trigo. Um trapo velho envolto no corpo e uma pequena laranja na mão. Dentadas perfuravam o fruto sumarento na esperança de matar a sede que já circundava a língua mais do que seca. Branca.

Veio o senhor policia. Veio a aldeia santa. Vieram os sábios e até o padre. Todos afluíram ao novo acontecimento na aldeia onde não se passava nada.

A criança assustada não sabia o que queira. Balbuciava palavras vazias que tocavam no tecto e desapareciam na algazarra da sua prisão. Fazia rir os bobos desdentados. Ninguém a conhecia mas palpitavam em volta de um casal que vivia no moinho da outra aldeia.

Apareceu o herói da história. Um belo rapaz por sinal, envolto no seu manto de pele de cordeiro, casado com uma linda rapariga de ventre deserto. Choravam os dois tal sorte e amaldiçoavam as outras encarnações. Acreditavam nessa coisas. Cheios de promessas peregrinas transformadas em esperanças semi-falsas. Desfaleciam em loucura todas as noites nos braços um do outro até o corpo doer. Mas todos os meses certos como um relógio... sangravam.

O herói da historia apaixonou-se por Leonor. A jovem esposa apaixonou-se por Leonor. Tinha de ser deles. Todos reclamam direitos. Era de todos e ninguém a queria. Foi preciso desembainhar o cajado numa lutar contra outros cajados, foices e outras coisas mais afiadas. Sentimentos, pressentimentos e argumentos malfadados. Escapuliu-se. Agarrou na pequena Leonor e escondeu-a no seu manto imortal, pensando erradamente que a protegia.

Decorrem cinquenta e dois anos, e Leonor apenas conseguiu o amor daqueles que a protegeram, mas que já morreram. Nunca amou ninguém sem ser aqueles. E nunca ninguém a amou sem serem eles.

Casou... é verdade. Nem ela própria sabe dizer a razão. As outras também casaram. Ela não queira ir virgem para a cova, pensava. Foi enganada (...)

Está sentada à minha frente, faz hoje cinquenta e dois anos, numa festa cheia de amigos bem pagos para sorrirem. Não me vem à memoria o nome daquele prato que fumega bem de frente do meu nariz. O cheiro é estranho. Pego no garfo com a mão esquerda e provo uma pequena batata que bailava num molho verde. Cuspo para o lado... todos tossem. Todos caem. Leonor no topo da mesa segura firmemente num copo de cerveja preta que tenta despejar num só gole. Olha para mim, a única que ainda não conseguiu sucumbir, e pergunta num abanar de cabeça:

- Porque choras?
- Por causa da tua história. És tu não és?!

Sorriu...

- Penso que sim. Penso que sou eu. Mas sabes já não tenho a certeza.
- Nunca é tarde pois não?
- Eu é que te devia fazer essa pergunta.

Se morri ou não... não me recordo. Apenas me lembro de um dor forte bem por cima do sobrolho...

Para J&L

Tuesday, November 28, 2006

A boleia!

A desesperar completamente na ultima estação da linha do comboio, numa tarde já nocturna fustigada por uma tempestade que parecia não querer abrandar, muito pelo contrario. Sorri. Melhor, gosto de ver o limite.
O telemóvel toca e previsivelmente oiço a voz da minha boleia que nunca chega um único minuto que seja adiantada e encontra sempre a desculpa mais idiota para me convencer de que não tem culpa de estar atrasada ou que vem a caminho. Várias chegam a ser as horas que fico ali sentada no banco de cimento mesmo de frente para a máquina dos bilhetes, mesmo no sitio onde o vento se revolta entre folhas secas, bilhetes velhos e sujos e garrafas de plástico que não foram apontadas para o lixo. Conto os botões por ordem de cores e numero, acrescento apeadeiros e invento estações que só eu sei onde ficam.

O comboio pára infinitas vezes no fim da linha com os vidro embaciados da respiração das gentes. Alguns ainda saltam em andamento. Observo correrias alheira, reencontros e outros que se sentam ao meu lado com a certeza que também esperam alguém.

Liguei o numero que conheço na ponta da língua, ou melhor na ponta dos dedos. Vou andando a pé. Apanhas-me no caminho. Já deveria ter pensado nisso mais cedo. Subi as golas do casaco até às orelhas e devagar entrei pela tempestade adentro. Não me preocupei com poças de água, nem em desvios nem com as goteiras das arvores. Fingi ser invisível. Semi-serrei o olhos e continuei em frente. Virei à esquerda e segui em frente. Caminhei devagar, precisava de fazer tempo para não ficar à espera de frente para a entrada principal daquele sitio mágico.

Caminhei. E mesmo vendo aquele sítio todos os dias, sempre que ali passo, e principalmente a pé, fico de peito cheio e comprimido de sensações. É como se ficasse desprovida de tudo o que é material e tal como vim ao mundo coloco os pés descalços naquela calçada límpida mesmo com o passar dos séculos sem os molhar sequer, apenas sinto o frio da chuva.

Não existe ninguém. Ou melhor ninguém que olhe e veja a minha nudez. Ninguém que olhe e aponte o dedo em reprovação. Ninguém que olhe em curiosidade de quem nunca viu um corpo. Não existe. Porque naquele patamar, ao qual tinha acabado de chegar, nada disso existe. E aqueles que por mim passam olham-me simplesmente bem no fundo dos olhos... cumprimentam-me e dão-me as boas vindas. (...)

Tremi de frio. Dei por mim estava a olhar para a ponta das minhas botas. Estava sentada no muro encharcado, mesmo à entrada principal daquele sitio mágico. A tempestade estava no seu auge. Olhei a fonte romana entre o fumo de água e mais uma vez achei-a linda de morrer.
Quando estava a começar a perder-me no jogo das luzes, ouvi apitar.

O carro de lona parou e fez sinais de luzes. O meu corpo caminhou até lá, mas o meu espírito ardia por ali ficar. Entrei e a minha boleia discutia num tom ensurdecedor com uma terceira pessoa que estava presente. O rádio estava alto demais com noticiais reais demais.

Está ai uma manta (ainda consegui ouvir), sentei-me nos bancos de trás e recostei-me confortavelmente. Abstrai-me daquilo que naquele momento era mais do que poluição sonora e dentro de mim, naquela simplicidade do momento que passou nem à cinco minutos atrás, senti-me o ser mais feliz do mundo....

Wednesday, November 15, 2006

Untitled-1




E
ra um estranho total quando caiu naquele ambiente onde nunca deveria ter conseguido chegar. Mas não parou naquele intervalo do espaço, que de repente se rasgou no preciso minuto em que passava. “Escorregou” é o que gosta de pensar, e não é nada disso. Como sempre foi mais forte do que ele próprio.

Tudo a sua volta era completamente novo e um enorme sentimento de medo fazia-o paralisar. Estava dormente e sem reacção tal era o terror que sentia. A língua secou as palavras e o braços deixaram cair as expectativas... jamais pensara que seria assim. Desejara ao ponto de arder na pele como fogo, desejara aquele espaço onde tantas vezes sonhou perder-se e agora revelava-se completamente diferente, não da realidade, mas daquele sentimento que trazia consigo já faziam precisamente cinco dias. Num silencio melodioso. As vozes, os instrumentos, as notas... sentiu uma pancada no estômago e fechou os olhos inconscientemente. Um silvo saiu-lhe dos lábios...

(...)

A musica ainda não o conhecia quando ele ali caiu. Bailava em seu redor, harmoniosa e enfeitiçada, como qualquer coisa que flutua em busca de querer conhecer mais. Querer saber o que ele era e como descobriu o caminho.
Passeava. Roçava-se pelo seu corpo quase perfeito como uma serpente. Confiante. Descia e subia cheirando-o. Farejando-o. Cuspiu-lhe um vento ensurdecedor num pedaço de cabelo e puxou-o num grito de dor. Levou a madeixa àquilo que parecia ser os seus mais de cinco sentidos juntos e inspirou. Rebolou e envolveu-se nele... Invadiu-lhe como por magia os olhos com liquido e os ouvidos com sons. Milhares e milhares de sons.

E muito devagarinho a musica começou a apaixonar-se por aquele bocadinho de gente!!

Monday, November 06, 2006

Quem é?!

Preciso de saber quem ontem pintou o céu. Quem o pintou a lápis de cor amarelo, laranja, vermelho, azul e laivos de roxo. Quem o desenhou com duros pasteis esbatidos a dedo expandindo-as em todas as direcções terminando alguns no infinito da bola de fogo. Quem com um marcador branco rasgou o céu em cores de luz que ultrapassa radicalmente uma realidade de natureza superior.
Quem o contornou com uma fina caneta dourada e brilhante. E quem inventou aquelas formas nas nuvens que eu nunca antes vira. “- Já viste as nuvens hoje?!”... colocadas em várias dimensões num escala de cinzentos. Indescritíveis até mil olhares e ali tão perto de um simples esticar de braço, esticar de dedo a tornear as várias formas até as saber de cor e conseguir guardar para posteriormente projectá-las num outro céu.

Quem é o génio que tem o condão de me prender horas deslumbrada aquilo que nunca me passou pela imaginação e nem mesmo pela retina acordada. Quem por fim soprou a lua e acendeu as estrelas no meio da tempestade que rebenta em gritos silenciosos e latidos afastados mesmo ali ao lado de uma noite de verão.

Quem é de certo não está ciente no perigo em que nos colocou. Em que me colocou. O de não conseguir equilibrar-me naquele limite em que intensidade tem que ficar dentro de um saquinho chamado emoções que comprimo, na mão com todas as minhas forças, em vão. Porque não aguentei o formigueiro do tumulto apertado e deixei-o cair. Exigiram ser libertadas e com elas deixei-me ir... *

Olhei cá para baixo e vi: nós as duas sentadas no pequeno muro branco.
Estava-mos sentadas bem de frente para o mar. A paisagens dividia-se ao meio, distintamente bem por cima das nossas cabeças, bastava lançar a cabeça para trás e olhar em direcções opostas. Na vigília da chuva tínhamos chegado até ali com o propósito de falar de ti. Queria tanto ouvir-te e dar-te as minhas palavras e isso não estava a acontecer.

Sobrevoei-nos, eu estava de olhos fechados. Tu contorcias os lábios euforicamente em forma de palavras mágicas de uma primeira conquista e desesperei para conseguir ouvir-te naquele momento. Mas foi impossível (...) Tu apercebeste-te. Olhaste em frente transparente e "acomodas-te –te" em jeito de quem espera uma eternidade se for preciso.

Vou tentar saber quem é... dá-me só um segundo!

* e já sorria enquanto me ia perdendo pelo dia a dentro...

Friday, October 27, 2006

(not) Controlling my feelings

Corria o rumor que iria ser igual e não valeria a pena o esforço. Que não ia ser como na primeira nem como na segunda vez. Sem nada de novo para contar . E a noticia já ia de boca de boca com a credibilidade de uma mentira muito bem contada.
Melhor assim, não se criou grandes expectativas e aguçou-se o factor surpresa que se transformou para lá de qualquer coisa extraordinária.

Mas é certo que ao contrario de outras línguas maiores e inchadas não foi igual, porque não poderia ser nem nunca será... o sangue fervilhará sempre nas veias e explodirá em adrenalina presa em gigantes balões recheados de pozinhos perlim pim que se derramarão pela multidão depois de rebentarem. Os bocadinhos espalhar-se-ão e juntos conseguiremos sempre encontrá-los no escuro até as luzes coloridas voltarem a invadir mil rostos. E mesmo que fiques com alguns meus e eu com alguns teus, não faz mal porque as sensações vividas ao mesmo tempo por aquilo que se ama em simultâneo é assim mesmo... um só!

Em uníssono cantou-se aquela musica... até voz ficar rouca e se sumir num saboroso silencio à espera que nunca acabe...

E não acabou (sorriso)... no carro foi vira o disco e toca o mesmo!!

Monday, October 16, 2006

Devagarinho... está na hora...

Na chuva da noite de ontem senti devagar as sensações a desvanecerem-se. Pensei que morreria junto com elas tal era a tristeza que sentia, mas estava mais do que na hora, teria que cortar um género de cordão transparente que brilha apenas para aqueles que o conseguem ver. Era essa a razão de ali estar, àquela hora. Tentei sorrir para os clarões que espreitavam de cinco em cinco minutos e iluminavam o mar, iluminavam as sombras feitas pelo vento. Iluminavam-me a mim.

Não me mexi... poderia tratar-se de uma fotografia que fixasse para sempre a minha imagem no momento e por algum encantamento que ainda desconheço pudesses ficar por ali. Viver assim. Eu e aquele sitio. Eu e a noite. Eu e a tempestade com apenas um pé pendurado para o meu próprio abismo, aquele que não receio mas respeito.

Mas o clarão era tão forte que não conseguia abrir os olhos, não conseguia ver. Tive medo de ficar desfocada, perdida e irreconhecível. E queria tanto ver. Gritei desesperadamente nos rugidos do céus e deixei que as lágrimas desenhassem o seu percurso num rosto já encharcado. Uma a uma queimavam-me os olhos. Ainda não estava preparada. Não ainda.
Não aguentei. Cai sem sentidos e atravessei o deserto do sentimento sem sequer tocar no chão. Embati numa pequena pedra e flui pelo seu lado esquerdo.

(...)

Voltei a mim. Ouviam-se sorrisos perdido no barulho da lona vibrante que cobria o veiculo alto. Continuava a chover e ainda era de noite. Sai do carro e fui até onde o mar me lambia os pés. Trauteava repetidamente o mesmo refrão de uma musica que nunca tinha ouvido:

Eras tu a ficar por não saberes partir,
E eu a rezar para que desaparecesses,
Era eu a rezar para que ficasses,
Tu a ficares enquanto saías.

Senti uma leveza no peito. Percebi e deixei-me ir. Lavei a alma e desamarramo-nos ali mesmo.
Corri para o veiculo numa velocidade alucinante para ninguém se aperceber da minha ausência... e ainda lá estavam, todos sentados na mesma disposição.

Uns lábios tocaram-me ao de leve no ouvido e num arrepio ouvi:
-Está na hora!!

Larguei o momento... guardei a recordação... e continuei devagarinho!!

Tuesday, October 10, 2006

Uma semana catorze dias...

... e ainda trago o cheiro nas mãos e nos dedos. No corpo e no cabelo. O aroma da terra molhada na boca e os ouvidos cheios de sons. Chamo-lhes as outras musicas vindas do vento, do mar, da chuva e do sol. Sons vindos de um tempo do qual eu fui dona e senhora deslizando como uma rainha que comanda e ordena quando deve de parar e quando deve de avançar. A duração de sete dias vividos na intensidade de catorze sentindo em cada cantinho do meu “eu” o tempo a roçar-se tranquilo. Feliz.

... e ainda sinto o primeiro rubor e o ultimo tremer de pernas de danças e andanças ao ritmo de uma intensidade estonteante onde fiquei nos primeiros furos e arranjos, nas gargalhadas, no medo, nas lágrimas, na noite, na madrugada nos sustos, nos gritos, nos verdes e nas outras cores .... e em cada pedalada dada no espaço de um quilometro de todos os sítios por onde passei, cada pessoa que conheci e cada batida mais forte do meu coração. Libertei-me de tal maneira que cheguei a esquecer que tinha uma vida paralela e que aquilo que estava a viver no momento é que era a minha verdadeira maneira de estar na vida..

... e ainda sinto na pele e nos músculos uma pequena dor do esforço que lateja a cada passada em direcção aquilo que existe. Agora que está na hora de atravessar olho para trás já com uma saudade que me rasga em bocados que se espalham por ai e estendo à mão. Ele não me seguiu.

Deixo-me ficar num silencio que é só meu desejando ardentemente ser transparente. Ficar aqui sem ninguém dar por mim, e sem ter que falar. Tenho medo de perder as sensações a cada palavra dita em direcção à realidade. Rodopiei de mãos dadas segura pela confiança cega de tanto amar...
Saltamos e pulámos em vestidos de papel. Choveu e desfizeram-se com a aguas. Livres... subimos em direcção céu...



Tróia, Comporta, Melides, Santo André, Sines, Porto Covo, Praia do Malhão, Vila Nova de Mil Fontes, Almograve, Cabo Sardão, Zambujeira, Odeceixe, Aljezur, Arrifana, Carrapateira, Praia do Amado, Vila do Bispo, Sagre, Lagos e muitas outros sítios dos quais não menciono mas não são menos importantes... calcorreados pedaço a pedaço em cima de uma bicicleta...

Wednesday, September 27, 2006

Solta-me...

Estou à espera. Pacientemente mas estou. Não sei o que me espera. Mas estou expectante com um espírito rebelde e sem ordem que já me irrompe o peito e segue em frente a verificar o terreno. O sangue já me corre nas veias a uma velocidade perigosa demais. Mistura-se com a adrenalina ainda não experimentada e escorre em vermelho vivo pelas paredes do tempo vindouro.

Já me estranho a mim. Já estranho o espaço. Já estranho as pessoas que me prendem a uma distancia de pouco dias. Já não as consigo ouvir. Apenas consigo semicerrar os olhos e tentar olhar bem longe até conseguir ver o depois de amanhã. "Quero voar!"
Pendurados nos meus cabelos "aqueles" embalam-me em historias presentes. As de hoje. Simplesmente as de hoje... uma de cada vez!!

Sorriso. Sorriso preso nuns lábios que se perdem nos cantos da face. Pé que cambaleia para a frente e para trás. Desordem alinhada no coração. E estou presa apenas num fechar de olhos que me faz sentir sempre como se fosse a primeira vez que vou... apenas presa por um finíssimo fio.

Não sei como vou regressar. Não sei se quero regressar.

Solta-me... faltam três dias!!

Thursday, September 21, 2006

O homem com um lobo gigante!

A noite caiu. O silencio chegou. A cidade está escura. Bem alta, a noite, já corre no tempo adormecido em direcção a um novo dia da semana. É quinta-feira.
O Silencio da noite que viaja por estradas vazias. Por entre as torres e as lojas fechadas. Pelos muitos carros estacionados e alinhados. Por bancos de jardins presos. Por pracetas e pelo prédio da rua direita com vista traseira para os muros altos de um colégio francês.

Devagarinho o silencio vai subindo pelo prédio da rua direita ao minuto exacto que as luzes das janelas se apagam. Dão-se as boas noites às velhas rotinas e suspira-se por outras. Hão-de ser sempre velhas. Amanhã volta o ciclo... Sempre o mesmo ciclo.

Devagarinho o silencio sobe pelas as escadas e invade o primeiro andar esquerdo do prédio da rua direita. Entra pela fechadura, trancada a três chaves, que protege o apartamento de três assoalhadas. Todos dormem profundamente. Respiram calmamente em sonhos inconscientes. Uma sala. Uma cozinha ainda com odores recentes de sopa, de pão quente e de batatas fritas. A mesa continuou posta. É para pequeno almoço, de manhã não há tempo a perder. O quarto do pai e da mãe.

O quarto da menina e do rapazinho. O silencio brinca com as sombras causadas pela fosca luz da rua que invade a divisão pelos estores mal corridos. Transformam os brinquedos em outros brinquedos e dão-lhes vida em outras formas na parede amarela. Percorrem todos os cantinho do quarto. Sentam-se na cama da menina. Está de olhos abertos. Encaram-se os três. A menina, o silencio e a sombra.

A menina grita. O rapazinho acenda a luz e o pai parece. O silencio desaparece no meio das perguntas e as sombras voltam aos brinquedos.
- Um homem com um lobo gigante” Diz a menina apontando para a parede. O rapazinho ri. E o pai manda-o calar.

Apertou-a a sua pequenez contra o seu corpo. Afagou-lhe os caracóis castanhos e beijo-a na cabeça. A menina chora. O pai pega-lhe na mão. Levantam-se os dois da cama e o pai puxa-a. Ela recua. Não quer ir. Não quer ver. Lentamente o pai puxa-a para si e pega-lhe ao colo. “- tens que ver o que não existe

Agora descalços os dois percorrem a casa, juntos de mãos dadas. O quarto, onde a mãe cansada e sem paciência descansa da rotina de bibes, almoços banhos e jantares... não sabe que procuram um homem com um lobo gigante. A sala.
Na sala apagam as luz e sentam-se os dois debaixo da enorme mesa de madeira. Agora estão em silencio. Esperam. A menina aperta a mão do pai com força. O pai esconde a sua mão na dele. E ficam ali. Um coração disparado. Um outro transbordado. Vêm as sombras a regressar com a luz da rua que invade novamente a assoalhada. E sentem o silencio. Sorriem nas formas fantasmagóricas da parede azul. Fazem as suas próprias sombras. Imaginam mil seres.

Um carro pára por debaixo da janela... as luzes dos faróis batem nos muros do colégio francês e reflectem na janela. O homem com lobo gigante aparece.

Deitada na cama já adormecida, o pai contempla-lhe o sono tranquilo e sossegado. Passa-lhe mais uma vez a mão pelos caracóis castanhos. Ouve a sua voz sumida da menina.
- Quero casar e ficar contigo sempre... para nunca mais ter medo

Ficaram juntos para sempre. O pai continua a contemplar-lhe o sono. E a menina nunca mais teve medo.

Monday, September 18, 2006

Pedacinhos felizes

Cinco duendes. Cinco duendes felizes que dançavam por entre as estrelas brilhantes caídas no chão. Cospem fogo e tocam musica. Cinco duendes felizes vestidos de preto. Fogo frio que lhes arde no corpo. Fogo preso que lhes alimentam a alma. Paixão na primeira troca de olhares...

Seis Duendes. Seis duende felizes que dançavam por entre a melodia de uma flauta feita de cana. Cospem água, apagam o fogo. Seis duendes felizes. Cinco vestidos de preto e um vestido de verde. Fogo que arde no olhar, intensidade que explode no coração...

Cinco senhores. Cinco senhores felizes que dançavam por entre um banquete feito de açúcar. Falam numa língua que não entendo. Tocam-me na mão num sentido que percebo. Sorrimos por entre dentes luzidios no espírito de uma lua ausente. Paixão pelo momento. Chá quente de menta. Bolachinhas de sésamo. Fechar de olhos...

Seis senhores. Cinco senhores vestido de veludo branco e um vestido de vermelho. Oferece magia num copo com desenhos dourados, tapado com flanela transparente... Olho para dentro do copo e agradeço o momento.

Cinco amigos. Cinco amigos sentados na areia da praia. Trocavam palavras jogadas ao vento numa noite coberta de frio. Caiam estrelas desaparecidas em desejos comuns. Gritámos à brisa e tornámo-nos num só. Um ser completo sem o qual não consigo respirar...E o momento continuou, continua... e continuará...

Wednesday, September 06, 2006

As medusas!!


Existem aqueles que lhes chamam “alforrecas”. Eu pessoalmente prefiro chamar-lhes "Medusas". Talvez o nome me faça lembras “Musas”. Aqueles seres sobrenaturais e míticos que existem apenas em contos. E como é natural no meu Eu, é o que basta para transformar tudo numa viagem encantada.

Trocamos noite por dia. Trocamos horas confirmadas num imaginário relógio de sol. Paramos o tempo e esquecemos tudo aquilo que estava por detrás da altíssima parede composta por pedra, pó e vegetação que nos separava da civilização. E vislumbrei aquilo que apelidei de “Paraíso”. Andámos dois dias como os caracóis. Viajamos como o essencial as costas para sobreviver. Só isso foi o que bastou.

Tudo aconteceu no segundo dia em que assentamos arraiais em plena praia vazia de anos e almas humanas. As pegadas vistas pareciam fosseis que existiram há séculos. Parecia que por ali o tempo era apenas regida pela acção do vento e da maré. Ambos esculpiam como ágeis mãos de escultor sábio, formas e volumes nas rochas e areia. E o que mais me fazia sorrir era a sensação de ter os olhos das estranhas criaturas daquele habitat pregados no corpo com uma curiosidade voraz.

A noite estava quente demais para suportar o corpo comprimido contra a areia adormecido num sono tranquilo. E realmente uma agitação pairava no interior do meu peito que me fazia arregalar os olhos. Todos dormiam. Olhei o mar e decidi em fracção de segundo sentar-me mais perto da costa para apanhar uns farrapos de brisas fresca. Sentei-me e observei todo aquele ambiente. Murmurei pelos dias futuros em que iria ter saudade daquele momento. O que já está a acontecer. Deixei por fim a minha imaginação brincar no murmurinho das ondas que batiam a beira do mar.

Ouvi uma voz silenciosa. Seguida de um canto nunca antes ouvido.
Daqueles que só se ouvem quando se está na hora certo no sítio certo. Olhei em volta para procurar de onde vinha aquele canto sem lábios e os meus olhos prenderam-se nuns seres magníficos que deslizavam na suave maré. Tão lindos e tão intocáveis, aqueles seres de nome “Medusa”.
A lua suspensa em prumo produzia reflexos de luzes e cores nos seus corpos transparentes e nos seus múltiplos braços, que me trouxeram à memória cabelos à deriva, deambulavam num jogo de casamento eterno. Um jogo alucinante que alimentam os olhos daquilo que é belo para sempre.

No paraíso onde as "Alforrecas" são tratadas por "Medusas" existem cores que enquanto a vida soprar em mim nunca vou conseguir definir um único nome que seja para lhes atribuir. Violeta alaranjando. Amarelo dourado... não. Não consigo.

Dei por mim consumida num sentimento invejoso... invejei-as... adormeci...

Friday, August 04, 2006

"Em standby"

O corpo desespera pelo merecido descanso fustigado por meses seguidos. A ansiedade de que apenas duas horas passem rápido começa a confundir os murmúrios daqueles que se vão tornado invisíveis: “- o que se passa - pensam eles”. As conversas com os encantados cessaram e a imaginação abrandou por motivos reais demais, mas andei sempre por aqui de espírito a velar por eles.

Mas agora está na hora de fazer as malas e colocar num cantinho muito especial cada um dos seres que foi apresentado em cada uma das linhas deste abismo. Não posso levá-los a todos, alguns ficarão para tomarem conta e fazeres as honras na minha ausência. Outros, os que nasceram aqui, irão comigo nas melodias. E durante um mês apresentar-lhes-ei fora de um mundo virtual, tudo aquilo que os meus olhos registarão e todos os elemento que alimentam a minha imaginação.

Entre Regina Spektor, Antony, Feist , Luke Hains, Hope Sandoval, Belle and Sebastian, Sting, Nina Simone, Paul Hogan e gargalhadas muitos sorrisos, risos, borboletas, paixões alheias mas tão proximas, desilusões, humores e amores... é assim que vou.
Mas são estas as vozes e elementos que vão guardados na malinha por debaixo do banco, e que cada vez que atravessarem o meu sentido auditivo imagino a pessoa que lhes atribui...

Aquelas que fazem parte deste doce abismo.

até lá... ao longuínquo Setembro!!

Wednesday, July 26, 2006

Revelatione

- Deixa-me experimentar!! Pulou em saltinhos nervosos
- Tem cuidado, é muito peso para ti...
- Não. Eu consigo. Respondeu decidida
- Não te afastes!!
-
Acelera. A sensação de liberdade é demais para descrever como ela me contou. O vento redobra perto dos ouvidos e sussurra palavras de encanto levando-a a completa loucura. Em atenção redobrada na manobra de uma coisa completamente nova, e de um sonho mais do que desejado, mas semi- concretizado, sorria. Os cabelos chicoteavam a brisa e parecia que sempre fizera aquilo. Alias sempre o fizera, mas em desejos mais pequenos.

O fim do curto caminho foi alcançando. Ficou presa no regresso. Apercebeu-se que aquele desejo não era para ser vivido sozinha, chamou-o. Ainda tentou até à exaustão soltar-se das correntes. Resignou-se. Enquanto ele se aproximava acalmou e o coração disparou. Procurou os seus olhos. Prenderam o olhar em tantas certezas anteriormente postas em causa e arrumadas num cantinho chamado eternidade. Tentou reprimir as lágrimas em vão que, magicamente mesmo antes de se pendurarem no fundo do rosto, iam secando cada vez que ele se aproximava, e como um bálsamo para todos os efeitos explodiu. Sentou-se. Agarraram-se...

- Anda, eu levo-te. Murmurou num lindo sorriso.

Friday, July 21, 2006

A arvore que era branca...


A certeza estava num grito que seria branco. O conceito desde cedo que se enquadrava na simplicidade daquilo que considerava belo. Olhei-a pela primeira vez num papel digital e automaticamente os ramos presos pela objectiva sussurraram o meu nome em silvos repetidos. Estremeci. Sabiam o meu nome. Sorri.
Senti na pele o vento que se cruza em uivos nos seus numerosos braços feitos de raízes entrelaçadas e na boca um sabor a perlim pim pim...
Inspirei. Inspiro e transformo-me em qualquer coisa não humana. Sou vento, brisa, pó, fumo cor de rosa... qualquer coisa que me envolva numa gigantesca harmonia...

Shuuuuuuu escutem!!!