Tuesday, September 25, 2007

alucina"ssss"ão!


Foi de pés gelados enfiados numas socas velhas que esperei duas horas pelo comboio. Coração pequeno e peito apertado numa camisola justa enfrentava o frio transbordado de época, atormentador de saias compridas. Pensei que pela hora que chegasse aos joelhos já eu tinha padecido ali mesmo naquele chão. Era a tal viajem. Eu e meia dúzia de coisas, que acabaram por se tornar ainda mais inúteis quando não foram necessárias um único dia sequer, numa Gare ainda de madrugada.

A porta de ferro abriu-se num cheiro tão característico de Verão. Estava cheio o comboio cinzento. Optei por ir em pé. Distrai-me num percurso de horas infinitas que se fez apenas no segundo em que esbugalhei os olhos numa revista velha de gente nua. Ao mesmo tempo percorro os olhos pelas carruagens lotadas oiço os murmúrios de mil conversas misturadas, mil rostos estranhos de olhares cheios de tudo. Risos de crianças e o cacarejar de uma Galinha Careca. Franzi o sobrolho.

Eram precisamente treze e trinta, quando o comboio parou no destino. Peguei na mochila e fui para a porta. A Galinha Careca esticou a asa e pediu-me que a ajudasse a descer as magras escadas. No momento em que pensei que só faltava o Senhor Porco e a Bicicleta ouvi um grito – COM LICENÇA! - Fui bafejada por um vento quente de queimar. Um vento que carboniza a roupa e deixa-nos a flutuar numa onda imensa. Pele acesa e incandescente. Era uma contrariedade muito real perante o corpo que ainda não tinha descongelado das ultimas horas de espera e os seis quilómetros que me separavam da vila mais próxima.

A Galinha Careca acendeu um cigarro e despediu-se numa palmada cacarejando – belo rabo, sim senhou!! – desapareceu por entre o fumo branco. Pregada num sorriso de loucura, retribui num berro – Estou louca, profundamente louca! – Apenas ficou o eco e o diabólico calor!!!

Na porta mágica que foi atravessada sem dor deixando deste lado tudo adormecido, aquilo que não estagnou, uma mistura de bocadinhos de uma pessoa, gostos, sentidos, cores e sons atravessou os seis quilómetros de alcatrão. Pisar de brasas congeladas na memória a cada fracção de segundo – Não se pode perder uma pitada, minha cara!! – Segredou a Galinha Careca em cima da minha cabeça. Desapareceu. “Bolas, como fuma esta cabra!”, pensei sem parar de tossir.

Em memoráveis momentos vividos lentamente como quem descai devagar, sentindo cada passo, recordo os mais simples, como um único respirar sentada na boleia agrícola bem perto de uma ovelha que berra, desalmadamente, aos meus ouvidos. Perguntei baixinho – Não és tu galinha, pois não?! – O pobre homem olhou para mim, abanou a cabeça.

No destino, dividi tudo por línguas estrangeiras e amigos alienados de outros países. Alemão e Sueco traduzido num Inglês trôpego e grandes olhares nunca antes visto, perdidos naquilo que se faz melhor. Viver ao contrario daquilo que é permitido e pisar devagar o risco bem de frente para um palco iluminado de mil tintas fluorescentes enquanto se canto um fado. O homem que desgraçadamente esfrega a grande barriga e coça a virilha bem de frente para o público numa madruga de foguetes ruidosos, é aplaudido ferverosamente. A musica é triste mas as gargalhadas descontroladas sem fim, num perigo iminente de se desmaiar, caem na atenção da Galinha Careca. Diz-se enamorada. Ela e o homem dançam, num espectáculo macabro.

Finalmente no descanso de um copo de vinho tinto, sentados à beira de uma piscina vermelha, conversas amenas de tardes quentes. Conversas que se misturam pela noite nua deitada sobre a relva. No breu, tremores alcoólicos vindos de conversas fantasmagóricas. – Estou com pele de galinha!! – ouvi dizer. Rua abaixo, porque é a minha vez, arrepiada dos pés aos cabelos, entro com a alvorada numa loja. Roço-me no minúsculo corredor de uma ainda mais minúscula padaria - Cheira a pão quente! - diz a embriagues envolta em risinhos desgovernados. E sabe tão bem, mas tão bem, que não consigo explicar... Pedi no meio de centenas de perdigotos – três pães quentes!! – Eternamente. Ou até ser novamente a minha vez.

O regresso, esse custa sempre. Sentada no banco da Gare vazia espero pelo comboio que volta do avesso. O tempo, esse passa estupidamente rápido. Penso nas sensações e transpiro naquele calor. É tão insuportável que o organismo não tem tempo de se arrefecer. Na onda do Bafo vejo alguém a aproximar-se. Várias pessoas pequeninas guinchavam – Quando voltas, quando voltas?!!!” – perguntaram. Resisti para ceder ao calor que ardia na vista...
- Outubro... - fiz silêncio - Outubro é um bom mês para regressar!! -

Entrei no comboio que parou quase a seguir. Escolhi o meu lugar no comboio vazio e abri a janela. Coloquei a cabeça de fora e fiz adeus. Deixei-me ir. Senti a velocidade do comboio a aumentar. Ao longe ainda vi a Galinha Careca chegar envolta no seu fumo. Não chegara a tempo para a despedida, decidira ficar. Que inveja... Mas quem é que inveja uma Galinha e ainda por cima Careca!!!

"Sentei-me no espaço que ainda tinha o teu cheiro. Quase que conseguia ainda sentir os teus cabelos em mim. Acendi um outro cigarro, olhei na tua direcção e ainda te vi, apesar de longe, no comboio:
- Até Outubro, miúda, até Outubro. – Cacarejei baixinho..."

Tuesday, September 18, 2007

Pena Azul!

Existem dias assim, qualquer palavra pode ser demais e qualquer gesto é sempre de menos. Qualquer sentimento é sempre inferior ao querer que não acabe, porque o imprevisto é sempre o nosso melhor amigo. Sempre.
Os dias são repletos de verde claro e verde escuro, cheios de altos e baixos. Dores. Cobertas e descobertas entre caminhos achados em ruas estreitas, veredas que de certeza não estavam lá ontem e revelaram-se hoje, inesperadamente transformadas em arvores que por sua vez se transformam em pontos de regresso. Um outro dia.

A tarde já alta começa azul e cor de laranja, junta-se inesperadamente na noite vermelho fogo e explode, como sempre acontece, em mil pedacinhos. Mãos que cheguem, não existem para os apanhar. São biliões por ali espalhados em sorriso e gargalhadas, espantos e bons momentos de sensações que parecem conhecem-se eternamente. Ouve-se um trombone arrepiante, que rasga incessantemente o rotineiro silêncio e a equidade desaustina o espírito que já lá está a ver o que se passa, envolto na imaginação repleta de faunos e fadas, duendes e muitas outras entidades disfarçadas de actores. Uma peça arrepiante.

Enfeitiçados, mil seres pisam a calçada de um Paço. Está escuro e os corpos juntam-se, sente-se o calor contíguo. Olhos que deambulam à procura, mais uma vez, do inesperado e a expectativa de quatro lados. As horas passam envoltas no encantamento de uma fantástica histórica, infelizmente verídica e os aplausos adivinham o fim tão cheio de cor, magia, sons cheiros e pessoas.

Acompanha-se as noites sentados nos bancos de pedra com os pés inchados na terra suja, olha-se o castelo lá bem no cima de tudo, envolto num fumo alaranjado... fazia tempo que o tempo não permitia tal coisa. Conversas de longa data. Ninguém sabe.

Devagarinho a madrugada, bem alta, embala na brisa fresca...


Nas profundas florestas um pequeno duende procura a sua pena azul. Pertence ao seu chapéu verde garrafa. Ao longe avistou os dois gigantes. Na correria de se esconder de certeza que a sua pena azul voara. Uns dedos enormes quase que o abalroaram de baixo das folhas castanhas onde se escondia, estremeceu de pânico. As suas vozes quase de rebentar os tímpanos, tão perto que estavam, misturavam-se entre os risos e sorrisos. Um deles pegou em qualquer coisa. No espaço de tempo em que se atordoo por aquilo que é eternamente apaixonado não se apercebeu... tinha sido assim roubada a sua pena azul!

"Para sempre teu...Paquito"

Thursday, August 09, 2007

O casamento...

Estava tudo pronto para o grande momento que era já no dia seguinte. Com tudo minuciosamente preparado, completo e mais do que perfeito. Os convites talhados a dourado para os mil convidados, a igreja enfeitada e o vestido branco pomposo. As flores apanhadas e sepultadas e as ementas inventadas. Até o sitio para convívio fora cuidadamente escolhido.

Desceram a rampa de mãos dadas e sorriso nos lábios.

O local era mais do que perfeito. Uma adega antiga localizada por detrás de uma serra bem encaixada entre a terra e o mar. Construída por cima das pedras milenares, balançava, tornando a musica desnecessária para dançar. Embalava. Ar puro e fresco circundavam o jardim fronteiriço que tinha vista para uma pequenina quinta que existia ali desde sempre.

O que eles não sabiam é que dentro dessa quinta, pairava um pesadelo. Um pequeno animal preto e ansioso espreitava-os na sombra, já perdido de gula.

Manhã de Sábado, 09 de Junho 07

Estacionaram três carrinhas perto da adega antiga. Os cheiros das iguarias próprias destes dias, levantaram um braço e foram bater bem à porta da casota (inha) do pequeno animal preto que vivia dentro da pequena quinta.

Acordou. Esbugalhou os olhos!
...

Ouviu o sino tocar. Levantou-se estremunhada pela hora. Vestiu qualquer coisa a correr e acudiu quem já gritava lá fora. Não queria crer no que os seus olhos viam. Tinha acontecido de novo. Num corredor que a separava do portão pintado de verde, teve que percorrer um labirinto de carne crua. Um autêntico espectáculo macabro de carnificina certa. Nem queria acreditar.

Escorrendo água pela testa abaixo, um homem gordo vestido de branco vociferava palavras podres do outro lado do portão pintado de verde, ordinarices que faziam rir um outro homem careca, baixinho, igualmente vestido de branco, que estava ao seu lado. Perguntou sem modos quem ali morava.

Enquanto percorria o corredor chutava os pedaços de carne espalhados por todo o lado, tentado passar despercebida. O pecado estava cometido num crime daqueles. Apesar de arcar com as consequências, acaba sempre por lhe perdoar.
...

Saiu da casota (inha). Trincou o guizo e tirou-lho o piu. Por uma gruta que apenas ele conhece escapuliu-se dos muros da quinta. À sua frente três carrinhas estacionadas com as portas abertas. Na parte de trás o paraíso da gula. Com o um braço feito de cheiro a apertar-lhe as goelas não hesitou sequer um minuto para reflectir. Ninguém o pode culpar por viver por instintos.

Uma a uma. Aliviou o peso às carrinhas. Na boca trazia bocado de cabrito ainda por cozinhar. Sem mastigar sequer, engolia pedaço maior que a garganta. Nem um lobo devorava assim.
...

O ladrão não era dali. E ao ver as figuras afastarem-se ainda sentiu pena dos prejudicados. O que seria daquele dia que teria que ser perfeito.

...
Duas horas mais tarde!

Ao longe um pranto. Uns gritos. Um prejuízo. Um noiva lavada em lágrimas e um noivo inconsolável. Mil bocas para alimentar e três carrinhas vazias.

Agora já não podiam ser felizes para sempre.

Friday, July 20, 2007

A estrada de Santiago...

Tocou no horizonte já estava cor-de-laranja, sorridente. Desapareceu por detrás da neblina cega, ausentou-se. Os pés assentes na areia fria preparavam-se para o impacto da água tão gelada que ameaçava rachar ossos. Habituaram-se e continuaram. Olharam para trás.

Era de noite e as formas da terra tornam-se em gigantes sombras de grandes monstros devoradores. Mortais. As grutas, formadas pelas rochas lá bem ao fundo, pareciam enormes bocas abertas, horrendas numa imaginação alucinante. Lutaram contra línguas marítimas em pulos frenéticos e sentiram-se pequenos correndo de mãos dadas. Por fim exaustos caíram em gargalhadas na areia escura.

Abriram os olhos e vislumbraram as estrelas espalhadas por uma, pouco definida, estrada láctea sem fim. Encontraram o principio e seguiram para sempre.

Ao fim de duas noites perdidas em insónias emprestadas, era impossível aquilo estar acontecer. Forças para lá de humanas corriam pelos músculos e pelos sentidos. Conseguiu fintar o cansaço e envia-lo para o dia seguinte. Amanhã que voltasse. Naquele instante nada mais era importante e não queria estar em nenhum outro lugar.

Não queria perder o momento por nada, apetecia-lhe viver... sentir-se viva.

Friday, July 06, 2007

Mount Wroclai (Idle Days)



Desta vez não foi numa arvore milenar, nem em florestas encantadas. Não foi numa serra cheia de verdes nem em nenhum sitio mágico.
Não fui ao encontro da imaginação nem chamei por ela. Deixei-me estar apenas tranquila encostada à realidade, vendo-a passar, de sorriso nos lábios. Adormeço sobre as palavras que queimam na garganta mas esfriam imediatamente na ponta nos dedos e quando as tento dizer em voz alta para não as esquecer e partilhar com quem me rodeia apenas o silencio num tentativa frustrada de explicar o reboliço no peito... de tanto sentir!!

Desta vez foi sentada na secretária, cheia de tonturas, que fui apanhada com um som apenas de meio segundo. Um simples som soprado num instrumento diferente. Depois mais meio segundo de rouquidão seguida de uma parafernália de outros sons e rebentei em mil paixões espalhadas por ai, por aqui por ali. Arrebatada outra vez pelo desejo enorme de partilhar com quem sempre percebe tão bem este “ estado”, e sem saber acaba por apanhar uma ou outra ponta que fica solta completando o ciclo, fui ali ao lado... mas tinha-me esquecido. Não estava lá.


De ouvidos postos nas musicas... espero,
se me perguntar... por onde tenho andado, de onde venho e para onde quero ir, vou sorrir...“Beirut”!!

Friday, May 18, 2007

No matter how I try...


Completamente refeito do tempo em que a realidade se envolveu com farrapos rasgados em pedacinhos pequeninos demais e sem ter a paciência necessária para os juntar, um regressar de lado algum com sentido. Um renascer a partir de um vício tão superior aquilo que pensa conseguir controlar, porque afinal o que importa é conseguir planar baixinho de braço bem abertos ouvindo-os murmurar. E sorrir, simplesmente sorrir...

... foi já com os “phones” nos ouvidos que a inquidade cresceu dentro do silêncio. Deu-se a expectativa. Um tremer de estômago que insiste em ficar e pressentiu ao mesmo tempo que fechou os olhos que queria ficar ali para sempre. Atirada para um canto a tal realidade, desejou ser qualquer coisa que se dissolvesse no ar mais puro que alguma vez respirou!!

E a musica começou a tocar vezes sem conta até...
até se tornar mais do que perfeita!

Friday, April 20, 2007

Sobreviverei sem saber?!

Numa daquelas noites mornas que aparecem fora de época, por debaixo de um céu brilhante estranhamente ausente de lua lá estavam eles.

Ela, uma velha dançarina de Can Can despida de folhos, bailava dentro de um “maiô” vermelho, muito coçado, um rabo esquelético e pendurado. O ventre descaído de sete gravidezes transformadas em pequenos anjos que vivem lá em cima, encolhe-se agora de emoção e reboliço. Uns beiços finos quase inexistente e borrados de batom cor de rosa, incham sumptuosos na direcção oposta. Arregala uns límpidos olhos pretos e reprime estupidamente aquilo que sente.

Ele, um amolador de tesouras, facas, canivetes e navalhas trazia nos ossos os nós do oficio doloroso e na pele o negrume da roca. A carne nitidamente esquartejada de objectos tortos e afiados jamais iria alisar na perfeição. Consertava ainda chapéus de chuva com varetas partidas, a injusta causa de ter a vista esquerda completamente vazada e pálpebra descaída, contudo não se lhe esconde a verdade vomitada apenas pelo outro único olho. Os dedos eram os necessários para se entrelaçarem nos dela e o coração pingava-lhe aos pés um liquido que vinha não se sabe de onde.

Perto deles um pequeno macaco vestido de marinheiro comia amendoins fritos de mel e sal. Lambuzado beliscava-os cada vez que um pacote se esvaziava. Pedia mais, muito mais com a dentuça escancarada e a patorra estendida. E nem assim, aquela figura peluda os distraia daquele olhar, que quase no fim eles estavam a aprender.

Envergonhados ainda por um namoro recente, deixam-se ficar num silêncio cheio de desejos estimulados pelos sentidos. Tocam-se mentalmente e não tem coragem para o primeiro beijo que ainda não fora consumado. E se ele queria mais, muito mais senão um roçar de boca e língua. Afinal era humano e apesar de enrugado tinha tanto direito de cobiçá-la só para si, como todos os outro que não a alcançaram.

Impaciente e numa espontaneidade própria só dela pediu-lhe, sem conseguir controlar a voz para lá de trémula, que fechasse os olhos:
“- Pensa numa musica... Agora dança comigo!”

Cheios de sorrisos, levantaram-se e deslizaram da realidade coxa para lá de lá... ali no mesmo num sito onde passavam outras gentes outras vidas. Conhecedora que é das musicas de cabaré, o seu inconsciente foi buscar aquela que mais se enquadrava. A preferida a perfeita. A que se tornara bela naquele instante.

Que seria único e inesquecível... ainda não sabiam!!

No silencio do momento ouviu-se um pequeno cantarolar bem perto do ouvido, num sopro que causa arrepios. Conheceu aquela melodia soprada:
“- O Calhambeque, bi-bi, quero conservar o Calhambeque!!!

“- Fim!” Suspirou.

Eu queria-a... mas não a podia ter!!
Disse-me ele enquanto acabava de concertava o meu guarda-chuva favorito. Não percebi a história. Ou melhor, não percebi porque me contou a mim. Tive vontade de lhe fazer mil perguntas que me ardiam na garganta... “Se é verdadeira?! se a dançarina existe?! quem tinha cantarolado a musica?! ... de quem era o macaco?!

Mas... da mesma maneira que a começou a contar a história calou-se. “- Para si é de graça.”, disse ao mesmo tempo que esticou o guarda-chuva e se sentou na bicicleta sem cor e idade. Pegou numa gaita amarela e desceu rua abaixo...

Thursday, April 12, 2007

"It’s not fun to be so blind..."

Preparei bicicleta para aquela que seria a minha primeira volta desde Outubro passado. A adrenalina causada por aquela das quatro rodas adormeceu a loucura de pedalar, e agora ao preparar as coisas para começar uma nova etapa e passar um bocadinho comigo própria estava a um passo de distância. Juro que não tinha nenhum destino em mente, apenas queria montar e pedalar fosse lá até onde fosse... até as minhas forças cederem na hora do regresso e ter que sofrer nos músculos meses de desleixo.

Sempre que decido fazer estas “voltas sozinha”, às quais intitulei de “fazedoras de magia”, dentro de mim passa-se tudo de uma maneira tão automática e calma que até parece que consigo adivinhar os instintos que o momento me proporciona, talvez uma pequena ansiedade contraditória de querer antecipar o que vai acontecer. Porque sei sempre que algo de diferente acontece, afinal estou comigo num desejo maior do que eu em voar e partir para tão alto, baixar os olhos e olhar as mão estendidas que me procuram no chão.

No inicio da marcha comecei por relatar baixinho a paisagem como se lesse uma história e senti-me a entrar numa outra dimensão mergulhada naquele delicioso silencio que se ouve apenas quando estamos sozinhos porque queremos. Gemi logo nas primeiras dores e lutei na subida com umas "mudanças já ferrugentas" da humidade. Cuspi a palavras “bolas!!”com dificuldade e tentei não cair em gargalhadas com a minha figura.

No cimo da rampa parei no cruzamento e sem dar por isso já as minhas mãos e os meus pés se tinham tornado escravos do subconsciente e levaram-me até lá. Àquele sitio. Um sitio onde não deveria ir. Onde não deveria estar, e muito menos sozinha. Mais uma vez a condição feminina bate aos pontos um espírito sem sexo e limita-me nas bocas onde as aventuras são proporcionadas muitas vezes pelo perigo.... Mas naquele dia foi diferente e não estava com paciência para tentar perceber!!!

Confesso que tive que segurar o coração entre os dentes para que não me saísses pela boca fora, tal eram as vibrações que aquele lugar me transmitia. Agachei-me apenas um segundo no chão e olhei o mesmo percurso de há anos a trás... Ali estava eu no lugar onde conheci o "Ser" que vive no meu ombro e que constante me puxa os cabelos em tom de aviso. Ele próprio o reconheceu e os puxões nos meus cabelos tornaram-se tão fortes ao ponto de arrancar caracóis. Basta! Desta vez não lhe dei atenção e já nada interessava senão aquela prova de atravessar até ao outro lado que acaba em arriba para a praia.

Voltei a montar e segui pelo caminho pedregoso daquilo que outrora fora um pequeno bosque. Passai pelos caminhos estreitos e recordei os risos de regresso a casa. Aumentei a velocidade e imaginei uma ventania que me despiu em segundos e tudo se tornou colorido e distorcido. As pequenas arvores tornaram-se em carrosséis cheios de luzes incandescentes que giravam até estontear se o olhar se prendesse e as ervas transformam-se em pequenos pedaços de gelo que queimavam a pele. O céu deixou de ser azul e tornou-se em sete cores. Um palhaço baixinho talhado em madeira preta corria atrás de mim quase me tocando nos cabelos, que agora eram ainda mais longos e esvoaçante. Consegui esmurrá-lo no ventre, ri de orgulho. Afinal não era de madeira.
Continuei naquela fuga desesperada em pedaladas desenfreadas. Tudo estava em constante mudança.
À minha esquerda um exercito de uns seres que nunca vira antes, marchava já em minha direcção tentado alcançar-me. Um atingiu-me num braço com uma espada, e um terror de morte fez-me cravar os dedos nos punhos de esponja e descarnar as canelas nos pedais em bico afiado tal era força que exercia o medo.

Um rasgão... sangue num braço cortado quase pelo meio pendurado numa nudez desenhada a cor de rosa.

Estava um dia lindo dentro das quatro da tarde de uma terça-feira. O cheiro era o mesmo quando cheguei a arriba que dá para a praia... terra quente, água salgada e acácias. Deitei a bicicleta sobre as ervas e sentei-me pendurando os pés para o lado de lá. Fechei os olhos e não consegui imaginar nada que não fosse como tem sido até ali. Só tenho esta vida para viver e não posso perder tempo a questionar aquilo que amanhã pode tomar um rumo completamente diferente.

Olhei o mar e concentrei-me no meu corpo desde os bicos dos pés até à ponta dos cabelos. Senti a lufada de serenidade e tranquilidade. Inspirei e desmanchei-me numa alegria só minha.

Estava na hora de regressar a casa. Agora iria a pé e levaria a bicicleta à mão. A bainha das calças encalhou num dos pedais e cai numa queda apalhaçada (confesso). Ao longe ouvi aplaudir. Alguém que vira tal coisa não conseguia deixar de rir e aplaudir. O Ser que vive no meu ombro encolheu-se. Peguei-lhe e sentei-o no assento. Virei-me para onde os meus ouvidos me levaram ate ao insistente aplauso...

Num vénia muito elegante, agradeci!!!

"Oh I wish I could fly
Through the sky
And the moon above me
Oh I wish I could talk
To the gods and the birds above me
It’s not fun to be so blind
To be so blind"

Monday, March 19, 2007

"Come down!"


Porque a vida é... tão simples como o facto de estar sentada em mesa redonda, rodeada de doze sorrisos. É simples com pão, bolas de Berlim, cerveja e vinho tinto. É simples como a viola que toca repetidas musicas conhecidas em vozes desafinadas, acompanhadas por ritmos batidos com um só pé. É simples como as gargalhadas e os silêncios nos aplausos descontrolados. É simples como um tocar de ombro e um olhar que pega e não descola. É simples como a fogueira que arde para aquecer do frio que se aconchega nos ossos e é simples como a noite cheia de estrelas em constelações partilhadas em segredo...

Os fumos de velas e incensos misturando os cheiros transcendentes... cheira a mil flores naquele presente que não quero que acabe nunca. Aquele presente que foi ontem e ainda aqui está agarrado à minha memória, numa noite infinita, que se uniu naquele exacto momento em que não me posso sentir mais feliz dentro de uma enorme tranquilidade de apenas querer ficar ali para sempre.

O coração agora bate devagar... mesmo dentro das sensações ELE sabe, que "aquela que por fora conduz" quer viver no desalinho daquelas sensações. Sem regras mas com certezas... e com muitas paixões seguras entre as mãos, SIMPLESMENTE perdida de sorriso!!

"To Build A Home" – The Cinematic Orchestra
Explodi ao minuto e trinta e oito...

Tuesday, March 13, 2007

A senhora do calaboiço

Acreditava eu que os príncipes encantados apenas existiam na cabeça de donzelas tontas com voz de cana rachada e dedos picados de agulhas tortas de tanto tempo fiar. E sempre me fez sorrir a ideia do trovador a berrar para uma janela enfeitada, dedilhando tristemente uma cítara e agonizando trovas de amor eterno, provocando arrepios aos seres mais tristes que por ali passassem.

Acreditava sem sequer pestanejar que um dia nas batalhas entre as terras e mundos desconhecidos que tentei conquistar até aos dias de hoje, esbarraria com aquele que deveras arrebataria comigo e com um só olhar roubava-me alma. Teria que lutar até ficar sem forças pelo meu “eu” e se saísse vencida dar-me-ia a mim como prémio. Tentei acreditar nisso, e foi esse acreditar que me fez andar despreocupada a espetar beijos nos maiores sapos sapudos que se transformaram, não em príncipes mas sim em fieis amigos encantados que cavalgaram comigo em demandas fantásticas com fins espectaculares.

Bem.. tudo aconteceu num belo dia de Páscoa para lá do século passado. Limpávamos armas e descansávamos o corpo cansado de tanto percorrer... viver. Repousávamos em praias privadas sobe a areia que já começava a ficar morna, solta de limpa que estava. Desencravou-se unhas, retirou-se espinhos e curou-se chagas de tanta dança e contradança. Treinam-se novas tácticas e habitua-mos as mãos a outras mãos.

Optei por passear na carroça puxada por cinquenta cavalos voadores mas naquela velocidade em que se voa deliciosamente a meio gás, fechando os olhos e perdendo o controlo de segundo a segundo.
Parei junto à falseia e deixei-me sentir esvoaçante numa conversa repleta de piratas zarolhos à procura de mulheres de rabos grandes. "- Boas parideiras"... diziam em risos estridentes de dentes podres. (...)

O vento apertou como uma maldição e arrancou-me, numa força de mil homens, abruptamente da carroça. Os piratas não tiveram tempo de agarrar uma das minhas mãos e em trambolhões confundidos com aqueles voos que jamais queremos recordar, cai pela falésia abaixo mesmo em cheio dentro de um calaboiço perdendo os sentidos.

Acordei. Estremunhei o sitio e assustei-me quando olhei em volta aterrorizada com a ideia de ficar ali para sempre. Presa. Lembro-me do pânico agarrar-me o coração e apertá-lo. Lembro-me do desespero que esgravatou com os meus próprios dedos a terra ainda mole das ultimas chuvas. Tentei não chorar. Tentei não gritar!!

- És uma princesa?!
ouvi coaxar... do escuro.

Num palavrão guinchei que não me faltava mais nada se não um sapo repugnante a pedir-me para ser beijado... senti-o aproximar-se e respondi-lhe entre dentes que NÃO.
Foi-se aproximando e ainda não lhe tinha posto os olhos em cima já as minhas entranhas se reviravam e não estava a conseguir compreender o porquê de perder o controlo por mais de um segundo numa curiosidade quase predadora de ver. Encaramo-nos... ou melhor eu encarei-o. E não percebi o sentido que o meu coração seguia em centenas de batidas...

- Podes experimentar, por favor?!
Voltou a coaxar...

Estiquei os lábios...

Juro que não sei o que se passou. Não sei se o cheguei a beijar... e antes que uma luz muito forte me magoasse a vista, ainda vi ao longe do calaboiço, que até à altura era apenas um buraco pequeno, um vulto a correr...

Ainda gritei...
- Não reza a lenda que o sapo fica com quem o beijou...
Mas não se virou para trás, sequer.

Olhei para cima e estavam os piratas a tentar atirar cordas para me tirarem dali.
Quando por fim consegui agarrar um braço tatuado apercebi-me que já não era a mesma. Estava diferente e quando olhei para baixo senti-me a cair em direcção ao meu destino que tinha acabado de fugir... Inventei eu uma lenda e recolhi-me. Sabia que tinha ficado presa, na longa espera de um beijo sequioso.

Não tenho ideia do dia do calendário em que cheguei à boca do calaboiço e sem vida me atirei lá para baixo. Sem juventude e sem vontade, apenas com melodias cantadas em voz de cana rachada.

Com o passar dos anos comecei a ouvir um tilintar constante... eram moedas.

Em volta do "meu calaboiço" circundava a lenda dos amores eternos. E as verdadeiras princesas começaram a sair das torres e vinham até ao meu limite atirar moedas e fazer promessas para eu lhes devolver os amados... gritavam o meu nome e atiravam a moeda... como se eu fosse uma Santa que vivia ali há séculos, anos, meses, dias, horas, minutos e segundos à espera...

Thursday, March 08, 2007

"Cataracts"

Sim, foi uma fábula. Uma fábula feita de instrumentos musicais e vozes melódicas, sinos e de um menino de sorriso traquina que não pára de crescer. Era uma fábula feita de assobios, arrepios e borboletas. Sorrisos, gargalhadas e alegria. Uma deliciosa fábula que foi contada em surdina para não ser ouvida apenas sentida. Uma fábula de fechar os olhos dentro do inconsciente num sentimento que corre mais depressa que o próprio sangue. Foi uma fábula cheia de mistério e magia que nem sempre é entendida e foi tão vivida.

E com aquela musica no ouvido, assobiava dentro do sonho onde recordava a fábula passada.

... Assobio num vicio entranhado dentro em mim. E quantas mais são as vezes que a oiço mais tenho a certeza que...

Se deixar de sonhar definho...

Thursday, February 22, 2007

... o cheiro dos eucaliptos!

Dois dias. Dois dias assim, sem me lembrar de mim. Sem me lembrar das horas nem do tempo, apenas do momento e do espaço, dos seres evolventes e dos humanos iguais a mim. E foi com os olhos cheios de lágrimas que coloquei a ponta dos pés no limite que separa os mundos e escorreguei por aquele caminho que tão bem conheço mas já não me recordava o porquê dos meus bocadinhos ainda lá estarem.

Rebentei num choro de tal intensidade que acabei por esquecer qual a primeira razão porque o pranto começou, e aproveitei para chorar tudo de uma vez só. Meses semanas e horas de vontades reprimidas por dois lábios selados e uns dedos que apertam o nariz. Chorava de uma saudade dilacerante no peito QUANDO tudo acalmou ao sentir aquele cheiro tão familiar e antigo de menina. Tão aconchegante e ali tão perto do mim. O meu cheiro... o cheiro dos eucaliptos. Fechei os olhos e ouvi o vento a passar por entre as suas folhas em uivos ensurdecedores que traziam o aroma dos deuses profanando até os mais cépticos. E para esses já era tarde. O encantamento tinha começado.

Já era tarde para quem tão séptico ao meu lado caminhava... no desequilibrar das sensações consegui agarrá-lo. Suspenso pela gola do casaco numa força quase de me arrancar as unhas gritei-lhe entre dor e desespero que fechasse os olhos rapidamente...

Senti-os nos cabelos, nos braços nas pernas. Um namoro de pele, transformando cada um dos seus movimentos em mil beijos tranquilos colados por debaixo de um lindo céu. Embalo-me. Adormeço e pela primeira vez envio a magia de um mundo que é só meu para um cantinho da minha própria realidade... e explodi quando alguém, tão céptico até agora, fechou os olhos e voamos tão alto que nem nos lembrámos que se caíssemos e nos estatelássemos misturados no chão.... iríamos ficar para sempre uma só pessoa do mesmo sangue e da mesma carne.

Encaramo-nos. Devoramos retinas e sabores ainda presos na fresca recordação:
- Foi os eucaliptos.
Disse numa voz tremula e extasiada.
- O teu cheiro... o dos eucaliptos.

Friday, January 12, 2007

Untitled (...)

Ela
Vivia num sitio longínquo. Era um sitio tão longínquo e elevado que se perdia de vista em altura a desaparecer nas nuvens. Tão elevadas, que as casas eram construídas nos bicos das pedras e quando o vento era mais forte oscilavam, atormentando as vísceras de quem lá dentro morava.
Muitos foram aqueles que vieram de outras terras para o conquistar e poucos foram aqueles que o conseguiram dominar e por ali ficar. Houve os que tentaram e perderam-se nas encruzilhadas. Perderam-se nas florestas encantadas. Aquelas que o separam da realidade.

Eu
Parei de frente para o portão pintado de verde com um arco formado pelas eras passadas que cresciam em direcção ao céu. Não queria acreditar que não conseguia controlar o meu corpo, estava completamente sem forças. A razão de ali estar há já muito que me tinha esquecido, e o objectivo não recordado sentia-o a chegar ao fim. Peguei num fio amarelo que pendia na parte de fora e puxei-o. Sete sinos tocaram. Primeiro um de cada vez e depois os sete em repique. Um pequeno cão preto correu até mim num ladrar enorme. Sorri. Ninguém respondeu. Abri o portão e entrei por conta própria. O pequeno cão desapareceu à minha frente...

Percorri um comprido corredor de terra e pedras. Do meu lado direito ameixeiras, muitas ameixeiras de várias cores. Outra que nunca tinha visto, que nem conhecia. Um figueira, uma nogueira, um chorão sedento e um pequeno pinheiro que tentava já impor o que um dia viria a ser.
Ao fundo do corredor no lado esquerdo uma casa... branca com riscas amarelas.

Ela
Estava sentada no pequeno pátio situado a poucos metros da casa branca com riscas amarelas. Fumava um pequeno cachimbo talhado a navalha por ele, aquele que estava lá dentro com um coração maior do que ele próprio. Aquele que emanava musica passada e presente. Observava distraída o tempo morno. Absorvia a tranquilidade do riacho que atravessava a casa e que murmurava mesmo ali aos seus pés. As folhas caducas já repousavam no chão apodrecidas e Setembro debicava os restos de uma pequena horta agora abandonada e seca. Chegara a época dos amarelos e castanhos.

Eu
Avistei um pequeno pátio. Sentada estava um mulher, que fumava um cachimbo e brincava com o fumo que lhe saia pela boca em forma de círculos. Olhava em frente com olhos transparentes. Dirigi-me a ela e um pato que tranquilamente debicava os restos de uma pequena horta abandonada e seca esvoaçou assustado e desapareceu...

Ela
Avistou uma mulher que cruzou o lado esquerdo da casa branca com riscas amarelas. Estava bastante suja e não lhe conseguiu ver o rosto. Por momentos pensou que tinha conseguido cruzar as terras distantes e olhou-a espantada. Impossível. A mulher esticou-lhe a mão... deixou-a esticada por uns instantes e caiu sobre a erva molhada.

Eu
Desmaiei. Agora que vi gente podia descansar.

Ela
Correu até à mulher desmaiada. Agora mais de perto viu... os rasgões nos braços os joelhos sangrados e a roupa suja. Molhou as mão na erva e limpou-lhe a lama do rosto...
Era ela própria, ali caída.

Eu
Acordei com o rosto molhado. Olhei a mulher...
Era eu própria.

Ela
Por fim percebeu... que conseguia dominar a terra das mil e uma palavras...

Thursday, December 14, 2006

Cat Power


Os momentos mágicos são intemporais. Podem ser vivido num passado distante mas o encantamento é de tal ordem poderoso que parece que se quebrou mesmo agora. E basta fechar os olhos no preciso momento em que a melodia começa a soprar para uma viagem alucinante ter inicio...

Apesar de não ter surgido o Abismo continua suspenso sobre o feitiço de “Cross Bones Style”!!

Monday, December 04, 2006

Leonor

“- Acudam”...
Gritou em plenos pulmões a mulher da cesta equilibrada na cabeça.

Datava 1946. Ano em que Leonor foi encontrada mais tarde xingada por achada. Tinha apenas dois anos... sentada na doirada seara de trigo. Um trapo velho envolto no corpo e uma pequena laranja na mão. Dentadas perfuravam o fruto sumarento na esperança de matar a sede que já circundava a língua mais do que seca. Branca.

Veio o senhor policia. Veio a aldeia santa. Vieram os sábios e até o padre. Todos afluíram ao novo acontecimento na aldeia onde não se passava nada.

A criança assustada não sabia o que queira. Balbuciava palavras vazias que tocavam no tecto e desapareciam na algazarra da sua prisão. Fazia rir os bobos desdentados. Ninguém a conhecia mas palpitavam em volta de um casal que vivia no moinho da outra aldeia.

Apareceu o herói da história. Um belo rapaz por sinal, envolto no seu manto de pele de cordeiro, casado com uma linda rapariga de ventre deserto. Choravam os dois tal sorte e amaldiçoavam as outras encarnações. Acreditavam nessa coisas. Cheios de promessas peregrinas transformadas em esperanças semi-falsas. Desfaleciam em loucura todas as noites nos braços um do outro até o corpo doer. Mas todos os meses certos como um relógio... sangravam.

O herói da historia apaixonou-se por Leonor. A jovem esposa apaixonou-se por Leonor. Tinha de ser deles. Todos reclamam direitos. Era de todos e ninguém a queria. Foi preciso desembainhar o cajado numa lutar contra outros cajados, foices e outras coisas mais afiadas. Sentimentos, pressentimentos e argumentos malfadados. Escapuliu-se. Agarrou na pequena Leonor e escondeu-a no seu manto imortal, pensando erradamente que a protegia.

Decorrem cinquenta e dois anos, e Leonor apenas conseguiu o amor daqueles que a protegeram, mas que já morreram. Nunca amou ninguém sem ser aqueles. E nunca ninguém a amou sem serem eles.

Casou... é verdade. Nem ela própria sabe dizer a razão. As outras também casaram. Ela não queira ir virgem para a cova, pensava. Foi enganada (...)

Está sentada à minha frente, faz hoje cinquenta e dois anos, numa festa cheia de amigos bem pagos para sorrirem. Não me vem à memoria o nome daquele prato que fumega bem de frente do meu nariz. O cheiro é estranho. Pego no garfo com a mão esquerda e provo uma pequena batata que bailava num molho verde. Cuspo para o lado... todos tossem. Todos caem. Leonor no topo da mesa segura firmemente num copo de cerveja preta que tenta despejar num só gole. Olha para mim, a única que ainda não conseguiu sucumbir, e pergunta num abanar de cabeça:

- Porque choras?
- Por causa da tua história. És tu não és?!

Sorriu...

- Penso que sim. Penso que sou eu. Mas sabes já não tenho a certeza.
- Nunca é tarde pois não?
- Eu é que te devia fazer essa pergunta.

Se morri ou não... não me recordo. Apenas me lembro de um dor forte bem por cima do sobrolho...

Para J&L

Tuesday, November 28, 2006

A boleia!

A desesperar completamente na ultima estação da linha do comboio, numa tarde já nocturna fustigada por uma tempestade que parecia não querer abrandar, muito pelo contrario. Sorri. Melhor, gosto de ver o limite.
O telemóvel toca e previsivelmente oiço a voz da minha boleia que nunca chega um único minuto que seja adiantada e encontra sempre a desculpa mais idiota para me convencer de que não tem culpa de estar atrasada ou que vem a caminho. Várias chegam a ser as horas que fico ali sentada no banco de cimento mesmo de frente para a máquina dos bilhetes, mesmo no sitio onde o vento se revolta entre folhas secas, bilhetes velhos e sujos e garrafas de plástico que não foram apontadas para o lixo. Conto os botões por ordem de cores e numero, acrescento apeadeiros e invento estações que só eu sei onde ficam.

O comboio pára infinitas vezes no fim da linha com os vidro embaciados da respiração das gentes. Alguns ainda saltam em andamento. Observo correrias alheira, reencontros e outros que se sentam ao meu lado com a certeza que também esperam alguém.

Liguei o numero que conheço na ponta da língua, ou melhor na ponta dos dedos. Vou andando a pé. Apanhas-me no caminho. Já deveria ter pensado nisso mais cedo. Subi as golas do casaco até às orelhas e devagar entrei pela tempestade adentro. Não me preocupei com poças de água, nem em desvios nem com as goteiras das arvores. Fingi ser invisível. Semi-serrei o olhos e continuei em frente. Virei à esquerda e segui em frente. Caminhei devagar, precisava de fazer tempo para não ficar à espera de frente para a entrada principal daquele sitio mágico.

Caminhei. E mesmo vendo aquele sítio todos os dias, sempre que ali passo, e principalmente a pé, fico de peito cheio e comprimido de sensações. É como se ficasse desprovida de tudo o que é material e tal como vim ao mundo coloco os pés descalços naquela calçada límpida mesmo com o passar dos séculos sem os molhar sequer, apenas sinto o frio da chuva.

Não existe ninguém. Ou melhor ninguém que olhe e veja a minha nudez. Ninguém que olhe e aponte o dedo em reprovação. Ninguém que olhe em curiosidade de quem nunca viu um corpo. Não existe. Porque naquele patamar, ao qual tinha acabado de chegar, nada disso existe. E aqueles que por mim passam olham-me simplesmente bem no fundo dos olhos... cumprimentam-me e dão-me as boas vindas. (...)

Tremi de frio. Dei por mim estava a olhar para a ponta das minhas botas. Estava sentada no muro encharcado, mesmo à entrada principal daquele sitio mágico. A tempestade estava no seu auge. Olhei a fonte romana entre o fumo de água e mais uma vez achei-a linda de morrer.
Quando estava a começar a perder-me no jogo das luzes, ouvi apitar.

O carro de lona parou e fez sinais de luzes. O meu corpo caminhou até lá, mas o meu espírito ardia por ali ficar. Entrei e a minha boleia discutia num tom ensurdecedor com uma terceira pessoa que estava presente. O rádio estava alto demais com noticiais reais demais.

Está ai uma manta (ainda consegui ouvir), sentei-me nos bancos de trás e recostei-me confortavelmente. Abstrai-me daquilo que naquele momento era mais do que poluição sonora e dentro de mim, naquela simplicidade do momento que passou nem à cinco minutos atrás, senti-me o ser mais feliz do mundo....

Wednesday, November 15, 2006

Untitled-1




E
ra um estranho total quando caiu naquele ambiente onde nunca deveria ter conseguido chegar. Mas não parou naquele intervalo do espaço, que de repente se rasgou no preciso minuto em que passava. “Escorregou” é o que gosta de pensar, e não é nada disso. Como sempre foi mais forte do que ele próprio.

Tudo a sua volta era completamente novo e um enorme sentimento de medo fazia-o paralisar. Estava dormente e sem reacção tal era o terror que sentia. A língua secou as palavras e o braços deixaram cair as expectativas... jamais pensara que seria assim. Desejara ao ponto de arder na pele como fogo, desejara aquele espaço onde tantas vezes sonhou perder-se e agora revelava-se completamente diferente, não da realidade, mas daquele sentimento que trazia consigo já faziam precisamente cinco dias. Num silencio melodioso. As vozes, os instrumentos, as notas... sentiu uma pancada no estômago e fechou os olhos inconscientemente. Um silvo saiu-lhe dos lábios...

(...)

A musica ainda não o conhecia quando ele ali caiu. Bailava em seu redor, harmoniosa e enfeitiçada, como qualquer coisa que flutua em busca de querer conhecer mais. Querer saber o que ele era e como descobriu o caminho.
Passeava. Roçava-se pelo seu corpo quase perfeito como uma serpente. Confiante. Descia e subia cheirando-o. Farejando-o. Cuspiu-lhe um vento ensurdecedor num pedaço de cabelo e puxou-o num grito de dor. Levou a madeixa àquilo que parecia ser os seus mais de cinco sentidos juntos e inspirou. Rebolou e envolveu-se nele... Invadiu-lhe como por magia os olhos com liquido e os ouvidos com sons. Milhares e milhares de sons.

E muito devagarinho a musica começou a apaixonar-se por aquele bocadinho de gente!!

Monday, November 06, 2006

Quem é?!

Preciso de saber quem ontem pintou o céu. Quem o pintou a lápis de cor amarelo, laranja, vermelho, azul e laivos de roxo. Quem o desenhou com duros pasteis esbatidos a dedo expandindo-as em todas as direcções terminando alguns no infinito da bola de fogo. Quem com um marcador branco rasgou o céu em cores de luz que ultrapassa radicalmente uma realidade de natureza superior.
Quem o contornou com uma fina caneta dourada e brilhante. E quem inventou aquelas formas nas nuvens que eu nunca antes vira. “- Já viste as nuvens hoje?!”... colocadas em várias dimensões num escala de cinzentos. Indescritíveis até mil olhares e ali tão perto de um simples esticar de braço, esticar de dedo a tornear as várias formas até as saber de cor e conseguir guardar para posteriormente projectá-las num outro céu.

Quem é o génio que tem o condão de me prender horas deslumbrada aquilo que nunca me passou pela imaginação e nem mesmo pela retina acordada. Quem por fim soprou a lua e acendeu as estrelas no meio da tempestade que rebenta em gritos silenciosos e latidos afastados mesmo ali ao lado de uma noite de verão.

Quem é de certo não está ciente no perigo em que nos colocou. Em que me colocou. O de não conseguir equilibrar-me naquele limite em que intensidade tem que ficar dentro de um saquinho chamado emoções que comprimo, na mão com todas as minhas forças, em vão. Porque não aguentei o formigueiro do tumulto apertado e deixei-o cair. Exigiram ser libertadas e com elas deixei-me ir... *

Olhei cá para baixo e vi: nós as duas sentadas no pequeno muro branco.
Estava-mos sentadas bem de frente para o mar. A paisagens dividia-se ao meio, distintamente bem por cima das nossas cabeças, bastava lançar a cabeça para trás e olhar em direcções opostas. Na vigília da chuva tínhamos chegado até ali com o propósito de falar de ti. Queria tanto ouvir-te e dar-te as minhas palavras e isso não estava a acontecer.

Sobrevoei-nos, eu estava de olhos fechados. Tu contorcias os lábios euforicamente em forma de palavras mágicas de uma primeira conquista e desesperei para conseguir ouvir-te naquele momento. Mas foi impossível (...) Tu apercebeste-te. Olhaste em frente transparente e "acomodas-te –te" em jeito de quem espera uma eternidade se for preciso.

Vou tentar saber quem é... dá-me só um segundo!

* e já sorria enquanto me ia perdendo pelo dia a dentro...

Friday, October 27, 2006

(not) Controlling my feelings

Corria o rumor que iria ser igual e não valeria a pena o esforço. Que não ia ser como na primeira nem como na segunda vez. Sem nada de novo para contar . E a noticia já ia de boca de boca com a credibilidade de uma mentira muito bem contada.
Melhor assim, não se criou grandes expectativas e aguçou-se o factor surpresa que se transformou para lá de qualquer coisa extraordinária.

Mas é certo que ao contrario de outras línguas maiores e inchadas não foi igual, porque não poderia ser nem nunca será... o sangue fervilhará sempre nas veias e explodirá em adrenalina presa em gigantes balões recheados de pozinhos perlim pim que se derramarão pela multidão depois de rebentarem. Os bocadinhos espalhar-se-ão e juntos conseguiremos sempre encontrá-los no escuro até as luzes coloridas voltarem a invadir mil rostos. E mesmo que fiques com alguns meus e eu com alguns teus, não faz mal porque as sensações vividas ao mesmo tempo por aquilo que se ama em simultâneo é assim mesmo... um só!

Em uníssono cantou-se aquela musica... até voz ficar rouca e se sumir num saboroso silencio à espera que nunca acabe...

E não acabou (sorriso)... no carro foi vira o disco e toca o mesmo!!

Monday, October 16, 2006

Devagarinho... está na hora...

Na chuva da noite de ontem senti devagar as sensações a desvanecerem-se. Pensei que morreria junto com elas tal era a tristeza que sentia, mas estava mais do que na hora, teria que cortar um género de cordão transparente que brilha apenas para aqueles que o conseguem ver. Era essa a razão de ali estar, àquela hora. Tentei sorrir para os clarões que espreitavam de cinco em cinco minutos e iluminavam o mar, iluminavam as sombras feitas pelo vento. Iluminavam-me a mim.

Não me mexi... poderia tratar-se de uma fotografia que fixasse para sempre a minha imagem no momento e por algum encantamento que ainda desconheço pudesses ficar por ali. Viver assim. Eu e aquele sitio. Eu e a noite. Eu e a tempestade com apenas um pé pendurado para o meu próprio abismo, aquele que não receio mas respeito.

Mas o clarão era tão forte que não conseguia abrir os olhos, não conseguia ver. Tive medo de ficar desfocada, perdida e irreconhecível. E queria tanto ver. Gritei desesperadamente nos rugidos do céus e deixei que as lágrimas desenhassem o seu percurso num rosto já encharcado. Uma a uma queimavam-me os olhos. Ainda não estava preparada. Não ainda.
Não aguentei. Cai sem sentidos e atravessei o deserto do sentimento sem sequer tocar no chão. Embati numa pequena pedra e flui pelo seu lado esquerdo.

(...)

Voltei a mim. Ouviam-se sorrisos perdido no barulho da lona vibrante que cobria o veiculo alto. Continuava a chover e ainda era de noite. Sai do carro e fui até onde o mar me lambia os pés. Trauteava repetidamente o mesmo refrão de uma musica que nunca tinha ouvido:

Eras tu a ficar por não saberes partir,
E eu a rezar para que desaparecesses,
Era eu a rezar para que ficasses,
Tu a ficares enquanto saías.

Senti uma leveza no peito. Percebi e deixei-me ir. Lavei a alma e desamarramo-nos ali mesmo.
Corri para o veiculo numa velocidade alucinante para ninguém se aperceber da minha ausência... e ainda lá estavam, todos sentados na mesma disposição.

Uns lábios tocaram-me ao de leve no ouvido e num arrepio ouvi:
-Está na hora!!

Larguei o momento... guardei a recordação... e continuei devagarinho!!