
Existem aqueles que lhes chamam “
alforrecas”. Eu pessoalmente prefiro chamar-lhes
"Medusas". Talvez o nome me faça lembras “
Musas”. Aqueles seres sobrenaturais e míticos que existem apenas em contos. E como é natural no meu
Eu, é o que basta para transformar tudo numa viagem encantada.
Trocamos noite por dia. Trocamos horas confirmadas num imaginário relógio de sol. Paramos o tempo e esquecemos tudo aquilo que estava por detrás da altíssima parede composta por pedra, pó e vegetação que nos separava da civilização. E vislumbrei aquilo que apelidei de “
Paraíso”. Andámos dois dias como os caracóis. Viajamos como o essencial as costas para sobreviver. Só isso foi o que bastou.
Tudo aconteceu no segundo dia em que assentamos arraiais em plena praia vazia de anos e almas humanas. As pegadas vistas pareciam fosseis que existiram há séculos. Parecia que por ali o tempo era apenas regida pela acção do vento e da maré. Ambos esculpiam como ágeis mãos de escultor sábio, formas e volumes nas rochas e areia. E o que mais me fazia sorrir era a sensação de ter os olhos das estranhas criaturas daquele habitat pregados no corpo com uma curiosidade voraz.
A noite estava quente demais para suportar o corpo comprimido contra a areia adormecido num sono tranquilo. E realmente uma agitação pairava no interior do meu peito que me fazia arregalar os olhos. Todos dormiam. Olhei o mar e decidi em fracção de segundo sentar-me mais perto da costa para apanhar uns farrapos de brisas fresca. Sentei-me e observei todo aquele ambiente. Murmurei pelos dias futuros em que iria ter saudade daquele momento.
O que já está a acontecer. Deixei por fim a minha imaginação brincar no murmurinho das ondas que batiam a beira do mar.
Ouvi uma voz silenciosa. Seguida de um canto nunca antes ouvido.
Daqueles que só se ouvem quando se está na hora certo no sítio certo. Olhei em volta para procurar de onde vinha aquele canto sem lábios e os meus olhos prenderam-se nuns seres magníficos que deslizavam na suave maré. Tão lindos e tão intocáveis, aqueles seres de nome “
Medusa”.
A lua suspensa em prumo produzia reflexos de luzes e cores nos seus corpos transparentes e nos seus múltiplos braços, que me trouxeram à memória cabelos à deriva, deambulavam num jogo de casamento eterno. Um jogo alucinante que alimentam os olhos
daquilo que é belo para sempre.
No paraíso onde as "
Alforrecas" são tratadas por
"Medusas" existem cores que enquanto a vida soprar em mim nunca vou conseguir definir um único nome que seja para lhes atribuir.
Violeta alaranjando. Amarelo dourado... não. Não consigo.
Dei por mim consumida num sentimento invejoso...
invejei-as... adormeci...