Wednesday, September 27, 2006

Solta-me...

Estou à espera. Pacientemente mas estou. Não sei o que me espera. Mas estou expectante com um espírito rebelde e sem ordem que já me irrompe o peito e segue em frente a verificar o terreno. O sangue já me corre nas veias a uma velocidade perigosa demais. Mistura-se com a adrenalina ainda não experimentada e escorre em vermelho vivo pelas paredes do tempo vindouro.

Já me estranho a mim. Já estranho o espaço. Já estranho as pessoas que me prendem a uma distancia de pouco dias. Já não as consigo ouvir. Apenas consigo semicerrar os olhos e tentar olhar bem longe até conseguir ver o depois de amanhã. "Quero voar!"
Pendurados nos meus cabelos "aqueles" embalam-me em historias presentes. As de hoje. Simplesmente as de hoje... uma de cada vez!!

Sorriso. Sorriso preso nuns lábios que se perdem nos cantos da face. Pé que cambaleia para a frente e para trás. Desordem alinhada no coração. E estou presa apenas num fechar de olhos que me faz sentir sempre como se fosse a primeira vez que vou... apenas presa por um finíssimo fio.

Não sei como vou regressar. Não sei se quero regressar.

Solta-me... faltam três dias!!

Thursday, September 21, 2006

O homem com um lobo gigante!

A noite caiu. O silencio chegou. A cidade está escura. Bem alta, a noite, já corre no tempo adormecido em direcção a um novo dia da semana. É quinta-feira.
O Silencio da noite que viaja por estradas vazias. Por entre as torres e as lojas fechadas. Pelos muitos carros estacionados e alinhados. Por bancos de jardins presos. Por pracetas e pelo prédio da rua direita com vista traseira para os muros altos de um colégio francês.

Devagarinho o silencio vai subindo pelo prédio da rua direita ao minuto exacto que as luzes das janelas se apagam. Dão-se as boas noites às velhas rotinas e suspira-se por outras. Hão-de ser sempre velhas. Amanhã volta o ciclo... Sempre o mesmo ciclo.

Devagarinho o silencio sobe pelas as escadas e invade o primeiro andar esquerdo do prédio da rua direita. Entra pela fechadura, trancada a três chaves, que protege o apartamento de três assoalhadas. Todos dormem profundamente. Respiram calmamente em sonhos inconscientes. Uma sala. Uma cozinha ainda com odores recentes de sopa, de pão quente e de batatas fritas. A mesa continuou posta. É para pequeno almoço, de manhã não há tempo a perder. O quarto do pai e da mãe.

O quarto da menina e do rapazinho. O silencio brinca com as sombras causadas pela fosca luz da rua que invade a divisão pelos estores mal corridos. Transformam os brinquedos em outros brinquedos e dão-lhes vida em outras formas na parede amarela. Percorrem todos os cantinho do quarto. Sentam-se na cama da menina. Está de olhos abertos. Encaram-se os três. A menina, o silencio e a sombra.

A menina grita. O rapazinho acenda a luz e o pai parece. O silencio desaparece no meio das perguntas e as sombras voltam aos brinquedos.
- Um homem com um lobo gigante” Diz a menina apontando para a parede. O rapazinho ri. E o pai manda-o calar.

Apertou-a a sua pequenez contra o seu corpo. Afagou-lhe os caracóis castanhos e beijo-a na cabeça. A menina chora. O pai pega-lhe na mão. Levantam-se os dois da cama e o pai puxa-a. Ela recua. Não quer ir. Não quer ver. Lentamente o pai puxa-a para si e pega-lhe ao colo. “- tens que ver o que não existe

Agora descalços os dois percorrem a casa, juntos de mãos dadas. O quarto, onde a mãe cansada e sem paciência descansa da rotina de bibes, almoços banhos e jantares... não sabe que procuram um homem com um lobo gigante. A sala.
Na sala apagam as luz e sentam-se os dois debaixo da enorme mesa de madeira. Agora estão em silencio. Esperam. A menina aperta a mão do pai com força. O pai esconde a sua mão na dele. E ficam ali. Um coração disparado. Um outro transbordado. Vêm as sombras a regressar com a luz da rua que invade novamente a assoalhada. E sentem o silencio. Sorriem nas formas fantasmagóricas da parede azul. Fazem as suas próprias sombras. Imaginam mil seres.

Um carro pára por debaixo da janela... as luzes dos faróis batem nos muros do colégio francês e reflectem na janela. O homem com lobo gigante aparece.

Deitada na cama já adormecida, o pai contempla-lhe o sono tranquilo e sossegado. Passa-lhe mais uma vez a mão pelos caracóis castanhos. Ouve a sua voz sumida da menina.
- Quero casar e ficar contigo sempre... para nunca mais ter medo

Ficaram juntos para sempre. O pai continua a contemplar-lhe o sono. E a menina nunca mais teve medo.

Monday, September 18, 2006

Pedacinhos felizes

Cinco duendes. Cinco duendes felizes que dançavam por entre as estrelas brilhantes caídas no chão. Cospem fogo e tocam musica. Cinco duendes felizes vestidos de preto. Fogo frio que lhes arde no corpo. Fogo preso que lhes alimentam a alma. Paixão na primeira troca de olhares...

Seis Duendes. Seis duende felizes que dançavam por entre a melodia de uma flauta feita de cana. Cospem água, apagam o fogo. Seis duendes felizes. Cinco vestidos de preto e um vestido de verde. Fogo que arde no olhar, intensidade que explode no coração...

Cinco senhores. Cinco senhores felizes que dançavam por entre um banquete feito de açúcar. Falam numa língua que não entendo. Tocam-me na mão num sentido que percebo. Sorrimos por entre dentes luzidios no espírito de uma lua ausente. Paixão pelo momento. Chá quente de menta. Bolachinhas de sésamo. Fechar de olhos...

Seis senhores. Cinco senhores vestido de veludo branco e um vestido de vermelho. Oferece magia num copo com desenhos dourados, tapado com flanela transparente... Olho para dentro do copo e agradeço o momento.

Cinco amigos. Cinco amigos sentados na areia da praia. Trocavam palavras jogadas ao vento numa noite coberta de frio. Caiam estrelas desaparecidas em desejos comuns. Gritámos à brisa e tornámo-nos num só. Um ser completo sem o qual não consigo respirar...E o momento continuou, continua... e continuará...

Wednesday, September 06, 2006

As medusas!!


Existem aqueles que lhes chamam “alforrecas”. Eu pessoalmente prefiro chamar-lhes "Medusas". Talvez o nome me faça lembras “Musas”. Aqueles seres sobrenaturais e míticos que existem apenas em contos. E como é natural no meu Eu, é o que basta para transformar tudo numa viagem encantada.

Trocamos noite por dia. Trocamos horas confirmadas num imaginário relógio de sol. Paramos o tempo e esquecemos tudo aquilo que estava por detrás da altíssima parede composta por pedra, pó e vegetação que nos separava da civilização. E vislumbrei aquilo que apelidei de “Paraíso”. Andámos dois dias como os caracóis. Viajamos como o essencial as costas para sobreviver. Só isso foi o que bastou.

Tudo aconteceu no segundo dia em que assentamos arraiais em plena praia vazia de anos e almas humanas. As pegadas vistas pareciam fosseis que existiram há séculos. Parecia que por ali o tempo era apenas regida pela acção do vento e da maré. Ambos esculpiam como ágeis mãos de escultor sábio, formas e volumes nas rochas e areia. E o que mais me fazia sorrir era a sensação de ter os olhos das estranhas criaturas daquele habitat pregados no corpo com uma curiosidade voraz.

A noite estava quente demais para suportar o corpo comprimido contra a areia adormecido num sono tranquilo. E realmente uma agitação pairava no interior do meu peito que me fazia arregalar os olhos. Todos dormiam. Olhei o mar e decidi em fracção de segundo sentar-me mais perto da costa para apanhar uns farrapos de brisas fresca. Sentei-me e observei todo aquele ambiente. Murmurei pelos dias futuros em que iria ter saudade daquele momento. O que já está a acontecer. Deixei por fim a minha imaginação brincar no murmurinho das ondas que batiam a beira do mar.

Ouvi uma voz silenciosa. Seguida de um canto nunca antes ouvido.
Daqueles que só se ouvem quando se está na hora certo no sítio certo. Olhei em volta para procurar de onde vinha aquele canto sem lábios e os meus olhos prenderam-se nuns seres magníficos que deslizavam na suave maré. Tão lindos e tão intocáveis, aqueles seres de nome “Medusa”.
A lua suspensa em prumo produzia reflexos de luzes e cores nos seus corpos transparentes e nos seus múltiplos braços, que me trouxeram à memória cabelos à deriva, deambulavam num jogo de casamento eterno. Um jogo alucinante que alimentam os olhos daquilo que é belo para sempre.

No paraíso onde as "Alforrecas" são tratadas por "Medusas" existem cores que enquanto a vida soprar em mim nunca vou conseguir definir um único nome que seja para lhes atribuir. Violeta alaranjando. Amarelo dourado... não. Não consigo.

Dei por mim consumida num sentimento invejoso... invejei-as... adormeci...

Friday, August 04, 2006

"Em standby"

O corpo desespera pelo merecido descanso fustigado por meses seguidos. A ansiedade de que apenas duas horas passem rápido começa a confundir os murmúrios daqueles que se vão tornado invisíveis: “- o que se passa - pensam eles”. As conversas com os encantados cessaram e a imaginação abrandou por motivos reais demais, mas andei sempre por aqui de espírito a velar por eles.

Mas agora está na hora de fazer as malas e colocar num cantinho muito especial cada um dos seres que foi apresentado em cada uma das linhas deste abismo. Não posso levá-los a todos, alguns ficarão para tomarem conta e fazeres as honras na minha ausência. Outros, os que nasceram aqui, irão comigo nas melodias. E durante um mês apresentar-lhes-ei fora de um mundo virtual, tudo aquilo que os meus olhos registarão e todos os elemento que alimentam a minha imaginação.

Entre Regina Spektor, Antony, Feist , Luke Hains, Hope Sandoval, Belle and Sebastian, Sting, Nina Simone, Paul Hogan e gargalhadas muitos sorrisos, risos, borboletas, paixões alheias mas tão proximas, desilusões, humores e amores... é assim que vou.
Mas são estas as vozes e elementos que vão guardados na malinha por debaixo do banco, e que cada vez que atravessarem o meu sentido auditivo imagino a pessoa que lhes atribui...

Aquelas que fazem parte deste doce abismo.

até lá... ao longuínquo Setembro!!

Wednesday, July 26, 2006

Revelatione

- Deixa-me experimentar!! Pulou em saltinhos nervosos
- Tem cuidado, é muito peso para ti...
- Não. Eu consigo. Respondeu decidida
- Não te afastes!!
-
Acelera. A sensação de liberdade é demais para descrever como ela me contou. O vento redobra perto dos ouvidos e sussurra palavras de encanto levando-a a completa loucura. Em atenção redobrada na manobra de uma coisa completamente nova, e de um sonho mais do que desejado, mas semi- concretizado, sorria. Os cabelos chicoteavam a brisa e parecia que sempre fizera aquilo. Alias sempre o fizera, mas em desejos mais pequenos.

O fim do curto caminho foi alcançando. Ficou presa no regresso. Apercebeu-se que aquele desejo não era para ser vivido sozinha, chamou-o. Ainda tentou até à exaustão soltar-se das correntes. Resignou-se. Enquanto ele se aproximava acalmou e o coração disparou. Procurou os seus olhos. Prenderam o olhar em tantas certezas anteriormente postas em causa e arrumadas num cantinho chamado eternidade. Tentou reprimir as lágrimas em vão que, magicamente mesmo antes de se pendurarem no fundo do rosto, iam secando cada vez que ele se aproximava, e como um bálsamo para todos os efeitos explodiu. Sentou-se. Agarraram-se...

- Anda, eu levo-te. Murmurou num lindo sorriso.

Friday, July 21, 2006

A arvore que era branca...


A certeza estava num grito que seria branco. O conceito desde cedo que se enquadrava na simplicidade daquilo que considerava belo. Olhei-a pela primeira vez num papel digital e automaticamente os ramos presos pela objectiva sussurraram o meu nome em silvos repetidos. Estremeci. Sabiam o meu nome. Sorri.
Senti na pele o vento que se cruza em uivos nos seus numerosos braços feitos de raízes entrelaçadas e na boca um sabor a perlim pim pim...
Inspirei. Inspiro e transformo-me em qualquer coisa não humana. Sou vento, brisa, pó, fumo cor de rosa... qualquer coisa que me envolva numa gigantesca harmonia...

Shuuuuuuu escutem!!!

Wednesday, June 28, 2006

Coisas do quotidiano!

Hoje, como todos os dias úteis, e repito úteis, levantei-me ao som do despertador cujo o toque já foi mudado mais de cinco vezes no espaço de uma semana. Tento desesperadamente enganar o consciente adormecido que já reconhece todos os seus toques e o cansaço que já alucina por descanso, mas o resultado é sempre o mesmo. Adormeço mais dez minutos.

Sentei-me na cama a espancar os últimos rasto de preguiça do corpo, e no cérebro ainda me queimava a discussão que se desencadeou na reunião do dia anterior com o senhor “Não me chateies e deixa-me lá faltar depois de amanhã”... Fechei os olhos.

Ainda sentada na cama senti uma comichão enorme no fundo das costas. Joguei os dedos com a intenção de coçar e eis que senti uma camada escamosa. Mais uma vez abominei o chocolate que tinha devorado depois do jantar. Por mais que me provoque alergias pavorosas nunca resisto.

Arrastada pelas horas abri a torneira para o duche, olhei-me ao espelho. Não me consegui ver com o vapor da água quente. Lambi-me. Olhei em volta e tropecei em alguma coisa. Levantei-me, virei-me e voltei a tropeçar, amaldiçoei o tapete que passa a vida enrolado nos meus pés. Optei por ignorar tudo, mas tudo mesmo e preocupar-me exclusivamente por me pôr a caminho já atrasada. Espremi a pasta para a escova de dentes e lavei aquilo que eu pensava serem dentes... e não umas enormes mandíbulas de onde brotavam (...) alguém ou um vulto passou por detrás de mim. Eu vi, desfocado no espelho mas vi. Paralisei de medo. O que raio estaria comigo dentro da casa de banho. Mais uma vez. Direita, esquerda.

Lambi-me, lambi-me e voltei a lamber-me e única coisa que me saltava ao sentido cheiro era o pequeno almoço. Respirei fundo e enchi-me de coragem. Voltei-me (...) e um GRITO ensurdecedor saiu-me dos fundos mais recônditos da garganta. Com escamas intervalada entre o vermelho e o azul cobalto, uma enorme cauda surgia do fundo das minhas costas e enrolava-se no chão com extremidade terminada em seta. Decerto neste momento estava a alucinar só podia... estaria ainda sonhar dentro da minha própria realidade.

Seguiu-se uma enorme dor numa das omoplata e a seguir na outra. Guinchei e senti nos cabelos o vento de umas pequenas asas feitas de cartilagem e uma fina membrana de pele... chegou a minha hora, só podia!!!

Voltei a gritar de horror e um lance de chamas saiu de dentro da minha boca. Peguei fogo à casa de banho. Na mistura de sensações sem saber como agir numa situação em que me transformava em qualquer coisa não humana levantei voo, instintivamente. Voei pelo tecto carbonizado. Lambi-me e apercebi horrorizada da minha pobre figura... olhei-me e vi-me coberta de escamas intervaladas de vermelho e azul cobalto, umas enormes garras substituíam-me as mãos e os pés. Até um chifre tinha no alto da cabeça. Num voo alado dirigi-me à Serra para me esconder.

(Já me imaginava a entrar no escritório para começar a trabalhar e todos a correr apavorados à minha frente. O mais engraçado seria tentar escrever no teclado com umas unhas enormes e amareladas. Melhor ainda seria o senhor “Não me chateies e deixa-me lá faltar depois de amanhã”... a perguntar-me corajosamente porque tinha chegado atrasada. Até aqui tem uma certa piada).

Desviei a cauda e sentei-me numa das pedras que circundam a serra. Chorei. Olhei para a minha barriga enorme e para as minhas pernas minúsculas que terminavam nuns pés cheios de altos escamados e com unhas curvadas para dentro, ainda por cima amarelas!! Voltei a chorar de desgosto e apenas lamentava o facto de estar transformada num descomunal Dragão. Lambi-me. Ainda não me tinha visto por inteiro, mas só de me imaginar a lágrimas jorravam de uns olhos anormalmente redondos e enormes, que se fizesse um esforço até a meu próprio rabo eu conseguiria ver. Lambi-me e saboreie as minhas lágrimas que eram doces. O estômago roncou. Lambi-me.
Pus-me de pés e olhei num potencial pequeno almoço, decerto com o estômago cheio conseguiria pensar melhor no que fazer e como agir. Com um andar esquisito, aliás bastante esquisito, cambaleava para os lados cada vês que esticava uma das minúsculas pernas e tropeçava nas minas próprias unhas percorri o pequeno bosque onde eu estava(...)

Um sorriso enormes pregou-se nos meus lábios. Bem, até hoje nem sei se tinha lábios. Melhor mesmo será dizer que um gigantesco sorriso se pregou na minha gigantesca bocarra, quando pensei no sabor que o senhor “Não me chateies e deixa-me lá faltar depois de amanhã” teria??!!!

Com as minhas reacções a uma velocidade superior às do meu cérebro, voei por instinto. E quanto mais me tentava controlar mais as asas batiam em direcção a um local que eu tão bem conhecia. Parei do lado de fora do edifício. Lambi-me e procurei a janela exacta. E como um perdedor faminto farejei a minha presa e voltei a voar mais para cima. Pairei do lado de fora da janela certa (...)
Lá estava ele, sentado na sua poltrona de pele de crocodilo (senti uma tristeza enorme por aquele meu primo distante transformado em cadeira) ao de leve toquei no vidro com a unha. Ele virou-se e deixou cair o telefone...

O despertador voltou a tocar. Tinha adormecido os habituais dez minutos. Despachei-me o mais depressa que pude e pus-me a caminho. Parada no transito e já a tentar inventar uma desculpa para mais um atraso, comecei a recordar-me de um sonho com dragões. Era engraçado desculpar-me dizendo-me que me tinha transformado num dragão. (no mínimo acabaria no fundo desemprego).
Quando entrei no edifício estavam todos descontraidamente a conversar. Achei estranho, porque o senhor “Não me chateies e deixa-me lá faltar depois de amanhã” por regra geral percorre os corredores e coloca toda a gente sentada no seu devido lugar... a produzir. Como precisava mesmo de faltar depois de amanhã não esperaria nem mais um segundo, subi as escadas e dirigi-me ao seu gabinete:
- Alice, o senhor “Não me chateies e deixa-me lá faltar depois de amanhã”, está ai?
Alice olhou para mim com um ar de espanto...
- Mas tu ainda não sabes???

O pobre senhor “Não me chateies e deixa-me lá faltar depois de amanhã”, tinha-se sentido mal. Alice cuja a secretária está mesmo colocada junto a sua porta e as suas tarefas separam-se entre levar-lhe cafés e dar as más noticias ao pessoal, ouvira um ensurdecedor berro vindo de dentro do seu gabinete. Apressara-se a entrar na sala e já o encontrou desmaiado e em estado de choque.
- Alguma notíca que recebeu ao telefone!!! Disse ela com gravidade...

E fiquei a pensar seriamente:

- mas afinal depois de amanhã posso faltar ou não?

Wednesday, June 21, 2006

Starlight...

Perdi o controlo na loucura que os dias me proporcionaram e... andei com a musica dentro do corpo e como se de uma paixão se tratasse não consigo respirar na sua ausência. Absorvo cada palavra que se grita por cada poro que tenho na pele. E encolhe-se em arrepios.

Perdi o controlo na loucura que os dias me proporcionaram e... sem dar por isso transformei-me em cavaleiro na conquista de mais um reino que numa velocidade alucinante percorre vales montado num cavalo alado de asas doiradas. Sobrevoo castelos, florestas vermelhas e lagos cobertos seixos. Nas suas águas mágicas reparo de relance no meu reflexo e sorrio porque voltei a mudar de forma e cor. Sou homem, sou mulher e criança não sou ninguém. Sou um mágico, um mago uma fada um pirilampo. Não existo!
E naquelas modificações constantes de personalidades estendo as mãos que se escondem numas mangas cor de laranja e equilibro-me no dorso do corcel, cortando o vento que me eleva a uma liberdade extrema.
Sou quem e o que eu quiser...

Perdi o controlo na loucura que os dias me proporcionaram e... sou tempestade que se apaixona pela chuva e se agoira em trovão que descarrega a sua ira no longínquo oceano. Sou liquido que se mistura com sal e areia. Vagueio pelas corrente marítimas e dou uma volta completa ao mundo. Evaporo-me e volto ao vento tornando-me invencível e indestrutível naquela forma mais simples que não se vê. Sente-se. Revolto os cabelos de uma princesa que chora presa numa torre. Sou essa mesma princesa que morre de amor por quem não vêm e sou o príncipe que lhe dá o eterno beijo.

Na pausa de uma musica para a outra abro os olhos e aproveito para descansar porque sei que assim que começa lá vou eu novamente como se do nada uma mão cheia de força me puxasse. E estou sempre a sorrir e a querer mais. Conseguindo voltar sempre para mim...

Tuesday, June 06, 2006

Um sorriso ao cimo das escadas

Quantas vezes dou por mim a navegar por mundos emprestados e muitos são aqueles que me deixam suspensa nas batidas rápidas do coração e me envolvem as entranhas. Fico quieta num canto e observo apenas sem fazer barulho, deslumbrando-me de tal maneira que tento sempre inspirar um bocadinho daquela essência e guardá-la num cantinho das bochechas soprando-a quando me sinto inanimada. Muitas são as vezes que vou sozinha, alias quase sempre e faço de maneira que ninguém me veja e sorrio entre uns lábios escondido até que por fim regresso numa suave aterragem... sem um único arranhão.

Convenci-me que tudo o que me rodeia é mágico. Transformo simples mortais em seres encantados que preenchem a minha vida de encanto e dou por mim a pensar que tudo e todos são imortais e sempre que quiser vou poder fechar os olhos e voltar décadas atrás mas...

Agora aproxima-se o momento em que vou subir aquelas escada de madeira que rangem ao peso do pé e não vai lá estar aquele sorriso por detrás daquela porta pintada de branco. Ninguém vai abrir. Se sorte tiver ocasionalmente ela abrir-se-á de velha e abandonada que está. O espanta espíritos vai tilintar num corrente de ar que se troca com uma janela de vidros partidos e eu vou tentar entrar. Pegarei nos retratos gafos pelo pó e com a ponta do dedo limparei aqueles rostos tão antigos presos em papel. Rosto que já não existem ou simplesmente estão imortalizados em genes apôs genes. Enquanto percorro o resto do apartamento afastarei da cara as teias persistentes dos seus novos inquilinos e tento não perturbar a sua paz.

A mesa do chá o cheiro da caixa das bolachas de baunilha estarão e ficarão sempre lá e aqui, nas minhas narinas que acolhem odores a partir do meu melhor sentido. A sensação de uma vida que ali existiu, mas que ainda não partiu, já não volta para mover os objectos e os trocar constantemente de lugar vai encher-me os olhos de lágrimas. Beijarei as dedada deixadas nos livros que foram lidos tarde após tarde, e vou inspirar cada palavra que me ferve na memoria recordando cada história contada com a convicção de uns olhos pintados de azul transparente.

Por fim antes de me virar para fechar a porta branca atrás das costas, olharei para o pequeno escritório e repararei na manta esquecida na cadeira de madeira muitos dias antes. Devagar aproximo-me e toco-lhe ao de leve com as mãos. Inspirarei o cheiro do corpo que aqueceu... e o que vou sentir?!

A porta branca fecha-se atrás das minhas costas. Começo lentamente a descer os degraus de madeira uma a um... Sopro os pós mágicos que trago num cantinho das bochechas e lá em cima oiço:
- Amanhã à mesma hora...


Quanto tempo é o suficiente para dizer adeus para sempre...

Thursday, June 01, 2006

“Brilhozinho nos olhos”!!!

Estacionei o carro, no mesmo sitio onde aprendi a andar de bicicleta. Olhei em volta e reparei em como tudo estava na mesma. Os mesmo cheiros e as mesmas pessoas. Pessoas essas que outrora eram jovens adultos penduravam-se agora nas varandas aproveitando o vento morno de uma noite de verão que lhes sopravam amenamente nos cabelos já grisalhos. Falavam umas com as outras de assuntos corriqueiros e conforme vou passando acenam-me em sinal de reconhecimento e sorriem perante a pequena pessoa que ali já brincou. Muitas delas são os progenitores daqueles que comigo descobriram as maravilhas do pequeno bosque que foi substituído por mais um prédio, cimentando hoje apenas a recordação de risos e gargalhadas de crianças. O bosque onde conheci a “Rainha dos Seixos”.
Passei pelo “lugar” da esquina onde ainda a Dona Cila avia os seus cafés e copos três. Engraçado nunca conseguiu dizer o meu nome como deve ser, tira-lhe sempre o único “ R” que têm, ontem não foi excepção(...)

Cheguei à porta da casa que mais recordações me trás. Os mesmos sorrisos e cheiros estão sempre lá. É a casa onde volto rigorosamente como uma ave migratória. Sei sempre que posso voltar.
Não entrei. Não logo naquele instante. Olhei o muro que segurou a minha adolescência. Descalcei-me e pendurei-me como sempre o fizera. Faltavam os outros mas bastou fechar os olhos para os sentir ali... os primeiros pactos de amizade, as primeiras ilusões e desilusões. E deixei-me estar ali sem me preocupar com quem passava.

Sem dar por isso comecei a cantar baixinho uma musica que já não me passava pelos ouvido há muito tempo mesmo:

“Com um brilhozinho nos olhos
e a saia rodada
(...)
“é que hoje fiz um amigo
e coisa mais preciosa
no mundo não há.”

Continuei de olhos fechados, e a musica surgiu-me nos lábios com se a estivesses a ouvir:

“E com um brilhozinho nos olhos
tentamos saber
para lá do que muito se amou
quem éramos nós
quem queríamos ser
e quais as esperanças
que a vida roubou
e olhei-o de longe
e mirei-o de perto
que quem não vê caras
não vê corações
com um brilhozinho nos olhos
guardei um amigo
que é coisa que vale milhões.

E que é que foi que ele disse?
E que é que foi que ele disse?
Hoje soube-me a pouco
Hoje soube-me a pouco
Hoje soube-me a pouco
Hoje soube-me a pouco
Passa aí mais um bocadinho
que eu estou quase a ficar louco
Hoje soube-me a tanto....
Portanto, hoje soube-me a pouco*”

No fim um enorme aperto no peito pensei: “terei eu este tempo que passou, passado pela vida, ou foi a vida que passou por mim?!


E com um brilhozinho nos olhos voltei a calaçar-me e subi as escadas até ao primeiro andar da segunda casa. Cheirava a ervilhas. Sorri com todos os dentes que tinha, e senti as minhas certezas dentra das minhas escolhas feitas até ali...

* Sérgio Godinho “Brilhozinho nos olhos”!!!

Thursday, May 25, 2006

Guerreiro!!


Ontem pensei que era uma simples navegante, caída de um dos vazios que se formam quando os mundos se unem, e na tentativa de passar de um para o outro desequilibrei-me e escorreguei por ai abaixo.

Encontrei-me com os pés em terra firme, vestida a rigor num fato feito de malha de prata e um medalhão descentrado no peito que me protegia o coração de alguma arma alheia. Caminhei com umas botas de ferro que me fustigavam os pés e empunhava uma espada enorme que me desequilibrava...

Senti-me um guerreiro em defesa do seu castelo que no interior continha o que mais amava. Defendia com unhas e dentes aquilo que era meu, e sentia-me invencível em lutas de campo aberto. Lutei contra outras espadas e armas que desconhecia, lutei corpo a corpo e gritei por ajuda.
No tilintar das espadas não ouvi nenhuma voz humana uns lábios sequer se abriram. Olhei em volta e tantos eram os olhos que me observavam cabisbaixos. Estiquei o braço e esperei pelo toque... não senti...

Olhei em frente... afinal a minha missão era travar uma luta que não era minha.. estava ali como uma "Navegante" do tempo de terras longínquas, enviada simplesmente para proteger... de espada em punho.

Monday, May 22, 2006

Tudo por causa da luz...




- Fiquei sem luz. Vai tu à frente que não consigo ver nada...

- Bolas também fiquei sem luz e não consigo ver mesmo nada.

- Como é que é possível que três lanternas ficassem sem pilhas.
- Não faço ideia. Mas estou a ficar cansada e com fome. Vamos andado para a frente e guarda-se a franca luz existente para jantar...


Um pequeno calafrio percorre a espinha e provoca risos nervosos. Está mesmo muito escuro. E não se vê um palmo à frente do nariz. A adrenalina estonteante enfraquece com a sensação de nos cruzarmos com um inimigo imaginário. Sim porque já me imaginava a combater um “trol” de dois metros a babar-se com saliva verde florescente e o ter que fugir dos seus golpe fatais aos guinchos. Ou até mesmo para os mais sépticos os reais morcego que sombreavam de arvore em arvore por cima das nossas cabeças. Dando-me um único reflexo de repugnância, embrulhei a cabeça na camisola e todos pensaram o pior quando me olharam.

- Cuidado com o buraco. Outro buraco. E mais outro.

Caímos para o chão agarrados à barriga que dói de tanto rir. E no momento em que nos acalmamos entre nervos e gargalhadas reparamos no silencio. No saboroso silencio do qual estávamos rodeados. Senti os pés a começarem a flutuar e a imaginação a flui a mil quilómetros por hora... e o resto deixo ao sabor de quem quiser imaginar...

A fome aperta em ronco no estômago e o jantar que pesa dentro das mochilas. Sentados em amena cavaqueira e utilizando as pontas dos dedos como olhos devoráramos aquilo a chamámos "Manjar dos deuses".

Da garganta da floresta ouve-se uma voz cavernosa:
- O que é que estão aqui a fazer?????

Gritos. Mais gritos. E mais gritos...

Alguém chorou com o susto. Houve quem não tivesse parado de rir e houve até quem tivesse que fazer o resto do caminho despido da cintura para baixo, porque não havia lua para secar calções. :-)

Monday, May 15, 2006

felicitate

Não. Não quero parecer que me repito. Mas tenho receio das minhas palavras parecerem sempre iguais porque raramente encontro outras tão simples para definir um sentimento tão grandioso e tão intenso.

Não. Não quero parecer que me repito. Mas é impossível deixar de escrever que mais uma vez me incorporei de tal maneira que pensei fazer parte da paisagem. É como ter um pé preso num grosso tronco que se agarra ferozmente à terra e baloiço com o vento que emaranha os cabelos como se de folhas e lianas se tratassem. Poderia estar suspensa no abismo e não cair, olhar lá para baixo e conseguir sorrir perante o auge de uma felicidade que me transporta para um lado transcendente demais, e quando tenho a sensação que não vou aguentar por tanto acreditar várias mãos firmes esticam-se do outro lado e puxam-me numa elasticidade que me permite permanecer com um pé em cada banda. É um doce esquecer que tudo existe e um viver constante de experiencias diferentes.

Não. Não quero parecer que me repito. Mas dou por mim pensar que é irreal ter um ponto focado numa realidade que inconscientemente fui escolhendo e se entranhou. O simples facto de me sentir viva dentro dessa mesma escolha enche-me os olhos de lágrimas, mas lágrimas que correm alegres por um rosto vincado de aventuras levadas pelo ontem e anteontem. Aventuras que não voltam a trás apenas andam para frente cada vez com mais e mais vontade de ver e apreciar como vai ser amanhã. Entretanto vou recordando tranquilamente nos olhos castanhos, cor de mel, azuis e verdes que como meus contemplam o horizonte.


O jantar foi servido às vinte e três e trinta e cinco sobre uma mesa feita de areia e cadeiras construídas a partir de madeira velha trazida pelo mar. A toalha finamente desenhada com losangos em alto relevo segura os copos que esperam ansiosos para serem cheios com o liquido* levado e tocados num brinde. Nos pratos imaginários que se seguram na palma da mão, a refeição é meticulosamente digerida, pedacinho por pedacinho...

Wednesday, May 10, 2006

Os dias que são assim!!

E quando se pensa que já se viu tudo, ou se conhece um sitio como as palmas das nossas próprias mãos, eis que somos transportados para uma dimensão completamente diferente. É como se existe uma porta que delimita o conhecimento e que só se abre a partir de uma hora. Aquela em que ninguém de certeza ali passará. Está ligada a um automatismo muito antigo codificado com as horas do sol, confundindo-se com a paisagem não transparecendo nas formas e invisível a olhos nus. Mas não sei se fui eu que dei as voltas ao sol ou se a porta se enganou na sua reforçada segurança e baixou a guarda... não estando à espera que os intrusos estivessem ali na hora nove marcada pelo sol.

O alcatrão transforma-se em calçada de pedra gasta tornando o percurso mais penoso e fazendo a adrenalina subir perante cada obstáculo. Puxamos uns pelo os outros e felicitamo-nos com a vitória de cada um, sim...porque infantilmente... quando nos juntamos a união que se sente é tão forte e o sentimento de protecção e zelo é tão exemplar que não existem palavras para o descrever. E o rir posteriormente com aos relatos das escolhas mais estapafúrdias: no meio de tantos caminhos e encruzilhadas que se apresentam à nossa frente, acabamos sempre por cortar os mais dificeis, discutindo num completo gozo o “sexo dos anjos”.
(...)

A medida que avançamos os cheiros vão sendo cada vez mais intensos e invadem cada narina a procura do seu lugar. Cheira a pinheiro, eucalipto, acácia, alfazema, terra, pó e um aroma adocicando que ainda hoje aqui sentada com a sua recordação não consigo decifrar o que seria.. o que é. É como ter uma vaga ideia de qualquer coisa que fica a martelar na cabeça e uma curiosidade que não se consegue aniquilar. Mas ninguém tocou no assunto, decerto no fundo todos eles sabiam o que era e apenas eu sem coragem para perguntar fiquei na ignorância.

Seguimos o aroma adocicado que se intensificava cada vez mais e parámos perante mais um obstáculo que pensei que jamais iríamos conseguir atravessar. Alinhados num desalinho completo, ficamos em silencio e boquiabertos perante aquilo que parecia uma porta gigante derrubada. O mais corajoso e arrojado atreveu-se. Desapareceu. Depois seguido de um outro e mais outro. Fiquei para trás...

No céu ainda estavam suspensas as cores do sol que partira e a lua que sorria preste a encher quando senti o que tinha atravessado... do outro lado quatro sorrisos...

Wednesday, May 03, 2006

Vou lá eu saber porquê...

Madruga, crepúsculo e orvalho. Verde, amarelo e castanho. Contos lendas e mitos. Realidade, imaginação e ficção. Receio e Arrepio. Estrada vazia, três pessoas em silencio. Shiuuuu... deixa ouvir. Catrapum cai... pois é... dor, muita dor. Fio de sangue morno que corre pela minha perna abaixo, dói muito mesmo. Não aguento choraminguei. Vou olhar. Vi o sangue. Suores frios, Coração a mil e desmaiei. Voltei a mim. Olhei novamente o sangue que brotava da canela ferida. Tontura e voltei a desmaiar. Bofetada e agua. Continua a doer muito. Longe de casa. Bolas... voltei a olhar para a ferida. Desmaiei pela terceira vez, mais uma bofetada, mais agua. Mas o que é que se passa... Deixem-me respirar. Podes parar de olhar para mim?

Olhei novamente para a perna e já não vi o sangue vi apenas um pequeno arranhão. Corei por detrás dos dedos vincados nas bochechas. Senti o coração a voltar ao seu compasso normal, respirei, acalmei. Agua que batia em golfadas no fundo da garganta seca, rosto empoeirado delineado com lágrimas. Olhos assustados. Consegues levantar-te? Consegues continuar? Sorriso. Adoro-vos. Tens que repor energias... "Sumol de Laranja" e "Bolas de Berlim" esmagadas no fundo de um saco de papel. Quem colocou o rabo em cima minha mochila...

- não queres antes um chá?
Sim, sim... Tentei imaginar onde raio ia-mos ferver um chá naquele sitio... gargalhadas!!

Recordo de ser miúda, cair de qualquer coisa abaixo e ficar com os joelhos completamente descarnado. Olhava encolhia os ombros e continuava... não me lembro de fazer este género de fitas... que "vArgonha!!!"

Monday, April 24, 2006

22 e 23 de Abril de 2006

Atravesso o portal das palavras e não consigo escrever uma só que seja. Frases que não se consigo construir porque não sei descrever...
Foram dois que se transformaram em quatro e quatro que se transformam em oito. E oito foi o derradeiro numero para sentir uma enorme sensação de querer rebentar e ficar ali descoberta em vário pedaços vivos distribuídos pelos mil sítios que os meus olhos tentar registar em vão por serem demasiado humanos. Não vou conseguir escrever ou descrever o que quero, simplesmente está fora do meu alcance porque é intensos demais e tenho receio de não empregar as palavras correctas e induzir em erro.

Poderia falar do cheiro e do aroma... das arvores molhadas do chão encharcado e da chuva que não pára de cair. Poderia falar das vozes que soam das matas dos pinheiros e do silencio que ecoa os meus passos que raspam na paisagem à minha passagem. Poderia falar na magia da noite e do céu que desenha lindas formas em nuvens negras...

sim poderia falar disto tudo e criar uma linda história. Mas o corpo está cansado demais para aquilo que esconde por dentro. A mente não consegue acompanhar o sentimento... e as palavras nunca serão suficientes para consignar tal momento.

Por isso devagar e com muita calma vou regressando. Olho com estranheza os elementos que fazem parte do meu dia a dia e dou por mim a sorrir, imagino que viajei durante anos e quando regressei nada tinha mudado. Observo as pessoas com a sensação que nunca saíram do mesmo sitio e vagamente vou-me lembrando de cada uma delas e do papel que representam na minha vida (...)

quase que me apetece tatuar esta data num dos braços :-)

Friday, April 21, 2006

Gavetas e mais gavetas

Por vezes dou por mim a pensar que sou constituída por gavetas. Infinitas gavetas que formam olhos boca nariz e pescoço. Braços pernas e todo o resto do corpo. Infinitas gavetas cheias de sentimento que construíram um coração, e infinitas gavetas de várias das cores e feitios que formam todo o resto. Alguma não se abrem ou nunca se abrirão...Ficarão para sempre à espera que eu própria saiba distinguir o derradeiro momento para o fazer. E se não tiver tempo na intensidade em vivo os meus dias, a alguém um dia as transmitirei e acredito que seja feito através de mim...

Porem existem duas que nunca me lembro de as ver fechadas. Uma é completamente indescritível e são muitas as vezes em que inexplicavelmente entro no seu interior à procura de resposta mas apenas ainda trago mais dúvidas. A outra empenou ou simplesmente é grande de mais para caber no seu lugar. E por mais coisa que tente guardar coisas no seu interior nunca fica cheia. Tem sempre espaço para mais e mais. E sempre que procuro algo dentro dela encontro sempre, posso demorar alguns minutos e chegar a pensar que se perdeu, mas não ela está sempre lá, aberta à espera que coisas novas entrem e ocupem o seu espaço no meio de tão pouco espaço. Chamo-lhes coisas mas tem nome... que começam por várias letras. De A a Z...

Wednesday, April 12, 2006

O livro que chegou ao fim!

O livro que chegou ao fim. E outro que pulam na estante pela atenção dos meus olhos e pelo toque dos meus dedos. Já os li todos e alguns mais do que três vezes. Tenho livros assim, que entro de tal maneira nas história que depois não consigo distinguir. Digo a mim própria que tenho que os voltar a ler para perceber a história quando no fundo já tinha percebido, apenas quero é repetir a aventura sem ter que me justificar. E agora ficam ali arrumados nas prateleiras a amarelar com o passar do tempo e ganhar o cheiro das letras encafuadas. Mas gosto de os ver ali expostos por cores e alguns por números. Por vezes sento-me no sofá a observar a minha mini biblioteca e imagino que são as minhas aventuras catalogadas por ordem de vivencia.

O livro que chegou ao fim. E na estante da mini biblioteca não existe nenhuma novidade. Já os li todos e alguns mais do que três vezes. Mas tenho outros que começo a ler e depressa abandono as personagens num mundo suspenso das suas desinteressante histórias.

Peguei num desses livros e sentei-me no jardim que geralmente me convida para umas horas de leitura. Recostada no banco de madeira verde coloco no colo o desinteressante livro e espero que a vontade chegue. Sem dar por isso um rapazinho que parecia ter nove anos sentou-se ao meu lado. Olhei e esbocei um simples sorriso. Devolveu-me o sorriso com um dente partido. Entreguei-me novamente a pouca vontade e pensei que estaria na hora de abrir o livro e dar uma nova oportunidade as aquelas pobres personagens.

- Sabe o meu avô está muito doente.
Fechei o livro
- Sinto muito
- Eu também.

E o rapazinho continuo. Com um som assobiado que surgia do dente partido narrou sua vida vivida nas histórias mágicas que o avô lhe contava. E comecei a conhecer essas histórias, quase ao pormenor de lhes conseguir acabar as frases... parecia as que outrora imaginara e tinha a certeza de não as ter lido em livro algum.
Olhei para as minhas mão estavam mais pequenas, vi os meus miúdos joelhos rasgados das quedas de bicicleta mal coberto com a saia que a minha mãe fazia a condizer com a camisola.

Sem dar por isso tinha entrado na maquina do tempo e regressei aos meus nove anos, o banco verde desapareceu e o jardim tornou-se em mato pronto para ser desbravado em buscas de anéis e elfos encantados. O mesmo menino deu-me a mão e Disse – “Anda!! ainda não viste o que está dentro daquela gruta” e corremos de mão dada em direcção a uma mirabolante aventura.

O livro das personagens suspensas nas suas histórias desinteressantes caiu ao chão. Abri os olhos e estava sentada no banco de madeira verde... sozinha. Olhei em redor e nem sinal do rapazinho, só podia ter adormecido e sonhado. Inclinei-me para apanhar o livro, e abriu-o no colo..
Comecei a folheá-lo para procurar a ultima página que tinha lido... e a medida que as passava uma a uma diziam “fim”...

Thursday, April 06, 2006

Rostos




Porque o tempo não pode voltar atrás e as lágrimas não recuam. A vontade é reprimida e o grito mudo. O estômago revolta-se com as sensações e o coração dispara. É como se estivéssemos apaixonados mas é muito melhor do que isso.

Porque viajamos sozinhos em mundos que pensamos ser só nossos, mas por lá encontramos outros iguais a nós próprios. Um mundo onde a imaginação e a fantasia reinam lado a lado governando pequenos seres que nos encantam e respiram pós mágicos.

Porque adormecemos sobre o que não nos interessa e levantamos os pés para um voo do qual não queremos voltar. E quando somos obrigados a regressar deixamos por lá sempre qualquer coisa. Eu deixo. O meu espírito que é tão teimoso e rebelde. Depois quando me tento concentrar, sussurra-me palavras enfeitiçadas ao ouvido, levando-me a mente e o coração, deixando-me apenas cheia de correntes de ar...

Mas a verdadeira magia está em saber que por detrás de palavras escritas, sentidas e faladas existe sempre um rosto vincado em feições. Um rosto que ri, chora e envelhece como o meu...